Um ano sem celular nas escolas: lei muda rotina, mas desafios permanecem

Foto: divulgação

A restrição ao uso de celulares nas escolas brasileiras completa um ano em meio a mudanças que vão muito além da simples retirada dos aparelhos da sala de aula. Prevista pela Lei nº 15.100/2025, a medida reorganizou a rotina da educação básica, alterou a relação dos estudantes com o tempo escolar e reacendeu o debate sobre concentração, convivência e saúde emocional dentro das instituições de ensino.

Um levantamento divulgado pelo Ministério da Educação, em parceria com o Inep, a Unesco e o Instituto Alana, mostra que 92% das escolas já implementam a legislação, e 86% dos gestores afirmam que a medida contribuiu para reduzir a ansiedade dos alunos . Os dados indicam que a restrição ao celular não reduziu o uso pedagógico das tecnologias digitais; pelo contrário, 86% dos gestores relatam que as atividades educacionais mediadas por tecnologia foram mantidas ou ampliadas .

Os impactos positivos são expressivos. Os gestores apontam que a restrição ampliou a participação dos alunos nas atividades pedagógicas (97%), melhorou a concentração durante as aulas e a socialização (95%), e reduziu conflitos e casos de cyberbullying (88%) . O levantamento também desfaz uma das principais preocupações prévias: a restrição ao celular não diminuiu o uso pedagógico da tecnologia, já que 86% das escolas mantiveram ou ampliaram atividades educacionais mediadas por dispositivos digitais .

O desafio da adaptação

Segundo Marizane Piergentile, diretora da Rede de Educação Adventista, quando o celular sai do centro da rotina escolar, a escola consegue observar melhor como o aluno lida com o tempo, com o outro e com os próprios limites. A restrição contribui para a aprendizagem, mas o principal ganho está na possibilidade de reconstruir hábitos de convivência, escuta e presença .

No entanto, a mudança precisa vir acompanhada de orientação, diálogo e clareza sobre o papel da tecnologia no ambiente escolar. Para Elen Larissa, orientadora educacional da Rede Adventista, a escola não pode tratar o celular apenas como um problema disciplinar. O aparelho faz parte da vida dos estudantes, e a orientação precisa ensinar quando, como e por que usar a tecnologia. O desafio é formar alunos capazes de fazer escolhas responsáveis também fora da sala de aula.

A pesquisa também aponta que 39% das escolas enfrentam dificuldades para aplicar as regras, principalmente devido à resistência de parte dos alunos, à falta de apoio de algumas famílias e à necessidade de formação contínua para educadores . Para a consolidação da política, gestores destacam a necessidade de fortalecer a parceria com as famílias (67%), investir em formação de professores (61%) e melhorar a infraestrutura escolar, como pátios e espaços de convivência (60%) .

Um dado importante é que a restrição ao celular em todos os espaços escolares — incluindo pátios, recreios e intervalos — dobrou e já alcança 48% das escolas, ainda que represente um espaço para ampliar a aplicação da medida, já que o recreio é um momento fundamental para a convivência e o fortalecimento de vínculos entre os estudantes .

O que esperar daqui para frente

A experiência do primeiro ano mostra que a discussão sobre celulares nas escolas não se limita à proibição. O tema envolve aprendizagem, saúde mental, autonomia, convivência e educação digital. A escola precisa preparar o aluno para o mundo digital, mas também proteger o espaço de aprendizagem. O equilíbrio está em ensinar que a tecnologia tem valor quando serve ao conhecimento, à comunicação saudável e ao desenvolvimento humano.