O eu feliz com o outro: a ponte que nos liga uns aos outros

Imagem gerada com a IA Gemini

“O maior dom que você pode dar a alguém é o dom da atenção plena.” — Thich Nhat Hanh

Se o primeiro pilar da felicidade é a paz consigo mesmo, o segundo é a conexão genuína com o outro. E talvez nenhuma habilidade seja mais transformadora, e mais rara, do que aprender a julgar menos e compreender mais.

Daniel Kahneman, psicólogo vencedor do Prêmio Nobel e autor de Rápido e Devagar (2011), demonstrou que nosso cérebro é programado para atalhos mentais. Julgar é rápido, nos dá uma falsa sensação de controle. Mas julgar é também uma forma de distanciamento. Quando rotulamos alguém, paramos de enxergar sua humanidade.

Compreender, por outro lado, exige esforço. Exige que suspendamos nossas certezas temporariamente. A verdadeira empatia não é se colocar no lugar do outro, isso é quase impossível, porque nunca teremos a mesma história, as mesmas dores ou os mesmos recursos que o outro tem. A verdadeira empatia é criar um espaço seguro para que o outro se sinta acolhido, é saber ouvir sem interromper, é aprender a prátia paráfrasear os outros: “Se eu entendi direito, você está dizendo que…” , isso faz a pessoa se sentir ouvida, validada e compreendida.

A comunicação assertiva é o instrumento que sustenta essa compreensão. Ser assertivo não é ser agressivo, nem passivo. É expressar seus sentimentos e necessidades de forma clara, honesta e respeitosa, sem atacar o outro e sem se anular. A assertividade é o equilíbrio entre o “eu” e o “nós”.

Mas existe uma ferramenta que transformou minha vida, e pode transformar a sua também: a Comunicação Não-Violenta (CNV), desenvolvida pelo psicólogo Marshall Rosenberg em Comunicação Não-Violenta (2006). A CNV é um dos modelos mais belos de relação humana já criados. Baseia-se em quatro pilares:

  1. Observação: descrever os fatos sem julgamento (“Você chegou atrasado” e não “Você é sempre irresponsável”)
  2. Sentimento: expressar como você se sente (“Fiquei preocupado”)
  3. Necessidade: identificar a necessidade por trás do sentimento (“Porque precisamos de pontualidade”)
  4. Pedido:  fazer um pedido claro e positivo (“Você poderia me avisar quando for se atrasar?”)

A CNV mudou meu casamento. Antes, eu guardava tudo até explodir. Acumulava silêncios, mágoas, ressentimentos, até uma hora que tudo saia de uma vez. Quando aprendi a expressar como eu me sentia e qual necessidade emocional não havia sido atendida relacionada a situação, tudo mudou. Não se trata de culpar o outro, mas de dizer: “Quando isso acontece, eu me sinto assim.” O outro não precisa adivinhar, é ai que a comunicação vira ponte, não muro.

O foco no positivo do outro é outro exercício que transformou minha relação. Em vez de procurar os defeitos do meu marido, passei a olhar o que ele tinha de positivo. Pesquisas mostram que relacionamentos saudáveis funcionam com uma proporção mínima de 3 para 1, no caso de casais 5 para 1, no mínimo, 3 experiências positivas para 1 negativa. Amizades e equipes que mantêm essa proporção, prosperam. Abaixo disso, os relacionamentos se deterioram.

A felicidade com o outro não significa concordar em tudo. Significa respeitar mesmo quando não entende. Significa acolher mesmo quando discorda. Significa lembrar que todo ser humano carrega uma história que você talvez nunca conheça,  e que, se conhecesse, provavelmente entenderia. O segundo pilar da tríade nos ensina que não somos ilhas. Somos pontes. E a qualidade das nossas pontes determina a qualidade da nossa vida.

🛠️ EXERCÍCIO PRÁTICO: OS 3 PONTOS POSITIVOS

Passo 1 – O Espaço Seguro: Na próxima vez que alguém estiver desabafando com você, resista à tentação de dar conselhos ou julgar. Apenas ouça. Ao final, parafraseie: “Se eu entendi direito, você está se sentindo…” Isso faz o outro se sentir verdadeiramente ouvido. E depois pergunte se a pessoa quer conselho ou ajuda, pois, muitas vezes, ela apenas estava querendo ser ouvida.

Passo 2 – Os 3 Pontos Positivos: Escolha uma pessoa do seu convívio. Durante 7 dias, anote três qualidades ou três coisas boas que essa pessoa fez a cada dia. No sétimo dia, compartilhe a lista com ela. Esse exercício salvou meu casamento, mudou o foco do meu olhar dos defeitos para as qualidades.

Passo 3-  O Treino da CNV: Durante uma semana, antes de qualquer conversa difícil, prepare-se com as 4 perguntas: O que estou observando (sem julgar)? O que estou sentindo? Qual necessidade minha não está sendo atendida? Qual pedido claro posso fazer? Em vez de guardar até explodir, expresse como se sente no momento.

BIBLIOGRAFIA DO ARTIGO:

  • ROSENBERG, Marshall. Comunicação Não-Violenta. Ágora, 2006.
  • KAHNEMAN, Daniel. Rápido e Devagar. Objetiva, 2012.
  • FREDRICKSON, Barbara. Positividade. Rocco, 2009.
  • GOLEMAN, Daniel. Inteligência Social. Objetiva, 2006.
  • GOTTMAN, John. The Seven Principles for Making Marriage Work. Crown, 1999.