[Território Múltiplo] Perdi meu emprego no meio da crise, e agora?

Pois é, caro leitor, o coronavírus veio trazendo novas situações. Nós, do lado de cá, não imaginávamos viver nada do que estamos vivendo, ou quando você via na TV: Wuhan está isolada, você imaginou que o vírus chegaria até aqui mesmo?

Eu digo por mim, eu assisti a tudo sem saber o que pensar. Talvez, por acreditar que seria como a SARS de 2002. Minha doce ilusão me protegia de pensar no que estamos vivendo.

Pois bem, fim de fevereiro, o vírus desembarcou no Brasil. No primeiro momento, era uma doença de quem tinha poder aquisitivo e realizou recentemente uma viagem internacional – muitos fizeram piada disso. Sem sintomas ou com sintomas leves, o coronavírus se espalhou e entramos na fase de transmissão comunitária. 

Governos, prefeituras passaram a recomendar o distanciamento social. Decretos fecharam comércios, mas tudo isso você sabe e eu acredito que o motivo disso também.

As mudanças foram impostas. O regime home-office se tornou uma opção real e vemos que em muitas áreas ela funciona muito bem. Reuniões pelo Zoom e outras ferramentas digitais se popularizam. Mais empresas estão apostando no marketing digital e entendem que o futuro é online.

Outras empresas cancelaram ou suspenderam contratos. Pessoas foram demitidas, tiveram salário reduzido ou não fazem ideia se vão receber pelo tempo trabalhado antes da pandemia.

Fato é que a crise econômica não veio por conta dos decretos de fechamento e paralisação dos comércios e empresas. Estamos em crise e não é de hoje. Os inúmeros setores da economia precisam contar moedas para se manter de portas abertas. 

‘Não é bem assim’, você pode pensar, mas basta olhar nos índices e no desempenho do comércio, indústria nos últimos dois anos. Além de conversar com empreendedores por aí…

E a crise de saúde pública se tornou uma crise política. Ministros, governadores, prefeitos, STF e o Planalto estão em um cabo de guerra muito delicado. 



É pela economia! Sem trabalho as pessoas morrem! versus É pela vida! Vivos podem se reerguer, buscar novos trabalhos, mortos não!

E de repente, o presidente faz o discurso mais egoico e estranho que eu já vi (eu tenho o hábito de ver discursos). Chama o Covid-19 de gripezinha e diz que para ele não teria problema (só que ele não governa só para ele). 

Dizem que por pressão dos militares, o tom mudou, mas a briga seguiu com o então ministro da Saúde, que defendia o isolamento, uso de máscaras caseiras…  Mandetta ganhou a confiança e o ‘coração’ dos brasileiros. Somos assim, precisamos de tempos em tempos eleger heróis, foi assim com Joaquim Barbosa, lembram?

Com os desentendimentos, sabíamos que o divórcio seria uma questão de tempo. E ele veio. 

Vou dividir com você as minhas impressões dos três discursos: o de despedida de Mandetta, o do presidente e do novo ministro da saúde.

Mandetta
Mandetta seguiu a linha que adotou durante os últimos três meses. Ele defendeu a ciência e elogiou o trabalho realizado pela equipe do Ministério. Por mais que eu escute de muitos que ele deva ir para um cargo eletivo em 2022, bom, vamos aguardar os próximos capítulos. E se isso acontecer, não ache estranho.

Presidente
O presidente em um tom baixo, não era o mesmo tom firme e postura de sempre, disse que o divórcio veio de forma natural. Reafirmou a importância das pessoas voltarem aos postos de trabalho, pois o Estado não tem condições de sustentar os auxílios por muito tempo. 

Eu entendo a preocupação econômica e quero pensar com você uma coisinha: o coronavírus nos mostrou a importância da educação financeira (das pessoas e das empresas) e como precisamos evitar os gastos com o supérfluo. Daí eu te pergunto: você acha mesmo que as pessoas, se o comércio voltar amanhã, vão voltar a comprar como se não houvesse amanhã? Será que o bater perna pelo shopping vai seguir um hábito ou teremos receio de lugares com aglomeração?

Ah, mas tem gente que.. Tem. Eu sei que tem. Mas o que eu quero trazer para a reflexão é, será que mais uma vez viveremos o endividamento público e privado? Calma que eu explico o que eu estou pensando aqui. 

O crédito sempre foi um problema no Brasil nos últimos anos. O cartão nos dá limites que desconhecemos, e nem sempre o salário é compatível com esse limite. Ou seja, mesmo com a volta das atividades, quem vai ter dinheiro para pagar as contas de fato?

O turismo (responsável por 10% do PIB mundial), o setor de eventos, a aviação movimentam bilhões em todo mundo. Só a aviação calcula um prejuízo de US$ 30 bilhões, já tem companhia que atua no Brasil sinalizando que o combustível está acabando. 

Caberá aos governos políticas econômicas para tentar reaquecer os mercados e criar oportunidades para pessoas e empresas. Já vimos isso no passado. New Deal para superar a crise de 1929, Bretton Woods, em 1944. Os governos precisarão agir, a iniciativa privada por si não será capaz de se reerguer dessa crise sem precedente. 

Países declararão moratória, ih, a Argentina já fez isso e vem fazendo, não é? Pois bem, não estranhe se algumas dívidas por aí forem perdoadas.

A impressão que eu tenho é: eles acreditam que é a crise econômica é culpa do coronavírus e apenas voltar às atividades irá resolver, plim, como num passe de mágica. Bom, acho que vai ser preciso muito mais do que a força da nossa mão-de-obra.

Novo Ministro
Que fala confusa. Achei. E te conto os motivos, a forma com que Nelson Teich conduziu o discurso deu a impressão que não sabíamos o que estávamos fazendo, e que o excesso de informação estaria nos confundindo. Eu tenho uma forma muito simples de ver, temos um vírus que exige mais da estrutura de saúde (hospitais, EPIs, leitos, equipamentos…), uma taxa de letalidade – relativamente – baixa, mas que se espalha muito rápido.

E ele seguiu dizendo que precisamos conhecer melhor o vírus. Não isso que o mundo está fazendo? Cientistas de todo mundo estão aí, dia e noite, pesquisando, pesquisando e já temos por aí vários artigos explicando como o vírus age no pulmão, por exemplo. As pesquisas de tratamento e vacina também estão em andamento.

Ele defende o retorno às atividades. Falou muito em desenvolver várias pesquisas, testagens em massa e tal… 

A impressão que eu tive foi que o país está perdido e a gente correu para debaixo da cama, esperando o lobo mau ir embora. 

Precisamos de uma alternativa para girar a economia, mas sem colocar em risco a vida das pessoas. Eu não sei dizer como faremos, afinal, vivemos uma crise desde 2016. 

Alguns sistemas de saúde do país estão colapsando já, não falo isso para criar a tal da histeria, que nós, jornalistas, somos acusados o tempo todo. Eu digo isso, pois precisamos ter atenção ao bem mais valioso que temos, é a vida, essa não se compra, essa não se troca. Espero que não vejamos de novo a cena do prefeito de Milão, no fim das contas, Milano si ferma (Milão se para).

Seguirei acompanhando os próximos capítulos. Estou curiosa para entender como o senhor ministro irá implementar todos os planos.

Por hora, use máscara se precisar sair de casa e lave bem as mãos!

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