Toy Story 5 coloca brinquedos contra tablet e acende alerta sobre infância sem tempo livre

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Woody, Buzz e a turma mais querida do cinema estão de volta, mas o inimigo agora não é um colecionador de brinquedos ou um vilão espacial. Em Toy Story 5, que estreou nos cinemas brasileiros em 18 de junho, o antagonista é um tablet inteligente chamado Lilypad, projetado para roubar toda a atenção das crianças. A trama, que parece uma aventura leve e divertida, tem provocado um debate sério entre educadores, psicólogos e especialistas em desenvolvimento infantil, justamente porque espelha uma ansiedade real de muitas famílias: o que está acontecendo com a infância na era da hiperconexão?

A franquia, que nasceu mostrando o valor dos brinquedos físicos e da imaginação, agora aborda de frente o confronto entre o mundo analógico das brincadeiras e o universo digital das telas. Mas o que torna o filme um gatilho para reflexões mais profundas é o contexto que ele retrata, um cenário em que as crianças estão cada vez mais ocupadas, monitoradas e estimuladas, mas paradoxalmente mais isoladas umas das outras e com menos espaço para o ócio criativo.

A gerente pedagógica da Educação Infantil e Anos Iniciais dos colégios da Rede Positivo, Hannyni Mesquita, observa que a infância contemporânea vive sob dois pesos simultâneos. O primeiro é a hiperestimulação digital, com horas diante de tablets, celulares e jogos online. O segundo é a hiperprodutividade, uma agenda de atividades extracurriculares que se estende da manhã à noite, restando pouco ou nenhum momento para o que ela chama de tempo livre, aquela pausa sem compromisso que, até algumas décadas atrás, era considerada natural e até inevitável na vida de uma criança.

O tédio, antes visto como um problema a ser resolvido com distrações, passou a ser encarado com desconfiança. Muitos pais sentem que a criança precisa estar sempre ocupada, aprendendo algo, produzindo ou sendo estimulada, como se o vazio fosse uma ameaça ao desenvolvimento. Hannyni alerta que é justamente nesse vazio aparente que surgem as experiências mais ricas da infância. Uma caixa de papelão se transforma em nave espacial, um lençol vira cabana, uma conversa despretensiosa entre irmãos vira uma brincadeira que dura a tarde inteira. Sem esses momentos desacelerados, a imaginação perde espaço e a criatividade fica enfraquecida.

Outro ponto que o filme ajuda a iluminar é a transformação dos espaços urbanos. Até os anos 1980 e 1990, era comum ver crianças brincando nas ruas, calçadas, praças e terrenos baldios. Hoje, a violência urbana, o trânsito intenso e a hiperproteção dos responsáveis reduziram drasticamente a circulação infantil. As crianças passam a maior parte do tempo dentro de casa, em ambientes fechados, com supervisão constante. Isso afeta diretamente o desenvolvimento socioemocional, porque é nas brincadeiras espontâneas entre pares que se aprende a negociar, a dividir, a resolver conflitos e a lidar com a frustração. Sem essa convivência, muitas habilidades importantes ficam subdesenvolvidas.

Especialistas, no entanto, fazem questão de ressaltar que o debate não deve se resumir a demonizar a tecnologia. Jogos digitais e plataformas online também podem ser espaços de socialização, de pertencimento e até de expressão da identidade, especialmente para adolescentes. O problema não é a tela em si, mas o uso excessivo e sem mediação, que substitui experiências presenciais, reduz o movimento corporal e encurta o contato com a natureza e com outras pessoas. Uma infância sem convivência, sem brincadeiras ao ar livre e sem tempo livre tende a empobrecer o desenvolvimento emocional e simbólico.

Há ainda um componente nostálgico que o filme desperta. Adultos que cresceram com os primeiros Toy Story se lembram com afeto de uma época em que as brincadeiras eram menos mediadas por dispositivos. Mas Hannyni alerta para o risco de romantizar o passado. As infâncias anteriores também tinham seus problemas, como a violência física naturalizada, a falta de escuta emocional e a ausência de debates sobre saúde mental. O desafio atual não é voltar ao passado, mas resgatar elementos essenciais da experiência humana, como convivência, pertencimento, imaginação, autonomia e vínculos sociais, adaptando-os ao mundo contemporâneo.

O grande alerta que Toy Story 5 deixa, portanto, não é sobre os tablets, mas sobre o que eles representam. A disputa pela atenção infantil é apenas a ponta de um iceberg que inclui agendas lotadas, falta de espaços seguros para brincar, adultos igualmente hiperconectados e uma dificuldade generalizada de simplesmente estar presente. Para que o tempo longe das telas faça sentido, não basta retirar o dispositivo da mão da criança. É preciso que haja um adulto disponível para a interação, para a escuta, para a conversa e para a brincadeira compartilhada. O maior risco contemporâneo pode não ser a tecnologia em si, mas uma infância cada vez mais entretida e cada vez menos vivida.