Lockdown não afetou a economia como se esperava, diz pesquisa da Unicamp

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Créditos: Tomaz Silva/Agência Brasil

Estudo feito em parceria com a Universidade do Texas consultou 104 municípios paulistas

Uma das maiores adversidades que a maioria das pessoas pensam sobre o lockdown é quanto ao impacto econômico gerado pelo isolamento extremo. Tendo em vista o fechamento do comércio e dos principais serviços. Entretanto, um estudo realizado entre a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e a Universidade do Texas, mostrou que os municípios do estado de São Paulo (SP) que adotaram o distanciamento de forma severa tiveram impactos insignificantes na economia.

Entre os resultados, a pesquisa também afirma que os benefícios do lockdown podem ser potencializados se a política for articulada em um nível regional, e não somente em nível municipal. “Fica até um alerta, de que essas políticas precisam ser coordenadas regionalmente. Ao tomar decisão local, no município, o impacto é muito menor”, avalia o professor do Instituto de Economia (IE) da Unicamp e coordenador do projeto de pesquisa, Alexandre Gori Maia.

Para chegar nas conclusões, as duas instituições utilizaram os dados da análise de indicadores econômicos do isolamento social e da saúde. No total, 104 municípios de São Paulo que concentram 91% dos casos de Covid-19 foram consultados entre março e junho de 2020. Os números sobre o isolamento social saíram da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (SEAD). Os indicadores econômicos são do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED).

“Nós encontramos evidências de que ao relaxar o isolamento social há um aumento substancial do número de casos e do ponto de vista econômico não muda muita coisa, porque a dinâmica econômica acaba sendo afetada pela dinâmica regional”, explica Alexandre. “Os indicadores mostram que, quanto maior o isolamento, menor o número de casos e de mortes. Por outro lado, quando relacionamos o que aconteceria com o município em termos econômicos se ele não tivesse intensificado o isolamento, observamos que não haveria mudanças significativas”, continua.

“Não há evidências de que os municípios que adotaram isolamento mais severo tiveram pior dinâmica econômica”, afirma Maia.

O time de pesquisadores ressaltaram que os resultados obtidos não significam que não houve impacto econômico causado pela pandemia, porém, os danos não estão ligados a prática do isolamento. “Houve uma queda geral na arrecadação de impostos, mas não foi o fato de um município ter ficado mais isolado que outro que fez com que tivesse desempenho econômico pior. Não há evidências de que os municípios que adotaram isolamento mais severo tiveram pior dinâmica econômica”, disse o coordenador.

Dados

Créditos: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Para chegar na conclusão, os dois órgãos compararam a taxa de emprego líquida mensal e os dados fiscais com as médias mensais. A amostra possui um painel dos 104 municípios em quatro meses, março, abril, maio e junho. Estas cidades avaliadas representam a maior parcela da economia de SP, quase 85% do emprego formal e aproximadamente 90% da receita tributária do estado.

Segundo a pesquisa, as cidades perderam ano passado 440.852 empregos formais durante os primeiros quatro meses de quarentena oficial, entre março e junho de 2020. A perda líquida de empregos é quase duas vezes menor que os ganhos líquidos anuais de empregos entre janeiro de 2019 e fevereiro de 2020 (230.00 empregos) e representa 3,9% da população formalmente empregada do estado em dezembro de 2018.

Dentro desse contexto, a arrecadação de impostos ficou mais flexível à crise econômica e caiu 22% entre março e maio de 2020, de 9,6 para 7,5 bilhões de reais.  A coleta de tributos apresentou recuperação em junho, crescendo 9,3% em relação a maio.

De acordo com a Unicamp, embora o lockdown tenha atingido fortemente o corte do número de empregos formais em SP, variações de curto prazo no distanciamento social no nível municipal tiveram impactos insignificantes no número local de empregados formais ou na receita tributária.

Assim, municípios com medidas de distanciamento social mais rígidos não necessariamente tiveram o pior desempenho econômico do que aqueles com medidas mais relaxadas.  Esses resultados reforçam a ideia de que a pandemia da Covid-19 é o principal choque na economia em si, ao invés de decisões políticas para estender ou relaxar o distanciamento social.

Desigualdades socioeconômicas

Créditos: Rovena Rosa/Agência Brasil

O grupo responsável pelo estudo avaliou que o lockdown foi mais eficaz no controle da pandemia nos municípios mais vulneráveis no estado. “Uma hipótese é que é muito mais difícil manter regras de distanciamento em locais mais vulneráveis, então nesse caso a melhor estratégia parece ser o ‘fique em casa’”, observa. Por isso, o estudo indica que as políticas de controle da pandemia precisam levar em conta desigualdades socioeconômicas, já que as populações mais pobres em geral têm maior risco de infecção.

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