Receita da felicidade

Olá, meus amigos que acompanham minha coluna no Portal Contexto. Semana passada, escrevi sobre a efemeridade das coisas em nossas vidas. Naquele texto, dizia eu que tudo na vida passa, que tanto os momentos ruins quanto os bons passam e que a felicidade e a tristeza é um processo transitório.

Muitas me questionaram quanto ao que escrevi. Alguns até disseram que o texto era um banho de água fria na busca da felicidade, pois diziam que não devemos nos empolgar com a felicidade. Se ela é efêmera, corremos o risco ter nossas asas derretidas como as feitas de cera utilizadas por Ícaro, que em sua ânsia de voar até o sol, teve suas asas derretidas e caiu morto ao solo.

Bom, vamos aos esclarecimentos. Antes de mais nada, serei direto. Eu gostaria de dizer para você, leitor, que eu tenho a receita para a sua felicidade, mas na verdade eu não tenho, aliás, ninguém tem essa receita, essa receita é encontrada dentro de você.

Conceito de Felicidade

Certa feita, me deparei com um teste para medir a quantidade de felicidade que sentimos. Um teste desses que aparecem em revistas, e que “modelam” o conceito de felicidade. Muito bem, resolvi fazer o teste. Para a minha surpresa o teste deu como resultado que eu era uma pessoa absolutamente feliz.

Nesta época, eu não sabia nada de psicologia! Dedicava-me as ciências penais, como advogado criminalista e professor de direito penal em uma faculdade de direito. Era bem realizado em tudo que fazia profissionalmente, gozando de boa avaliação dos meus colegas de profissão e também dos meus alunos.

Estranhamente aquele resultado me deixou incomodado. Pois, apesar de ter tudo que sempre planejei, naquele modelo de vida que nos é imposto por um discurso social do ter, do produzir, deparei-me com um conflito: eu tinha tudo que queria, mas no fundo eu sentia que não era feliz.  Acordava às segundas torcendo para chegar a sexta à noite.

Será que isso era uma vida feliz? E por mais que eu negasse a resposta que vinha a minha mente, eu ficava sempre com um não ao meu questionamento. Em outras palavras, eu tinha tudo que todos sonhavam como modelo de felicidade e de realização e não me sentia feliz. Aliás, o único momento que me sentia feliz era quando estava em sala de aula com meus alunos, de resto, tudo era um fardo para ser carregado.

A sua felicidade só depende de você

Este é meu primeiro ponto, a felicidade é algo da ordem interna sua! Sim sua, meu leitor, não tenho e ninguém tem o direito de dizer para você o que é ser feliz. E mais, como disse antes, ninguém tem receita para a sua felicidade, a sua felicidade é “culpa” sua.

Os gregos, em seu modo de ver a vida, cunharam um conceito, a chamada Eudaimonia, que a felicidade se constitui pela busca da essência de ser plenamente o que se é. Assim, por exemplo, quando uma semente de jaca, fecunda, desenvolve e se torna uma linda jaqueira, produzindo frutos, fazendo sombras. Enfim, atinge tudo que ela tem enquanto potência de ser, ela seria uma jaqueira ‘feliz”.

Neste sentido também é o ser humano. Segundo esse conceito grego, o ser humano somente seria feliz quando atingisse toda a sua potência de ser, aquilo que já tratamos em outras colunas, como um conceito que Spinoza nos trouxe e que Freud chamava de pulsão de vida.

Sucesso financeiro é outra coisa

Em um mundo em que a felicidade é encarada com discursos do tipo, qual carro você tem, qual a sua conta bancária, qual o seu celular, qual a sua viagem de férias, onde vai parar o ser, essa potência de agir? Pergunto mais, onde foi parar o seu Ser, a sua vontade, o seu desejo? Será que o que você deseja é seu ou é do outro que lhe impôs um discurso do que é o conceito de felicidade para atender a demandas do mercado?

Altruísmo e compaixão

Milênios mais tarde do conceito grego de Eudaimonia, surge na Terra um homem que diz que felicidade é o amor ao próximo, é se doar ao outro, é dividir. Que a realização da felicidade está no querer o bem do outro. Para essa parte do pensamento a felicidade estaria na transcendência de nossa natureza corpórea e que nos engessa. Para que abrindo mão dessa materialidade, possamos nos encontrar em um outro lugar, mais libertos dos cativos do corpo.

Interessante, se você já entendeu, estou falando sim da doutrina judaico-cristã, que prega exatamente isso.  E este ponto nos toca profundamente na psicanálise, pois traz em si o conceito de sublimação. Para Sigmund Freud, colocando em palavras mais leves, sublimação seria um processo onde o sujeito opera um mecanismo de defesa de seu ego, onde seus impulsos ou idealizações socialmente inaceitáveis ​​transformam-se em comportamentos socialmente aceitáveis.

Freud afirmava que a sublimação sinalizava uma maturidade e civilização, de tal modo que as pessoas funcionassem normalmente de maneiras culturalmente aceitáveis. Neste processo, ele afirmava que a sublimação se constituía em um processo no qual desviavam-se as pulsões em atos de maior valor social. Isso significaria uma marca notável do desenvolvimento cultural, pois tornaria viável atividades psíquicas superiores, assim, sendo caminharia rumo ao encontro com seu Eu em paz.

Esses dois pontos de vista da felicidade e sua localização em o nosso psiquismo nos leva à percepção de que vivemos em um estado de permanente agonia e mais uma vez, para entender a vida, gosto de recorrer as origens das palavras.

Guerra interna e solitária

Agonia também é uma palavra que deriva do grego, que significa luta, enfim, significa que você está lutando e lutando para se encontrar nesse turbilhão de emoções que fomos mergulhados quando entramos no mundo e agravado com o momento desafiador que estamos vivendo, ante a essa nova realidade imposta.

Da palavra agonia derivaram duas palavras que também são muito importantes em nossas vidas, muito ligadas ao teatro e aos filmes. Protagonista e Antagonista. O protagonista é aquele que luta para conseguir algo, realizar algo que deseja, já o antagonista é aquele que vai se opor àquela realização, tentando impedir que o “mocinho” chegue ao seu objetivo.

Neste sentido, no teatro de nossas vidas, somos os atores protagonistas e antagonistas, somos nós que criamos os obstáculos para a realização da nossa felicidade e a agonia que sentimos bate justamente desse conflito.

Assuma o controle

Voltando ao início do meu texto. Quando decidi romper com o direito, quando resolvi mudar de vida, resolvi ser o protagonista da minha vida. Resolvi deixar de ser um mero espectador de minha vida… Onde o mundo dizia para mim o que era bom. Eu passei a buscar aquilo que é bom para mim, claro, sem atropelar ninguém, sem pisar em ninguém, sem causar sofrimento no outro.

Neste momento descobri que amava dar aulas, mas tinha nascido um outro amor em mim, o amor pela psicologia.  Mas fundamentalmente o amor por mim mesmo! Não aquele amor narcisista, que destrói o outro, que fere, mas aquele amor em que passou a respeitar meus desejos e anseios, independentemente do discurso do outro..

Percebi também que as duas posições que expliquei, seja a visão grega, ou a judaico-cristã, me servem para constituir toda a minha potência de ser. Dessa forma, encontrei a minha receita para a felicidade. Queria dizer que isso que funcionou para mim, serve para todas as pessoas do mundo, mas isso não seria verdade.

O que posso dizer para você é que a sua vida, é responsabilidade sua e de suas escolhas. Jung dizia que no teatro da vida somos todos atores. Seja pelo uso de nossas máscaras sociais, as chamadas personas, seja pela construção do Eu, onde nos tornamos protagonistas de nossas cenas.

Quer um conselho?

Se posso dar uma receita para você, contrariando o que disse acima, quanto a não ter receita, digo: na agonia da vida seja protagonista da sua felicidade. Lembre-se que o único antagonista entre você e seu de desejo é você mesmo.

Assenhore-se de seus sonhos, seja ele qual for! Só não confunda seus sonhos com delírios. A diferença entre o sonho e o delírio é a possibilidade de ocorrência. Exemplo: Por mais que eu goste de futebol, leia livros sobre o esporte, por mais que deseje ser jogador de futebol, eu jamais serei tão bom de bola como um jogador profissional de um time mediano do campeonato brasileiro. Isso é um delírio. Já um sonho é por exemplo, eu decidir que quero emagrecer uns 10 quilos, isso é exequível. Mas seria delírio querer emagrecer e continuar comendo tudo que gosto de comer.

Portanto, meus caros, para encerrar esta coluna que hoje ficou longa.  O que quis dizer com o presente texto e esclarecendo a coluna da semana passada é que ninguém vai lhe entregar a sua felicidade a não ser você mesmo, quando fizer o compromisso com seus desejos. Mas mesmo assim, tal como na minha vida, haverá momentos em que dificuldades irão se impor. Que a vida irá tirar um pouco de nossa potência de agir, que ficaremos tristes…  Mas nesse momento, temos que nos manter no protagonismo de nossas vidas.  Para que tenhamos condições de passar pelos momentos desafiadores e voltar o mais rápido possível para aquilo que Spinoza definiu como sendo o estado de alegria, que seria comparável à felicidade.

 

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