Todo carnaval tem seu fim

Diz uma antiga canção de carnaval que dois mascarados procuram os seus namorados perguntando às pessoas quem elas são; curiosamente, em um dado momento da música, ao se dar conta de que “é carnaval”, o questionamento “quem é você” perde o sentido, prevalecendo a possibilidade de ser da maneira que o outro deseja. Também na vida cotidiana um efeito semelhante aparece, sendo o entrosamento entre as pessoas, muitas vezes, fruto das projeções que vamos lançando sobre o outro.

Tendenciosos que estamos a acreditar que o outro será capaz de atender nossas demandas disso ou daquilo, vamos fantasiando uma relação harmoniosa, ainda que a partir de pouca ou nenhuma evidência. Seguimos saboreando o suposto sucesso daquele início de amizade, parceria profissional, relacionamento promissor. É claro que alguma pitada de boa vontade é necessária para colorir os dias, porém estruturar tomadas de decisão em interações ilusórias é bastante arriscado.

É importante refletir sobre a origem da maquiagem que confundiu a feiura natural de certas pessoas, assim que esta se revela. Seria a pessoa muito hábil em disfarçar seus defeitos, ou seríamos nós muito distraídos e crédulos? Talvez um pouco de cada? Dizem que “iludido é pior que doido” e que, mais cedo ou mais tarde, a casa cai. O que fazer agora que a trama foi descortinada? Como impor limites e reduzir os prejuízos?

O processo terapêutico ajuda a perceber o que está em jogo em cada interação, possibilitando desenvolver estratégias para lidar com as encenações alheias, além de, principalmente, aprender a lidar com o que há de imperfeição em nós mesmos, que nós também tentamos maquiar. Sabemos que nem todo mundo terá condições de mexer nesse vespeiro, por uma série de motivos; mas, aqueles que tiverem, chegarão ao fim da festa com mais qualidade.

 

Paula Dione é psiquiatra do Núcleo de Sexualidade da Holiste

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