Os números não mentem jamais, apenas quando eles mentem [Território Múltiplo]

O título não é meu. Esse título era de um press-release, texto para a imprensa, que recebi em algum momento do passado. Por ser tão criativo, nunca me esqueci dele. Volta e meia, repito, virou um mantra. Os números não mentem jamais, apenas quando eles mentem.

Quando o mundo fica subjetivo demais, buscamos na exatidão dos números alguma segurança. Tudo bem, não vejo problema nisso. Mas será que os números são tão exatos? E quando a fonte oficial resolve mexer neles? Ou resolve tirá-los do ar?

Treta da semana

Tenho a certeza de que você viu o rebuliço com a mudança da divulgação dos números da Covid-19. E eis que nos deparamos com mais um erro estratégico do governo federal. A transparência é praticamente uma cláusula pétrea nos dias de hoje. Não vejo outro caminho dentro de um sistema democrático. Além disso, vivemos a era da informação. Assim é bem complicado querer impedir o acesso à informação ou a divulgação da informação.

– Ahhh essa a imprensa mente ao usar números relativos. Já viu o tamanho da população do Brasil? Agora todo mundo morre de covid, é? 

Algumas coisas que eu escuto e leio por aí. Já vi o tamanho do país, permita-me um questionamento. Vamos olhar apenas para os números absolutos. 

O Brasil já contabiliza mais de 35 mil mortos por conta do coronavírus. Tudo bem? Morrer é o destino de todos? E se fosse alguém da sua família? Fica a provocação.  

Por mais que o governo federal tenha tentado tirar o Portal da Transparência do ar ou mudado o formato de divulgação dos dados do Ministério da Saúde, não adiantou. 

A imprensa já se uniu para compilar os dados das secretarias de cada estado. Gabbardo, lembram dele? Gestão Mandetta? Pois bem, ele lançou um portal para divulgar os números. O Conass também. A Câmara se movimenta para isso. E o STF também já ordenou o executivo a mudar de ideia.

Ainda tivemos a polêmica da recontagem dos mortos. A ideia foi proposta por um empresário dentro do Ministério da Saúde. Gente, recontagem nunca foi algo recomendado. O empresário já foi embora e pediu desculpas pela fala. Gabbardo comentou que se houvesse uma recontagem, os números de infectados e mortos aumentaria. E aí?

E eu me lembro aqui de uma frase proferida por um dos meus professores nos meus tempos no Instituto de Ciência Política. “Ao sapateiro, os sapatos”.

O que eu não entendo!

Bom, tem algumas atitudes do executivo que não fazem o menor sentido para mim. Na lógica deles deve ter algum, mas… Realmente, o vírus virou uma arma política e virou um cabo de guerra exaustivo. A cada semana, vemos situações que nos distanciam do que realmente importa. É tempo de cuidar de vidas e dar condições para que o país não sofra tanto durante e pós-pandemia. Talvez esperar por isto seja uma grande utopia, que seja, eu ainda fico com a utopia.

Outro ponto que eu não entendo. Se alguém aí souber o motivo, por favor, compartilha a resposta: por que os apoiadores do governo defendem intervenção militar com Bolsonaro no poder?

Bolsonaro já está no poder, certo? E temos vários militares ocupando posições estratégicas, não é? Será que tudo isso é trauma de não ter feito a campanha eleitoral na rua? Não entendo.

Outro ponto que precisamos olhar com carinho. Essas atitudes do executivo podem ter um custo econômico significativo. Apesar de optar por uma agenda liberal, o governo vai manchando a imagem do país para o mundo. Essa atitude pode afastar investidores e dificultar acordo internacionais. Não estamos sozinhos neste mundo. E a cooperação entre povos, que inclusive está na nossa constituição, é fundamental em qualquer panorama. Imagina dentro de uma crise global.

Leitores de título

O mal do século! Que saudades da segunda fase do romantismo, quando o mal do século era outro (referência ao período literário ali do século XIX). 

Era da informação, certo? Somos bombardeados de títulos, textos, artigos, comentários…  É exaustivo viver nesta era. Como eu voto pelo isolamento em alguns momentos! Então, o excesso nos causa uma natural aversão. O que eu quero dizer, não temos tempo para ler tudo, e ficamos impacientes com tanto texto. Daí, lemos apenas com um tuíte (e com tudo que está acontecendo, o Twitter voltou a fervilhar).

E quando ficamos apenas na superfície, ah, cometemos erros. Vamos dar uma olhada nisso?

A notícia era: A OMS admite que assintomáticos não transmitem coronavírus. Diz o título, e a conclusão é: larguem tudo e voltem para rua agora. Na continuidade da leitura é possível ter a informação completa que diz que parece rara a transmissão dos assintomáticos, mas isso não se aplica aos pré-sintomáticos.

A OMS já esclareceu a declaração, e reafirma que existe a transmissão por indivíduos assintomáticos. Toda essa ‘confusão’ é esperada. Faltam estudos conclusivos e a nossa pressa em consumir informação também não ajuda. Diquinha de ouro: pode, parece não é igual: a não transmite de jeito nenhum e tá tudo certo, vamos seguir a vida!

Volto a dizer. bom senso e canja de galinha não fazem mal a ninguém.
Até a próxima!

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