Narcisismo e autoestima… [Bastidores de você]

Olá, tudo bem? Hoje converso com você sobre algo importante e muito confundido pelas pessoas: a autoestima. Antes de começar trago para nossa prosa um resumo da história de Narciso.

A lenda conta que, quando nasceu, a mãe de Narciso foi avisada pelo adivinho Tirésias, que ele seria muito belo e despertaria o amor de muitas donzelas na região. O adivinho disse também que o menino poderia viver por muitos anos, desde que ele nunca admirasse a sua própria beleza. Caso contrário, uma maldição seria lançada sobre ele e lhe causaria a morte.

Narciso, por ser muito bonito, atraia a atenção de todas as ninfas e donzelas da região. Entretanto, preferia viver só, visto que não havia encontrado ninguém que julgasse merecer o seu amor e sua beleza.

A ninfa Eco, por exemplo, foi uma das pessoas que se apaixonou por ele. Porém, ela foi desprezada. Diante do desprezo, lançou, com ajuda dos deuses, uma maldição. Nesta maldição, Narciso iria amar com a mesma intensidade uma pessoa, mas que ele não poderia jamais tê-la em seus braços. E assim aconteceu, pois a deusa da punição, Nêmesis, escutou e atendeu ao pedido da ninfa Eco.

Ao se dirigir para um lago, para beber água, Narciso se inclina e vê sua imagem refletida. Ele se encanta perdidamente, ficando completamente fascinado pela imagem que via refletida no espelho d’água. Devido à sua grande beleza, Narciso é capturado e apaixona-se por sua imagem.

Com certeza é algum espírito das águas que habita esta fonte. E como é belo!”, disse, admirando os olhos brilhantes, os cabelos anelados como os de Apolo, o rosto oval e o pescoço de marfim do ser. Apaixonou-se pelo aspecto saudável e pela beleza daquele ser que, de dentro da fonte, retribuía o seu olhar.

Comecei contando, de modo resumido a lenda, porque compreender o mito é fundamental para captar uma série de questões que estamos passando nos dias de hoje, pois muitas pessoas acreditam que autoestima elevada está ligado à beleza externa. Muito por conta do discurso atual da sociedade, onde o belo e o desejado reside apenas na casca de uma pele impecável, de um poder econômico, em outras palavras, na sociedade atual o que importa não é mais o Ser e sim o Ter.

Não estou dizendo que é errado cuidar do corpo, da imagem pessoal, ou de qualquer outra coisa. A primeira questão que coloco é que de nada adianta ter um corpo em frangalhos se no interior a pessoa também está em frangalhos.

Somos pessoas incompletas e com defeitos, com virtudes, aliás, recomendo muito ler meu outro texto, onde falo do mito do amor proposto por Aristófones e também de Eros e Psique, lá exploro a incompletude do ser, texto que você encontra aqui mesmo nessa coluna.

Augusto Branco sintetiza bem o sentimento, não compreendido por uma pessoa dita narcisista:

Cultivava a vaidade e a beleza

como fonte principal de seu amor próprio

e assim, com o passar dos anos e as marcas do tempo,

tornava-se a cada dia mais infeliz.

 

Pense na vida de Narciso, que se julgava completo sem ser, sem perceber que nunca foi completo, pois ninguém é. Narciso vivia na ilusão de sua plenitude sem jamais tê-la atingido devido a sua “cegueira” para o outro. O Narcisista é um profundo sofredor! Ao contrário do que se pensa, ele está na busca de algo que jamais conseguirá ter.

Lembrando as palavras de Caetano Veloso:

Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto

Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto

É que Narciso acha feio o que não é espelho

E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho

 

Agora, imagina para Narciso (narcisista) o sofrimento que ele tem em si, pois o narcisista é antes de tudo um incompleto, tal como todos os outros, mas ele também sofre com a “punição”, ao não perceber sua incompletude, jamais encontrará aquilo que lhe completaria, e isso é bem expresso neste fragmento da peça grega, já pelo final Narciso exclama:

Porque me desprezas, bela criatura? E por que foges ao meu contato? Meu rosto não deve causar-te repulsa, pois as ninfas me amam, e tu mesmo não me olhas com indiferença. Quando sorrio, também tu sorris, e responde com acenos aos meus acenos. Mas quando estendo os braços, fazes o mesmo para então sumires ao meu contato.

Suas lágrimas caíram na água, turvando a imagem. E, ao vê-la partir, Narciso exclamou: – Fica, peço-te, fica! Se não posso tocar-te, deixe-me pelo menos admirar-te.

Não há nada de errado em cuidar do corpo, isso faz bem para a autoestima. Acontece que vivemos em uma sociedade em que as pessoas cuidam somente de si, de sua imagem. Tal como Narciso, não conseguia aceitar Eco, nós não conseguimos aceitar o outro.

De fato, uma mente sã habita um corpo são, mas quando o corpo passa a ser uma tentativa de cura da mente, isso começa a se tornar um problema. Se uma pessoa, por exemplo, tem um complexo de inferioridade grande, muitas vezes vai buscar um corpo supostamente perfeito para tentar, em alguma medida, dar um certo equilíbrio nos seus sentimentos e para isso entregará horas de seu dia nesses cuidados.

O que disse acima da “malhação” é só um exemplo, poderia falar na ânsia por títulos honoríficos, acadêmicos, etc… É claro que não devemos generalizar, e volto a dizer que se cuidar é excelente, querer crescer profissionalmente, enfim, melhorar é sempre muito bom. O que chamo atenção é a atual forma exagerada com a qual temos feito isso.

Percebe-se, então, que o narcisismo constitui uma possibilidade do indivíduo que caminha na direção de algo mais complicado, porque nele, quando exagerado, a pessoa perde o contato com a realidade. Ele se fecha para o mundo exterior e mergulha em uma busca inútil, ao mesmo tempo em que ele é tolhido da chance de encontrar o seu complemento.

As pessoas, hoje em dia, especialmente por conta das redes sociais, vivem uma ditadura do sucesso e da beleza. Capturados por essa ditadura, o Outro deixa de existir, e dessa forma, o Eu passa a ser o centro gravitacional da pessoa. Isso faz com que, em um limite, a pessoa comece a perder o referencial do outro, e perdendo esse referencial, ela como consequência perde o referencial de si mesma e aí, nasce o falso sentimento de completude, mergulhando a pessoa em um narcisismo doentio, trazendo o sofrimento que Narciso sentiu na beirada do lago.

Acredite ou não, a sua autoestima está ligada à sua mente. Infelizmente ainda existem pessoas que acreditam na “perfeição de ser belo”, ou que vaidade, vai resolver todos os problemas da sua vida. Pois quanto mais admirada, mais completa ela será, o que não é verdade, aliás, como no mito narrado por Aristófones em “O Banquete”.

Sua autoestima não melhora com o cuidado da casca, mas sim com a maneira como você lida com sua incompletude. Ainda que você se ache a pessoa mais linda do mundo, aquela que você vê é uma imagem refletida no espelho. Qual é o ganho real que a imagem fantásmica no espelho vai lhe trazer? Sou obrigado a dizer, não há!

É claro que não estou condenando toda a forma de narcisismo, e por óbvio, há uma certa quantidade de narcisismo necessário. O problema e esse foi o objetivo da coluna dessa semana, é o exagero e a autoestima fora de controle. Aliás, como disse no início do texto, o narcisista, no fundo, bem lá no fundo, não tem uma elevada autoestima, pelo contrário, aliás, como diria Freud: “todo excesso esconde uma falta”.

Assim, quero deixar você, caro leitor(a), com uma frase de Voltaire que define bem o que estamos falando: “Os infinitamente pequenos têm um orgulho infinitamente grande”. E aí, como anda seu narcisismo hoje?

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