O Comandante e o menino [Bastidores de você]

 

Olá meus amigos, hoje quero propor uma reflexão a partir de uma história contada por Jung em seu Livro Vermelho.

Em tempos de isolamento, quarentena e introspecção, penso que essas palavras podem nos ajudar a tornar menos dolorosa a quarentena imposta.

Jung nos conta que em certa vez um capitão de navio (não há qualquer referência ao presidente, a não ser a coincidência das patentes) estava muito preocupado com a quarentena que foi imposta à tripulação do navio.

O capitão do navio começa inquirindo ao menino o que lhe apoquentava o pensamento, já que o menino tinha acesso a comida, banho, sono, enfim, ele apesar de ter tudo que precisava estava insatisfeito com a situação.

O garoto então responde ao superior que seu incomodo não era aquilo que o tinha sido dito e sim que não suportava a vontade de ir à terra e abraçar a sua mãe, seu pai e sua família.

O comandante retruca questionando sobre como o menino se sentiria se fosse liberado de seu confinamento e acabasse por contaminar as pessoas que ele ama e, eventualmente, esse alguém, por ele ter sido quem levou a doença, viesse a morrer.

A dúvida

Em sua ânsia de justificar uma liberação, o menino afirmou que essa doença poderia ser uma invenção, como forma de fugir de sua primeira resposta que era justamente que não se perdoaria.

O líder do navio então questiona ao menino e se não for algo inventado, se for algo real?

A revolta

Subitamente o menino entendeu o que estava acontecendo, mas novamente, tentando achar uma saída para seu desejo, justo, diga-se de passagem, de querer estar com aqueles que ama, ele grita… – Privaram minha liberdade!

O capitão, agindo quase como um pai a ensinar, pelo amor, ao filho diz que não só a liberdade está privada, mas que o próprio garoto deve se privar de algo a mais, mas que isso deve partir dele mesmo.

Nisso o garoto, por conta de sua falta de percepção, achou que o capitão estaria de gozação. Então, o comandante da embarcação diz ao menino que se alguém lhe priva de algo, e sua resposta a essa privação não for a adequada, haverá mais perdas.

Confuso o menino pede para que lhe explicasse, pois ele não conseguia entender a lógica, pois para o garoto, se lhe estavam privando de algo, para vencer deveria se privar de mais coisas, isso não fazia qualquer sentido para sua mente pouco experiente.

A explicação

Então o comandante explicou que há 7 anos atrás ele foi submetido a uma quarentena e, após meses no mar, ele estava louco para descer do barco e curtir seu descanso, bem como estar com os seus e aproveitar a primavera que tinha acabado de chegar, poder ver as flores, os frutos, os pássaros.

Nisso o comandante passa a contar o que aconteceu. Ele narrou que os primeiras dias foram muito difíceis, e ele sentiu tal como o menino reclamava que estava se sentindo. O comandante de início passou a questionar as imposições, mas sempre tentando argumentar com uma lógica sensata, ponderada e racional, tal como o menino fizera com ele.

Os conselhos

Então o comandante passou a narrar o que fez para superar a quarentena. Contava o líder, que após um tempo embarcado, ele iniciou mudanças em sua alimentação.

Primeiro, reduzindo o consumo dos alimentos para ter mais para o futuro. Depois, passando a selecionar as comidas de mais fácil digestão para que seu corpo não se sobrecarregasse seu organismo, optando por comer alimentos mais saudáveis.

Como a quarentena não terminava, o comandante passou a depurar seus pensamentos, não se comprometendo com os pensamentos negativos e fazendo uma busca por manter seu pensamento em coisas boas, elevadas e nobres.

Um modo que o capitão disse que lhe ajudou muito foi a obrigação autoimposta de ler uma ao menos uma página, por dia de algo que ele não conhecia, dando uma grande utilidade ao isolamento.

O capitão se impôs uma rotina de exercícios diariamente, pois ele havia aprendido com um velho hindu que exercitar o corpo faria com que seu corpo ficasse mais alentado e se sentiria bem.

Esse mesmo velho hindu lhe ensinou que uma boa rotina de respiração, todas as manhãs, também ajuda na manutenção do corpo e da mente, até mesmo porque ampliava a capacidade pulmonar o que evitaria muitos males que ataca os marinheiros.

Também lembrou o comandante que nos períodos da tarde, ele dedicava a agradecer, da sua forma, a Deus pelo pequeno sofrimento que estava passando, pois poderia ser muito pior, caso perdesse parentes por conta de uma praga que ele pudesse eventualmente estar transportando em seu corpo.

O velho hindu era muito sábio e profundamente equilibrado. Ensinou-lhe ainda sobre o poder da meditação, sugerindo que o comandante criasse o hábito de imaginar que havia uma luz entrando nele, iluminando-o e fazendo com que o capitão ficasse mais forte e ainda, lançasse luz sobre os demais, para que eles se fortalecessem.

Outra saída emocional adotada pelo comandante foi, ao invés de pensar no que estava sendo privado, ele imaginava tudo que iria fazer quando desembarcasse. Ele vivia intensamente esses pensamentos, pois a espera tem a capacidade de fazer a sublimação do desejo e torná-lo mais poderoso.

O capitão disse ao menino que ele havia se privado de alimentos suculentos, de garrafas de rum e outras delícias. Disse ainda que ele se auto impôs a privação de jogar baralho, de dormir muito, de praticar o ócio, de pensar apenas no que me privaram e reforçou tudo que ele fez de bom naquele período.

Conclusão

O menino então perguntou como as coisas acabaram e o comandante disse: – Ficamos três meses embarcados sem poder descer. O menino em um rompante disse: – Você perdeu a primavera, de que adiantou tudo isso, você não viu as flores, não viu as cores da primavera que você tanto queria.

O capitão respondeu que sim, que naquele ano ele perdeu a primavera, mas que algo melhor nasceu, ele floresceu como ser humano e nunca mais a primavera saiu de dentro dele.

O que isso nos ensina? Duas coisas: a harmonia está dentro de você e que essa situação de isolamento pode ser um bom momento para você marcar um encontro com você mesmo; outra coisa que nos ensina é que a liberdade não é a fazer o que se quer e sim, escolher qual algema ou vou me colocar diante da vida, pois a felicidade não está na ausência de amarras, a felicidade repousa na capacidade de fazer a primavera surgir dentro de você.

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