
O que poderia ser apenas mais um motivo de distração e barulho nos corredores virou, em uma instituição de ensino, um laboratório vivo de habilidades socioemocionais. Diante da euforia natural que toma conta dos estudantes na temporada de álbuns de figurinhas, a escola optou por uma abordagem pouco convencional: em vez de reprimir a atividade, decidiu organizá-la, dando origem a um conjunto de regras claras que transformam as trocas em oportunidades de aprendizado sobre respeito, negociação, honestidade e responsabilidade.
A decisão partiu da percepção dos educadores de que a empolgação para completar o álbum frequentemente gera conflitos, disputas acirradas e trocas consideradas injustas. A coordenação pedagógica entendeu que proibir não seria a melhor solução, pois a atividade está profundamente enraizada no universo infantil e traz consigo um potencial educativo imenso. A aposta foi, então, incorporar as figurinhas ao cotidiano escolar de forma estruturada, criando um ambiente onde as crianças possam vivenciar na prática conceitos que muitas vezes ficam restritos à teoria.
O diretor pedagógico do Colégio pH, Filipe Couto, resume o espírito da iniciativa. Ele afirma que o projeto vai muito além do papel e da coleção, tratando, na verdade, de convivência. A escola aproveita uma experiência muito presente no universo infantil para ensinar sobre responsabilidade, reciprocidade, consentimento e as consequências das próprias escolhas. A ideia é mostrar que cada troca é um pequeno contrato social, no qual as partes precisam ser claras, honestas e respeitar o que foi acordado.
Entre as diretrizes estabelecidas, estão normas práticas que organizam o fluxo das trocas. As figurinhas podem ser trocadas, mas não vendidas dentro da escola, e os jogos não podem envolver apostas de qualquer tipo. As negociações só são permitidas em horários e locais autorizados, e cada troca deve ser explícita e confirmada por ambos os participantes. A escola também se reserva o direito de intervir em casos de pressão, coação ou injustiça evidente, além de não permitir trocas entre alunos de segmentos diferentes e nem aceitar negociações feitas sob insistência ou constrangimento. Figurinhas muito raras ou com alto valor afetivo, segundo a orientação, devem permanecer em casa, evitando tensões desnecessárias.
A proposta, no entanto, vai além da mera regulamentação. Ela busca desenvolver a chamada autonomia moral, ou seja, a capacidade de agir com ética mesmo quando não há um adulto por perto. Couto explica que a criança começa seguindo regras porque um adulto mandou, mas a educação precisa ajudá-la a compreender o sentido dessas regras. O objetivo é formar alunos capazes de refletir sobre suas atitudes e tomar decisões justas por convicção própria, não por medo de punição.
Paralelamente, a escola trabalha para combater a lógica da vantagem individual, tão comum em atividades de coleção. Os alunos são incentivados a perceber que uma troca justa depende de clareza, consentimento e responsabilidade sobre o impacto das próprias atitudes nos colegas. A mensagem é clara: nenhuma conquista individual, como completar o álbum, justifica o desgaste das relações. Valorizar a amizade, o respeito e a confiança é mais importante do que a simples posse de figurinhas raras.
Outro aspecto fundamental do projeto é a distinção entre arrependimento e injustiça. A escola entende que frustrações fazem parte do amadurecimento e que nem toda troca que gera insatisfação posterior deve ser anulada. No entanto, estabelece intervenção firme em situações que envolvem pressão, coação, mentira, promessas não cumpridas ou desigualdade evidente de informações entre os estudantes. A ideia é ensinar que a liberdade individual encontra limites quando afeta emocionalmente o outro ou compromete relações de confiança.
A circulação de dinheiro e a formação de dívidas relacionadas às figurinhas também são proibidas, uma medida que evita que diferenças econômicas se transformem em relações de poder ou exclusão dentro da escola. Dessa forma, a atividade permanece acessível e lúdica para todos, sem criar hierarquias baseadas no poder aquisitivo.
A iniciativa se alinha ao Programa de Convivência Ética da escola, que entende a convivência como parte estruturante da formação dos estudantes. Em vez de tratar as relações como um tema periférico, o programa trabalha continuamente competências como empatia, escuta ativa, cooperação e responsabilidade coletiva. Com as figurinhas como pano de fundo, a escola dá mais um passo para mostrar que o ambiente escolar é, antes de tudo, um espaço para aprender a viver junto, fazendo escolhas conscientes e construindo laços saudáveis que vão muito além dos muros da sala de aula.
Entre as principais diretrizes estabelecidas pela escola estão:
- Figurinhas podem ser trocadas, mas não vendidas dentro da escola
- Jogos não podem envolver aposta de figurinhas
- Trocas só podem acontecer em horários e locais autorizados
- Toda troca deve ser clara e confirmada pelas duas partes
- A escola poderá intervir em casos de pressão, coação ou injustiça
- Trocas entre alunos de diferentes segmentos não serão permitidas
- Não serão aceitas trocas feitas sob insistência ou constrangimento
- Figurinhas muito raras ou de alto valor afetivo devem permanecer em casa




















