Áurea Martins, patrimônio da música brasileira

Quem vê aquela senhora franzina e elegante caminhando pelo bairro do Catete, não imagina seu tamanho na história da música brasileira. A “invisibilidade visível” de Áurea Martins, descrita pela pesquisadora Lúcia Neves em sua biografia, salta aos olhos quando se sabe um pouco mais sobre ela. Vencedora do Prêmio da Música Brasileira em 2009, como melhor cantora de MPB, a diva – que na verdade nasceu Áldima – também já foi tema do documentário “Áurea”, de Zeca Ferreira. Hoje ela é uma das artistas mais queridas da classe musical e do seu público fiel. Segue lançando projetos e recebendo diversas homenagens por seus 80 anos.

Muita história: com 50 anos de carreira, Áurea Martins já foi tema de biografia e documentário.

É fácil explicar o por quê: quem a vê cantando pela primeira vez é, invariavelmente, impactado pela experiência. Lembro quando, há mais de uma década, no pequeno Bar do Belmiro, em Botafogo, fique impressionado com sua voz rica de timbres, afinada e suingada à frente da Orquestra Lunar, composta por 9 mulheres. Mais recentemente, tive o prazer de vê-la no show de 70 anos do Cláudio Jorge, no Teatro Rival, interpretando a valsa “Fundo de Quintal” (C.J/ Cartola/ Hermínio) – o momento mais sublime do show. Uma reza.

80 “vivas” para Áurea

O mesmo impacto teve, em 1969, o pai do produtor, pesquisador e músico Paulo Cunha Bambu, quando assistiu, ao lado do filho, a vitória de Áurea no programa ‘A grande chance’, de Flávio Cavalcanti na TV Tupi. Paulo veio a se tornar fã número 1 e amigo da cantora.

“É a grande mãe da MPB. A maior cantora do Brasil, com um repertório irretocável. Verdadeira batalhadora da música, apesar de todas as dificuldades, do racismo, ela venceu. Faz tudo com amor, ajuda os artistas mais jovens, faz conexões, é querida por todos. É também uma grande educadora musical, intuitivamente”, Paulo Bambu Cunha, produtor, pesquisador.

Ele é organizador do projeto “80 homenagens áureas”, que neste domingo, às 15h, chega à sua ‘live’ de número 28. “Quis fazer um projeto com a cara da Áurea, que contemplasse os artistas e compositores que fazem parte da sua trajetória”, conta. Nesta edição a homenageada será a cantora Doris Monteiro. Participam do projeto nomes como Ana Costa, Moyseis Marques, João Cavalcanti, Vidal Assis, Marcos Sacramento e Alice Passos. As lives dominicais vão ao ar no canal “Música, música, música” e no canal da Áurea Martins no YouTube. 

Trabalho novo nas plataformas

Áurea Martins
Áurea Martins e João Senise. (Foto Marcelo Castello Branco)

O intercâmbio de Áurea Martins com as novas gerações é constante. Desde que participou na revitalização da boemia na Lapa – onde cantou por 7 anos no Bar Carioca da Gema – a cantora já participou de dezenas de gravações de novo artistas, tendo recebido nada menos que 10 homenagens em forma de canções, que contém seu nome. A prova mais recente da juventude de Áurea é o lançamento, no último Dia da Mulher, do CD “Quase 50” (Fina Flor, 2021), em parceria com o cantor da nova geração João Senise. O trabalho traz clássicos da MPB e está disponível nas plataformas digitais.

Cantar com a Áurea é sempre uma alegria, um privilégio. A gente sempre aprende um pouco. É uma troca, porque ela também aprende músicas novas, se interessa por novidade, está sempre antenada no que juventude está produzindo. Não parou no tempo”, João Senise, cantor.

Noite: a grande escola

Mas nem tudo foram flores na carreira de Área Martins: tudo foi conquistado, segundo ela mesma diz, na base da “teimosia e insistência”. Saiu do subúrbio, em Campo Grande, para cantar na capital e logo integrava o elenco da Rádio Nacional, ao lado de ninguém menos que Elis Regina. Aí veio o regime militar, interveio na rádio e reduziu as orquestras. Do rádio foi para a TV, mas quando começava a cantar em rede nacional, os programas passaram por adaptações, deixando de imitar o rádio. A saída, como contou a biógrafa Lúcia Neves em entrevista para o jornalista Tiago Alves, foi cantar na noite: sua grande escola por 40 anos.

“Considero a Áurea uma vitoriosa! Apesar do preconceito contra quem canta noite ela conseguiu, após 40 anos, reinventar sua carreira e fazer shows, gravar CDs e se colocar entre as grandes cantoras brasileiras”, Leila Rocha, cantora. 

Áurea Martins
Leila Rocha e Áurea Martins no “Asa Branca”, início da década de 80.

Foi neste período do piano-bar que Áurea conheceu a cantora (e minha madrinha) Leila Rocha. “Trabalhei com ela de 77 a 79, na casa noturna 706, no Leblon, meu primeiro emprego. Também trabalhamos juntas de 82 a 84, na Da Vinci, em São Conrado. Para mim, foi pra um grande aprendizado sobre o ofício de cantar na noite. Como ela é oriunda dos bailes, ela cantava de tudo e sempre com muita desenvoltura, o que era uma grande novidade para mim. Estar ‘a serviço’ das canções foi uma das coisas que aprendi com ela”, revela.

Vem coisa boa aí – E uma guerreira da música não para enquanto a orquestra estiver tocando: aos 80 anos, já com a primeira dose da vacina contra o coronavírus, Áurea segue cheia de projetos: “Pretendo terminar meu trabalho com o Cristóvão Bastos, além de fazer o projeto contemplado no edital da Natura Musical, com cânticos e rezas das ‘benzedeiras do Brasil’”, diz a diva. Só de imaginar, já fico arrepiado.

Áurea Martins
Áurea Martins e Leila Rocha.

Áurea recebeu outras homenagens por seus 80 anos, como um desfile no carro de som do bloco Corre Atrás, cantando para uma orla do Leblon lotada. Em seguida, veio o projeto “Tempo Áureos”, série de ‘lives’ produzidas pelo músico Alcides Sodré – além do já citado projeto do pesquisador Paulo Bambu Cunha. Mas, nem sempre, Áurea foi uma artista bem tratada e festejada por onde passou: também teve que enfrentar o preconceito.

É triste você, como negro, viver no seu país e ser excluído pela cor da pele. O Brasil tinha que tomar vergonha na cara e reconhecer a sua mestiçagem, pagar cada centavo a cada negro excluído e invisibilizado. Somos corpos e alvos de balas – e isso não acontece com brancos. Aqui existe raça pura, branca? Enfrentei muitos preconceitos de certas pessoas da nossa classe, eu e muitos negros. Foi uma luta chegar até aqui. Mas fui teimosa, fui resistente”.

Obrigado, Áurea!

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Conheça outras descobertas de Gabriel Versiani pelo Rio de Janeiro em outras edições da coluna Contexto Carioca aqui! Acompanhe o colunista @_gabriel_versiani também no Instagram!

Áurea Martins
Áurea Martins, 80 anos: patrimônio da música popular brasileira.

 

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