Um Sentimento na 3ª Pessoa

Olá, amigos leitores da coluna “Bastidores de Você”, hoje escrevo sobre um sentimento que ninguém admite possuir, mas que no fundo todos nós, em um dado momento sentimos, a inveja. Sim a inveja, esse sentimento que todos nós condenamos e que muitas vezes sentimos, mesmo sem admitir sua existência. Aliás, sempre dizemos, “Fulano é invejoso”, as coisas na minha vida não dão certo por conta da inveja dos outros, enfim, um sentimento que se opera na terceira pessoa.

A palavra inveja tem origem no latim “in vedere” e significa “não ver”. Como gosto sempre de mergulhar na etimologia das palavras, pois ela me permite descortinar o que está por de trás das coisas, a inveja é exatamente isso, um não ver a si mesmo. A pessoa invejosa, por não conseguir olhar para si mesma, acaba se preocupando em demasia com o outro, gastando tempo e energia em se incomodar com algo do outro.

A pessoa que inveja a outra, mesmo aquelas que têm o discurso do politicamente correto, que mentem para si mesmas, dizendo que têm a chamada inveja branca, são pessoas que não conseguem olhar para si mesmas, pelo contrário, ficam o tempo todo se contorcendo pelo que o outro fez ou conseguiu.

Essa afirmação me lembra a história de um rei, que querendo saber o que era pior, a avareza ou a inveja, convoca a pessoa mais sovina e a mais invejosa do reino.

Ao chegarem diante do rei, ele lhes disse: Concederei a cada um de vocês um desejo, mas darei ao outro exatamente o dobro do que conceder a quem fez o pedido.

Nisso o avarento pensando que se pedisse algo o outro ganharia o dobro, desejou absolutamente nada, para que o invejoso recebesse exatamente o dobro de nada.

Por outro lado, o invejoso, ao saber que o outro receberia o dobro, desejou que um de seus olhos fosse cegado e assim o outro perderia completamente a visão.

O invejoso prefere se prejudicar a ver o outro com mais do que ele. Lembro-me de um café filosófico em que Leandro Karnal faz uma brilhante observação: Segundo o professor, ninguém tem inveja das conquistas de Alexandre, O Grande ou mesmo de Gengis Khan, que segundo estudos realizados tem seus genes em mais de um quarto da população da Terra.

A inveja é sempre contra quem se está perto, aquela pessoa que está próxima de nós e que consegue algo melhor do que a gente. Nela é que se foca a inveja. Aliás isso me lembra Cervantes que dizia:

A inveja vê sempre tudo com lentes de aumento que transformam pequenas coisas em grandiosas, anões em gigantes, indícios em certezas.

Mas porque as pessoas, já que nós nunca somos invejosos (estou sendo irônico), sentem isso? A inveja pode ser definida como um sentimento de angústia, perante o que o outro tem. Este sentimento gera o desejo de ter exatamente o que o outro possui, sejam coisas, qualidades ou “pessoas”, desaguando em uma raiva sobre o objeto da inveja. Também pode ser definida como o sentimento de frustração e rancor gerado perante uma vontade não realizada. A pessoa invejosa desenvolve esse sentimento por conta de uma crença na sua incapacidade de alcançar aquilo que o outro atingiu, ou seja, por reconhecer-se incompetente ou de alguma forma limitado.

A pessoa invejosa, tal como destacamos na frase de Cervantes, cria uma fantasia que, não sendo capaz de lidar com suas limitações e guiada por um narcisismo exarcebado, desloca para o outro uma realidade a qual lhe permite deixar de olhar para si mesmo, fixando seu olhar e seu desejo no outro.

Dito isso, fica fácil perceber que a pessoa invejosa tem como modus operandi desejar o que lhe falta, mas jamais admite que em seu peito pulsa esse sentimento, pois o invejoso não percebe a sua inveja, como na Fábula do Pavão.

Havia um pavão real que era admirado pelos outros animais. Logo com o raiar do sol, ele passava a caminhar pelos campos, cheio de orgulho de sua vasta plumagem. Os animais da floresta ficavam aguardando ansiosamente o momento que o pavão abriria sua exuberante cauda.

Um dia, quando na floresta chegaram corujas de outros lugares, trouxeram a notícia que em havia um faisão dourado que era a ave mais linda que elas puderam colocar seus olhos.

O pavão, ao ouvir a fala das corujas não conseguia acreditar e por conta disso, por se sentir superado pelo faisão, saiu pela floresta a procurar a tão falada ave. Nessa busca o pavão se perdeu e nunca mais foi visto. Conta a lenda que ele foi abatido por um caçador para ser devorado no jantar.

Quando uma pessoa é levada pela inveja ela está em um processo de uma volta ao seu estado egóico primário, de tal sorte que ela passa a ser controlada pelos seus instintos e embora ela tente encontrar justificativas lógicas para seu comportamento, essa explicação é falha, pois na verdade é uma desculpa que se tem para justamente lidar com suas frustrações.

Isso se opera devido ao marco civilizatório da vedação moral ao canibalismo e desta forma, como o invejoso não pode, como nas hordas primitivas, comer a pessoa ao qual ela se julga superior, a pessoa invejosa faz intrigas, inventa falsidades e principalmente, tece um emaranhado de questões com o afã de destruir o objeto invejado.

Assim, podemos perceber que o invejoso é cativo de suas impotências, pois como não consegue olhar para as suas limitações. Sua vida se torna um sofrimento, onde tudo que o outro faz é melhor, e por conta disso, lhe traz dor, uma dor que lhe habita a mente de tal forma que viver, para o invejoso é lutar a cada dia por algo que jamais conseguirá, ser o que ele não é. Uma pessoa invejosa é escrava do desejo do outro e, na verdade, nunca vai conseguir aquilo que anseia, pois ainda que venha a destruir o objeto invejado, ainda assim, sua inveja deslocará para outro objeto e sua angústia inicia-se novamente.

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