Especialista avalia o impacto das transformações digitais

Nos últimos meses, as atividades presenciais perderam espaço por conta do avanço do coronavírus nas cidades. As pessoas saíram dos escritórios e criaram espaços de trabalho em casa, as compras migraram para os aplicativos e as aulas passaram a ser através de telas. 

Um dos resultados da transformação digital atual já foi medido. Levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indica que o e-commerce no país teve um crescimento de 80%. Neste cenário de aumento das compras digitais, a principal empresa de logística, os Correios, está em greve.

Para entender melhor o período atual e refletir sobre os efeitos da transformação digital e quais os desafios para os empreendedores, conversamos com o professor e consultor Lúcio Lage Gonçalves, que lançou recentemente o livro: “A vida após o novo coronavírus: novos comportamentos”.

CONTEXTO.CTXT – Professor, a pandemia acelerou a transformação digital que já estava acontecendo.  Como o senhor avalia as mudanças de comportamento, no sentido de: estamos ainda mais conectados e vivendo mais neste universo digital. E quais efeitos que podem já ser percebidos?

transformações
Prof. Lucio Lage com o seu livro mais recente

Professor Lúcio Lage Gonçalves: Sim, a pandemia acelerou a transformação digital, mas para muitos comerciantes, fabricantes, distribuidores e prestadores de serviços, de forma não planejada pela necessidade de sobrevivência, o que não é o melhor dos mundos. Executar uma mudança sem planejar a transição do presencial para o virtual, da noite para o dia não é uma tarefa fácil.

 

Com quase tudo ampliando o uso digital (e-commerce, home office, Ensino a Distância, dentre outros) como descrevemos no nosso novo livro “A vida após o novo coronavírus: novos comportamentos” o tempo nas telas cresceu consideravelmente e apesar dos benefícios dos recursos virtuais, seu uso excessivo e não consciente pode trazer problemas de ordem física (pescoço, ombro, braços) e também psicológicas como sintomas de ansiedade, depressão e compulsões diversas, como relatamos em outro livro nosso “Convivendo (bem) com a Dependência Digital”.

Com o isolamento social e os desdobramentos das novas práticas, grande parte das pessoas será mais digital do eram antes da pandemia, em função do período que estão passando com mais digital em suas vidas.

O e-commerce no Brasil já apresentava números consolidados, e estava crescendo a cada ano. Qual foi o impacto do coronavírus nesta forma de comércio? Quais são os principais gargalos e os pontos positivos?

Não poder sair de casa e precisando manter atividades pessoais e profissionais a saída foi comprar eletrônica e remotamente e mesmo para pessoas sem habilidade neste tipo de compra tiveram as mesmas que superar esta dificuldade. Com isto houve um crescimento substancial no volume de compra e venda por esta via. segundo o IBGE houve um aumento em torno de 80% do e-commerce se comparados os meses de maio/2019 com maio/2020.

Os principais gargalos deste comércio começam com a infraestrutura de telecomunicações no Brasil não comportar tanto volume de tráfego, bem como a falta de estrutura para tratamento físico das demandas (depósitos, embalagem, remessa dentre outros), as dificuldades urbanas apesar da redução do trânsito nos primeiros meses da pandemia e as questões de segurança nas estradas (roubo de carga, acidentes e outros). Os pontos positivos incluem a preservação da produção, a manutenção de empregos de toda a cadeia que o e-commerce movimenta e a satisfação das pessoas de poderem comprar sem sair de casa, principalmente a dos compradores compulsivos.  

A logística é um dos pontos frágeis do e-commerce no país, muitos consumidores reclamam o valor/prazo de entrega. Como o senhor avalia a atual greve dos correios, de que forma a paralisação pode impactar no consumo?

É um desastre a não operação de uma parte vital da cadeia logística com a dimensão que a ECT detém. Não significa apenas o comprador não receber sua compra, mas é um impacto considerável na economia pelos motivos relatados na pergunta anterior. É como um trem colidir em alta velocidade, um estancamento da cadeia e severos impactos, econômicos, sociais e comerciais. apesar das empresas de entregas completarem este mercado, seus preços via de regra são mais elevados que os dos Correios o que limita o uso de seus serviços.

Os empreendedores vão precisar se reinventar – mais uma vez – e buscar outras maneiras de entregar os produtos?



Esta é uma equação de difícil solução especialmente quando tratamos de um país com dimensões continentais como o Brasil. O mercado que promove a entrega de produtos em mais de cinco mil municípios em distâncias longas, envolvendo vários modais, como transportes rodoviários, ferroviários, aéreos e às vezes até mesmo fluviais dificilmente pode estar ausente no momento que o e-commerce cresce no Brasil. Talvez no futuro, quando os drones estiverem plenamente estabelecidos tecnologicamente, comercialmente e regulamentados para o público privado, parte dos serviços de entrega poderá ser substituído, mas muita coisa ainda terá que acontecer para isto.

O senhor acredita que as transformações vividas por conta da pandemia podem ser duradouras? Ou o novo normal pode esfriar o e-commerce?



Parte das transformações não serão duradouras ou pelo menos não na mesma dimensão. Parte dos consumidores voltarão a comprar presencialmente pelo prazer da experiência presencial e do contato com o produto. As mulheres, por exemplo, têm um perfil de consumidor diferente dos homens e tem uma tendência maior de comprar presencialmente e voltando a comprar fisicamente proporcionarão alguma redução no patamar do e-commerce, mas nunca a ponto de reduzi-lo ao que era antes da pandemia. O e-commerce cresceu, sem dúvida.

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