Médicos Sem Fronteiras é um aliado na luta contra a Covid-19

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Equipes de MSF trabalham em três projetos no Amazonas. Organização também atua nos estados de Roraima, Rio de Janeiro e São Paulo. Foto: MSF


MSF encontrou realidades desafiadoras no país e faz o alerta: o vírus não está recuando

A organização internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) reforça o combate ao novo coronavírus no país. Atualmente, são seis ações emergenciais atuando em território nacional. Três projetos estão no Amazonas, e os médicos alertam que o vírus não está recuando e em algumas regiões a taxa de contágio segue em alta.

As equipes do MSF chegaram ao Amazonas no fim de abril e eles se depararam com uma situação delicada em Manaus. “Os quatro principais hospitais de Manaus estavam lotados e as dedicadas equipes médicas trabalham com pacientes excepcionalmente doentes, que com frequência chegam muito tarde ou estão longe demais para serem salvos”, disse o médico Bart Janssens que na época foi o coordenador de Emergências de MSF na região. “Uma elevada parcela dos pacientes que dão entrada nas unidades de terapia intensiva está morrendo e uma parte grande de médicos fica doente”.

A organização entende que as altas taxas de mortalidade estão relacionadas ao crescente número de pessoas em estado grave. Estes pacientes precisam de tratamento intensivo e não estão conseguindo receber o apoio necessário. Em Tefé, cidade localizada a 523 km de Manaus, os médicos encaram um grande desafio: “Quando visitei a cidade na segunda quinzena de maio para avaliar a situação, a equipe de gestão do hospital me disse que quase todos os pacientes com Covid-19 que precisavam de cuidados intensivos haviam morrido”, disse Janssens. “Eles não tinham pessoal especializado suficiente para tratar os pacientes muito doentes que vinham chegando ao hospital”.

Além do estado do Amazonas, as equipes do MSF estão atuando em ações emergenciais em Roraima, São Paulo e no Rio de Janeiro. Somando assim, um total de seis ações no país.

Profissionais da linha de frente

Comparado com outros países, os enfermeiros estão morrendo de covid-19 mais rápido co que em qualquer outro país. O número de casos suspeitos e confirmados saltaram de 230, para 11 mil em um período de um mês. E a cada mês, são quase 100 enfermeiros mortos em decorrência da doença.

A testagem está sendo feita em um ritmo espantosamente lento, com o registro de 7,5 mil testes por milhão de pessoas, o que equivale a quase dez vezes menos que nos Estados Unidos (74.927 por milhão) e 12 vezes menos que em Portugal (95.680 por milhão). 

Para Médicos Sem Fronteiras, a situação é grave. A organização salienta que o Brasil está apenas atrás dos Estados Unidos como país mais atingido no mundo, tanto no número total de casos quanto de mortes de acordo com dados oficiais. 

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Profissional de Médicos Sem Fronteiras atende paciente em Manaus (AM). Foto: MSF

Desigualdade gera vulnerabilidade

O Brasil sofre com a desigualdade das regiões, e o que o MSF observa é que os grupos vulneráveis e regiões negligenciadas, como a Amazônia sofrem maior impacto da crise.

“Não é por acaso que o Brasil está sofrendo de forma tão aguda”, diz Ana de Lemos, diretora-executiva de MSF-Brasil. “Sabemos há muito tempo que o Brasil é um país com enormes desigualdades, mas é como se a Covid-19 tivesse acendido um holofote que expõe, de maneira terrível, um sistema de saúde que sofre com desigualdades estruturais e com a exclusão de um grande número de pessoas pobres ou sem-teto e de regiões como a Amazônia, onde há décadas faltam investimentos adequados. Vemos esforços relevantes implementados nos níveis estaduais ou locais para lidar com a pandemia, mas também vemos um enorme desalinhamento nas diretrizes, nas políticas e na abordagem ampla entre o governo federal e as diferentes regiões. Isso dissemina confusão e serve para enfraquecer a resposta na covid-19 como simplesmente quaisquer outras fatalidades, ou mesmo com absoluto descaso”.

Médicos Sem Fronteiras nas metrópoles

Com a transmissão se espalhando gradualmente para bairros mais pobres da capital paulista e outras cidades de São Paulo, pessoas em situação de grande vulnerabilidade social que já eram marginalizadas e enfrentavam obstáculos para obter assistência médica agora estão em condição ainda mais difícil, o que os coloca em risco de morrer com poucas chances de obter ajuda.

“Como ocorreu em muitos países, a pandemia levou muitas pessoas a perder seus meios de subsistência”, observa a médica Ana Leticia Nery, coordenadora de MSF em São Paulo. “Mas, em São Paulo, já havia 24.000 pessoas em situação de rua e, com o sistema de saúde levado ao limite, as barreiras que já impediam o acesso dessa população extremamente vulnerável se tornaram ainda mais evidentes. A pandemia arrastou mais gente à pobreza extrema, deixando-as sem casa e, em muitos casos, sem esperança nas ruas. O uso e a dependência de drogas, além de condições médicas preexistentes como tuberculose, doenças cardíacas e HIV aumentam a vulnerabilidade. É triste ver pessoas que estão sofrendo e ainda têm dificuldade para acessar o sistema de saúde, mas há coisas que podemos fazer para ajudá-las a terem acesso à assistência, ao mesmo tratamento a que qualquer outro cidadão teria”.

Em São Paulo, as equipes de MSF estão atuando na assistência a pessoas em situação de rua com sintomas em albergues, a idosos em casas de repouso e a moradores de favelas em regiões da periferia do município, onde o contraste entre riqueza e pobreza fica muito evidente. Foram feitas parcerias com organizações locais e com a prefeitura de São Paulo para promover atividades médicas em duas instalações de isolamento para pessoas em situação de rua que tenham testado positivo para a Covid-19 e que apresentem sintomas leves ou moderados.

No Rio de Janeiro, as equipes oferecem capacitações em unidades de saúde e em hospitais sobre controle e prevenção de infecções, além de ações de promoção em saúde em refeitórios da cidade para pessoas vulneráveis. MSF também monitora de forma ativa pessoas que apresentem sintomas de Covid-19. Mais recentemente, MSF passou a avaliar a situação nas favelas do Rio. Nestes locais, a capacidade do sistema de saúde, já levado ao limite, está agora atingindo o colapso; vários postos de saúde tiveram de fechar e as condições de vida mostram que o distanciamento físico é quase impossível, elevando o risco de espalhar o vírus.

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