Você já ouviu falar de Infodemia? [Bastidores de Você]

Olá! Amigos leitores, hoje escrevo sobre um assunto que me impactou bastante ao ver o editorial que será publicado em Primeiro de Agosto desse ano na revista The Lancet. O documento denominado em inglês “The truth is out there, somewhere”.

O documento sintetiza o resultado da Primeira Conferência de Infodemiologia da Organização Mundial da Saúde, do qual pego o gancho para falar justamente do adoecimento psíquico por conta deste assunto.

O termo infodemia, cunhado pela primeira vez em 2002, caracteriza-se como sendo uma “sobrecarga de informações, algumas corretas e outras não, de tal forma que isso torna difícil identificar as confiáveis e as que são não confiáveis”. Isso, por si só, gera um risco enorme para a saúde pública, seja porque os riscos de contaminação aumentam, seja pela utilização ou não da utilização de medicações adequadas, enfim, as informações ficam contaminadas.

Um exemplo destes riscos são os movimentos que pregam contra as vacinações. As notícias falsas sobre o assunto levaram ao retorno do aparecimento de doenças que eram erradicadas, como por exemplo, o sarampo.

No caso da pandemia do COVID-19, as informações contraditórias tornam mais grave ainda, porque discursos fatalistas ou negacionistas acabam por turvar a visão da população, levando a um conflito interno nas pessoas.  Conflito esse que além de colocar em risco a saúde física, também representa um perigo para a saúde mental dos mal informados.

Redes sociais representam um risco maior para a disseminação destas informações dúbias, especialmente por conta de seus algoritmos que privilegia exibir assuntos que a pessoa usualmente lê. Numa realidade em que a pessoa está ávida de conhecimento, ao ver tais informações contraditórias, acaba gerando uma angústia, causando sofrimento psíquico. Ainda que as redes sociais retirem conteúdos não checados, essa informação fica na rede por um tempo suficiente para fazer estragos, devido ao compartilhamento massivo e seu alcance.

Nós somos constituídos de uma forma em que precisamos, seja pela anatomia de nosso cérebro, seja pelo dinamismo do psiquismo, de algumas certezas. Assim, quando a ciência, que desde a revolução do pensamento proposta por Descartes no Discurso do Método, assumiu o campo da segurança, em certa medida trouxe uma segurança psíquica para nós, tal como no período do medievo as pessoas tinham na religião sobre a vida.

O COVID-19, como escrevi em outros textos, por si só já abala nosso psiquismo devido pela maculação de nossa confiança no porto seguro da ciência, assim, quando perdemos esse refúgio, já temos um grande problema para lidar. Quando a ciência não consegue apontar respostas para aplacar as nossas necessidades ficamos expostos ao desamparo. Como a saída psíquica buscamos encontrar alguma tábua de salvação para nos estabilizar e, diante da proliferação de notícias, ainda mais as contraditórias, caímos em um mar bravio sem saber onde nos aportarmos para esperar a tempestade passar. Ficamos como uma nau em um mar revolto no centro de uma tempestade e, por conta disso, nossos medos e necessidades de amparo, sentimos medo, ansiedade, angústia, enfim, uma gama de sintomas que, em longo prazo, vai causar adoecimento psíquico.

Nosso psiquismo não diferencia o que é fakenews ou informação técnica conflituosa. Por exemplo o intenso debate é a forma de transmissão do vírus, alguns estudos apontavam para um lado, outros para uma direção oposta. O que confiar? O que fazer? Qual a comprovação? Tudo isso nos coloca em um lugar desconhecido e nós, seres humanos, por razões evolutivas, temos a tendência de não lidar bem com o desconhecido, nos levando a temer o futuro.

O medo talvez seja o maior desafio para a humanidade, pois ele é o maior limitador dos comportamentos. Segundo Paula Frazão, “é apenas um pensamento mal formulado em nossa mente”. Neste sentido, se temos uma gama de informações contraditórias, por consequência lógica, o pensamento que há de vir desse conflito é naturalmente contido com um defeito de origem desta forma que o medo nasce.

Assim, meus amigos, muito cuidado ao se informarem. Sugiro que utilizem, sempre que possível órgãos oficiais e de base científica, para que você não seja contaminado com esse pensamento. Caso não seja uma pessoa versada nas ciências, não procure informação em demasia, pois você poderá ser contaminado com informações não fidedignas e isso, ao invés de acalmar sua angústia poderá fazer com que você acabe aumentando-a.

 

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