O Mito da Caverna, o Amor e o Ego [Bastidores de você]

Conversando com algumas pessoas, vendo o caos que a pandemia do COVID-19 está fazendo com as relações pessoais, inclusive fazendo com que pessoas do governo entrem em rota de colisão. E como sou um ávido pensador, especialmente do amor e de suas representações, dedicarei este texto a entender um pouco do que venha a ser o amor nos dias de hoje sob a perspectiva do Mito da Caverna.

Resumidamente falando, no Mito da Caverna, prisioneiros vivem desde a tenra infância presos em uma caverna onde eles somente conseguem ver as sombras projetadas na parede daquilo que se passa do lado de fora. O que este mito nos mostra é que muitas vezes nos acorrentamos a essa realidade e esquecemos que existe um mundo do lado de fora.

Realidade x expectativa

E o que isso tem haver com o amor? Muito e é exatamente isso que vamos falar, pois como diria Lacan, “o amor é o mais sublime dos sintomas”. E como tudo no mundo se estrutura com base na linguagem, o amor, sendo um sintoma, também se forma de acordo com a linguagem.

A linguagem, nos dias de hoje está conduzindo as pessoas para o império de si mesmo. Levando as pessoas a um isolamento, interpretando a vida não mais pela beleza que reside fora da caverna, e sim nas falsa projeções da realidade que fazemos em nosso mundo individualizado.

Padronização do que era pra ser espontâneo e livre

Nossa sociedade, acabou por massificar o que venha a ser o amor. Onde haveria uma “forma certa de amar” e que o outro deve-se adequar ao que a pessoa julga como uma forma correta de amor. Vemos isso nos mais variáveis campos da sociedade, onde os filhos ditam aos pais o amor que querem, onde a crença no Divino é dada através da medida em que o sacrifício feito torna Deus devedor daquele que se sacrificou. Ou ainda que a pessoa que irá amar a outra deverá se encaixar no modelo de amor preconizado por aquele amado.

Vive-se em uma sociedade em que o Amor é ditado por essa ou aquela maneira. Mas na verdade, o amor é plural e é uma experiência una, de cada pessoa e cada uma delas, aliás, lembro-me das palavras de Clarice Lispector:  “Mas há a vida que é para ser intensamente vivida. Há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata”.

Clarice nos ensina justamente isso, que o amor não destrói, somente constrói. Mas o amor existe para ser vivido ao máximo, sem medo, ouvindo o coração. Mas o problema da atualidade é que os corações estão prontos para viver somente para si, onde a persona se torna mais importante do que aquilo que se passa no interior da pessoa.

Amor não é moeda de troca

O amor se torna, na atual sociedade, um sacrifício e como tal se torna falso tal como as sombras na caverna. Neste ponto surge a questão onde repousaria a falsidade do amor na atualidade? Na noção de troca, amo se esse amor me der algo. Me sacrifico de uma dada forma para que o outro me entregue aquilo que entendo devido. Em outras palavras, no seu mais elementar, o sacrifício repousa sobre a noção de troca: ofereço ao Outro algo que me é precioso para receber de volta do Outro algo que me é ainda mais vital.  Mantenho-me cativo, para que eu possa viver e receber aquilo que julgo necessário e indispensável.

Em um momento seguinte, temos outra forma de nos enganar. Como se aumentássemos o fogo da caverna para vermos mais coisas, quando disfarçamos o desejo egoístico de troca, passando a fazer isso de forma indireta.

Tal como na alegoria da caverna em que num dado momento as pessoas começam a perceber que há algo lá fora, mas o medo de perder o que está dentro as mantém na mesma posição. Isso encobre a necessidade do sacrifício do outro para o meu prazer. E se o outro entrega da forma ansiada, ainda há a opção de que outro cumpra aquele papel. O mundo lá fora, inclusive todas as catástrofes que podem acontecer, não é uma maquinaria cega sem sentido, mas um parceiro em um possível diálogo. De modo que até um resultado catastrófico deve ser lido como uma resposta significativa, não como um reino de cego acaso.

Dito tudo isso de outra forma, o sujeito ao se “dar” em sacrifício o faz para para preencher a falta no Outro. Para sustentar a aparência de onipotência do Outro ou, ao menos, sua consistência, na esperança de uma troca e que em seu lugar lhe seja ofertado algo mais caro.

Saia da caverna

O filme Beau Geste, o clássico melodrama hollywoodiano de aventura, de 1938, mostra justamente isso. A personagem vivida por Gary Cooper que reside com sua tia, furta um colar para evitar que sua família tivesse o nome manchado. Sua reputação é arruinada, sacrificada, mas no fundo ele faz isso para satisfazer na verdade um desejo seu.

No amor verdadeiro, a pessoa dá o que não tem para uma pessoa que não pediu, pois tal como a personagem fez, sacrificando-se a si mesmo para manter a aparência de honra do Outro, para salvar o Outro amado da vergonha e consequentemente ficar em paz consigo mesmo.

Buscar a saída da caverna é na verdade algo muito mais difícil, especialmente em uma sociedade que prega a sua própria realização, a sua própria felicidade, onde tudo e todos têm que se adequear ao desejo do indivíduo.

Para que a flecha de Cupido, para que Eros possa cumprir com sua missão é necessário ser flechado, mas para isso é fundamental sair da caverna, pois sombras não marcam corações.

A existência do amor depende da existência do outro de fato, o outro somente se constitui quando este é reconhecido e para isso é preciso se conhecer verdadeiramente e somente ocorre quando saímos da caverna que habitamos e vamos ao mundo exterior, ver que existem duas grandes coisas no mundo que moldam as pessoas: O Eu e o Não-Eu.

Ego e amor próprio são coisas muito diferentes

Longe de ser saudosista e acreditar que o passado era melhor. Mas na atual sociedade o Outro deixa de existir, não havendo dessa forma a sensação de completude que o outro nos trás pelo amor verdadeiro. As projeções cavernosas são na verdade um arremedo da expiação de Narciso que recusa Eco por conta de sua própria beleza. Só que esse amor não é erótico, não se dirige a ninguém, somente para sua própria sombra e por isso não gera completude, logo, torna-se descartável, novamente tal como Narciso fez com a ninfa.

Nesse caos, a pessoa passa a vaguear diante das sombras de si mesmo. Embriagando-se consigo mesmo e acaba por se afogar em si mesmo. Levando não a um amor, mas na verdade a um quadro depressivo. O Outro nos resgata do inferno narcisista e nos trás a completude, verdadeiro significado existencial do amor, enquanto sintoma.

A saída da caverna é a chave para o desvelar o mundo. Bem como, através da visão do outro, entender quem a pessoa é e seu papel. Na verdade sair da caverna é a verdadeira forma de responder ao enigma da esfinge.

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