Por dentro do contexto: a invasão ao Capitólio

capitólio
Foto: U.S. Department of Homeland Security (DHS)/Fotos Públicas

Apoiadores atenderam ao pedido de Donald Trump e invadiram o Capitólio para interromper a sessão que confirmaria a vitória de Joe Biden. Mas quais são efeitos deste acontecimento?

Nesta semana, o mundo testemunhou imagens improváveis quando o Capitólio foi invadido por apoiadores de Donald Trump. Derrotado nas eleições de novembro, o republicano segue em negação e acredita em supostas fraudes eleitorais. 

Enquanto os parlamentares se reuniam em uma sessão no Congresso para certificar a vitória de Biden, Trump proferiu um discurso e incitou os apoiadores a protestar. Em instantes depois, o grupo invadiu o Capitólio. Infelizmente, cinco pessoas perderam a vida, policiais seguem hospitalizados e mais de 70 invasores já foram presos. A polícia de Washington, em parceria com o FBI, criou um site para que a população ajude a identificar os envolvidos no protesto. 

Depois que os manifestantes foram retirados, a sessão continuou e Joe Biden foi confirmado como presidente eleito, a posse acontecerá no próximo dia 20. Trump prometeu uma transição ordeira, mas já avisou que não comparecerá a cerimônia.

Mas o que significa a invasão ao Capitólio? Donald Trump poderá ser retirado da presidência? Quais os efeitos deste acontecimento para a democracia americana? E como fica o Brasil nesse cenário, afinal, Jair Bolsonaro também questiona a legitimidade do processo eleitoral brasileiro. 

Em busca de respostas, o Portal Contexto conversou com o coordenador do curso de Relações Internacionais da Universidade Católica de Brasília, José Romero Pereira Júnior.

O subsecretário de Segurança Interna Ken Cuccinelli visita o Capitólio para examinar os danos causados pelos manifestantes. Foto: U.S. Department of Homeland Security (DHS)/Fotos Públicas

CTXT: Professor, como o senhor avalia a invasão ao Capitólio?

A invasão do Capitólio, na minha avaliação, é um episódio muito sério, tanto pelo o que ela representa para a política norte-americana e também em termos históricos, quanto para o sinal que ela passa para o restante do mundo.

Em termos de política americana, ela mostra que há um desgaste muito profundo, incentivado, inclusive pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, do sistema político. Ela (a invasão) passa uma ideia de deslegitimação da classe política, de Washington e do próprio processo eleitoral, culminando aí um um discurso, um processo iniciado pelo Presidente Trump, mas fundado num discurso de deslegitimar o processo eleitoral que em essência tem como fundamento a ideia de que único legítimo a manutenção dele no poder e desse grupo que ele representa, em particular, o grupo que mandou historicamente nos Estados Unidos, de, principalmente, homens brancos. E que vem cada vez mais o seu espaço reduzido numa sociedade que mudou, tem mudado muito, inclusive pelo processo de democratização. 

Ah, o último ataque ao Capitólio tinha sido feito pelos ingleses no início do século XIX.

Para o resto do mundo é também um sinal preocupante na medida em que aquela que é considerada a maior democracia do mundo, a mais estável talvez, mas se não isso, aquela que tem lutado historicamente, pelo menos desde do início do século XX,  pela propagação do discurso democrático no mundo. 

Ela (a invasão) passa um recado muito ruim pro resto do mundo, principalmente para os maus perdedores espalhados pelo mundo inteiro, de que na insatisfação com o resultado das urnas talvez vale a pena insurgir-se e tomar o congresso, enfim, tentar impedir pelos mecanismos não legais. E nesse sentido, é um sinal muito ruim também para, para o restante dos países.

CTXT: Falando em desconfiança no sistema político, a insistência de que houve fraude, seria apenas uma ‘birra’ ou na realidade, seria um indicativo de que o sistema eleitoral ou o sistema representativo precisa ser revisto?

Eu acho que é do Churchill uma frase que diz que: a democracia é o pior dos sistemas políticos tirando todos os outros. Essa frase me vem um pouco em paralelo com essa ideia de revisão do sistema representativo. O que acontece hoje, na minha avaliação, é que as pessoas, nós, passamos a ter acesso a canais de representação, de manifestação, com um alcance nunca antes imaginado. E encontrar um sistema que consiga responder com a mesma velocidade do que um Facebook ou um Instagram responde as nossas aspirações, e que se converta em um sistema político, me parece um desafio ainda não vencido.

Alguns grupos, e estamos vendo isto com alguma frequência, grupos de extrema direita pelo mundo, conseguiram perceber essa defasagem e transformaram isso em manifestação ou em questionamento dos sistemas legítimos. Eu acho que é isso que vemos nos Estados Unidos. Seja um processo eleitoral tocado na mais perfeita ordem e que passa a ser questionado pela derrota de um dos lados e não pelo processo. Já havia questionamentos, é claro, sobre o processo eleitoral norte-americano, mas que diziam respeito, por exemplo, ao voto não direto para presidente. Se o voto fosse direto a derrota seria ainda mais acachapante na verdade. Não é isso que está sendo questionado, mas sim a contestação do voto pela insatisfação com o resultado. 

No final das contas, todos os responsáveis pela contestação do sistema atestaram a legitimidade do processo. O que me parece que abre margem para essa contestação é a manipulação de determinados grupos dessa defasagem que existe hoje do alcance de ideia individuais, que até um tempo atrás ficavam restritas a um círculo mais próximo, que hoje, ganham o mundo e parecem tomar a dimensão de um grande movimento político, que, às vezes, de fato tomam muito mais pela mobilização do que pela legitimidade ampla que essas ideias teriam. 

Para responder um sistema desse, só um modelo de democracia direta, mas mesmo no exercício da democracia direta, mesmo existindo tecnologia, tem se mostrado, historicamente, muito difícil pela exigência de que as pessoas se mobilizem o tempo inteiro para tratar de questões muito variadas.

José Romero Pereira Júnior, coordenador do curso de Relações Internacionais da UCB. Foto: divulgação

CTXT: Sobre Donald Trump, vemos um burburinho para que Mike Pence invoque a 25a emenda, que trata da retirada do presidente do cargo, ou ainda a possibilidade de um impeachment. Trump teria virado um pária ou ele ainda tem capital político? 

A possibilidade de impedimento ou afastamento do Trump que não seja auto afastamento, ela me parece muito reduzida, até porque faltam poucos dias pro final do mandato e enfim, esse tema certamente levaria a debates e, enfim, me parece pouco provável. 

Com relação ao Trump, o tempo vai dizer, até o momento, ele foi a voz mais importante desse grupo, que na minha avaliação, mais do que conservador, é, em alguma medida, reacionário mesmo. Nesse sentido, pode ser que ele continue a falar para um grupo grande de americanos, em especial quando a gente considera também que a derrota do Trump se materializou com a segunda maior votação que um candidato já teve, só teve a votação menor que a do Biden e isso é também significativo.

Agora, talvez seja interessante de acompanhar dentro dessa perspectiva, é acompanhar nos próximos anos, o que disso é do Partido Republicano, que depois dos episódios ocorridos no Capitólio deu um passo atrás, em alguma medida, para dizer: opa, peraí colocar a democracia em xeque nesse tamanho não vale a pena. E o que é disso do Trumpismo. Mas a medida ou a extensão do que dentro do Republicanismo é Trumpismo, só o tempo vai poder dizer, me parece. Mas certamente, a figura do Trump mostra uma importância muito grande nesse momento, sem dúvida nenhuma.

CTXT: Qual o efeito dessa corrente extremista no futuro próximo? Joe Biden deve ter muito trabalho para unificar o país?

Com relação ao governo Biden, um dos grandes desafios, que não é um desafio novo na verdade, o Obama vivenciou algo parecido também antes do Trump, é o de manejar, de gerenciar um país que enfrenta um processo de ajuste relativamente traumático. Ou, enfim, até bastante traumático de múltiplas perspectivas diferentes. E eu acho que está nisso, parte, vamos dizer assim, desse racha que a gente vê hoje. Existe a afirmação de grupos que foram e são, na verdade, reprimidos ainda hoje e grupos que começam a buscar um espaço mais ativo. No grupo, que dominou muito tempo e do que Trump é representante, há um sentimento de perda de poder e de espaço e um interesse em lutar, em se manter.

A vitória democrata no Congresso pode ajudar Joe Biden?

Agora, a favor Biden existe o fato de que as instituições, em particular, o Legislativo e o Executivo, elas acabaram dando uma vitória incontestável para os democratas o que dá uma margem maior para ele tocar políticas, para ele se colocar de maneira mais incisiva, já que ele passa a ter nesses próximos dois anos, pelo menos, o apoio do Congresso. 

Isso deve facilitar esse processo de acomodação, ele (Biden) vai iniciar o governo dele, no momento com uma tensão bastante elevada. Eu acho que contribui também aquilo que parece ser o perfil mais moderado dele e o fato dele, até o momento, ter se mostrado uma pessoa não muito dada a esse confronto mais espalhafatoso. Isso pode ser importante, principalmente, nesse momento atual, em que os nervos parecem e estão à flor da pele.

 

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

CTXT:  Jair Bolsonaro já alertou para supostas fraudes eleitorais em 2022 e, alguns temem que o que foi visto nos Estados Unidos se repita por aqui. Bom, qual seria o caminho para que o Brasil não tenha as instituições ameaçadas em caso de derrota de Bolsonaro em 2022?

De fato aqui no Brasil, o Bolsonaro já tem dado os primeiros passos, e não é de hoje. Ele aproveitou o episódio norte-americano para deslegitimar o processo eleitoral. Desde a campanha dele, ele começou a campanha dizendo que ele só não ganharia por conta de uma fraude, depois, ele (disse que) sabe que houve fraude porque ele teria ganhado no primeiro turno. Mas nada disso com comprovação, nada disso com uma fonte séria.

O preocupante, de uma maneira mais ampla, é que para alguns grupos a mera afirmação disso parece servir como atestado. 

O caminho precisaria vir das instituições, não é só o debate de opinião, mas é chamar as autoridades, elas têm a responsabilidade de provar ou de denunciar e abrir inquérito. 

Se o presidente diz que houve fraude, ele que prove, ele que seja chamado pelo Supremo a provar a fraude ou então, ele está sendo irresponsável no exercício do cargo dele.

Então, é preciso envolver todos os interessados e instituições relevantes, no sentido de enquadrar esse discurso falacioso que tenta iludir a população com um fim só: manipular o processo todo, para que no final das contas se faça prevalecer uma noção de que o processo é legítimo se eu venço, no caso de derrota, ele deixa de ser.

Na verdade, a democracia não funciona assim, ela é interessante justamente porque ela permite que as forças sociais se façam representadas e que no final das contas, se opte por um representante, por uma liderança escolhida pela maioria.

 

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