“É importante mostrar para o mundo o momento que vive o Brasil”, diz Lula, na despedida da Índia

Foto: Ricardo Stuckert / PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez nesse domingo (22) um balanço positivo da visita de Estado à Índia. Em entrevista coletiva concedida antes do embarque para a Coreia do Sul, ele afirmou que a missão reforçou a estratégia do governo de ampliar mercados e projetar internacionalmente as potencialidades brasileiras.

Segundo Lula, o Brasil tem intensificado sua inserção comercial nos últimos anos. Ele destacou que, em pouco mais de três anos de gestão, o país abriu mais de 520 novos mercados para produtos nacionais, número que, de acordo com o presidente, supera resultados obtidos em períodos anteriores. Lula reiterou que a política externa brasileira não estabelece preferências comerciais, mas prioriza interesses estratégicos e parcerias baseadas em benefícios mútuos.

O presidente também recordou que, há 21 anos, ao retornar de uma viagem à Índia, celebrou a marca de 100 bilhões de dólares em comércio exterior. Desde então, esse volume foi multiplicado por mais de seis vezes. Atualmente, o intercâmbio comercial brasileiro gira em torno de 649 bilhões de dólares, e Lula afirmou esperar que o país alcance a marca de 1 trilhão de dólares nos próximos anos.

Em relação especificamente à Índia, o chefe do Executivo demonstrou otimismo com a expansão do comércio bilateral. Ele relatou que o primeiro-ministro Narendra Modi propôs a meta de atingir 20 bilhões de dólares até 2030. Lula respondeu que o objetivo pode chegar a 30 bilhões, diante do potencial econômico das duas nações. Em 2025, o fluxo comercial entre Brasil e Índia superou pela primeira vez os 15 bilhões de dólares, com crescimento de 25% em comparação com 2024.

Lula atribuiu o momento favorável do Brasil no cenário internacional ao esforço de reconstrução da credibilidade do país. Segundo ele, o governo tem trabalhado para assegurar previsibilidade, estabilidade fiscal, segurança jurídica e confiança aos investidores, fatores que, em sua avaliação, reposicionaram o Brasil como parceiro confiável no ambiente global.

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, também apresentou um balanço da agenda. Ele informou que os dois governos decidiram priorizar iniciativas de cooperação em áreas como defesa, aviação civil e militar, comércio, investimentos, saúde, indústria farmacêutica, ciência, tecnologias digitais, energia, minerais críticos, cooperação espacial, educação e cultura. Durante a visita, foram assinados 11 acordos governamentais, incluindo uma declaração que institui uma parceria digital para o futuro, além de instrumentos nas áreas de minerais críticos, propriedade intelectual, saúde, serviços postais, empreendedorismo e certificação de origem. Três instrumentos público-privados também foram firmados entre universidades, fundações e órgãos governamentais.

O presidente da ApexBrasil, Jorge Viana, classificou a missão como a mais expressiva desta gestão. Ele destacou a inauguração de um escritório da agência em Nova Délhi e a inserção de produtos brasileiros em grandes redes de supermercados da capital indiana e de Mumbai. Pelo menos 40 lojas passarão a comercializar itens como castanha, açaí, limão e frutas brasileiras. Viana afirmou ainda que está prevista a criação de um voo direto entre Nova Délhi e o Brasil, o que deverá ampliar o intercâmbio comercial e turístico.

Durante a entrevista, Lula também abordou temas da agenda internacional. Sobre os Estados Unidos, ele afirmou que pretende discutir com o presidente Donald Trump uma pauta ampla, que ultrapassa a questão dos minerais críticos. O presidente ressaltou que Brasil e Estados Unidos mantêm relações diplomáticas há 201 anos e defendeu a retomada de um diálogo civilizado e respeitoso, com tratamento igualitário entre as partes.

A respeito das tarifas impostas pelos Estados Unidos, Lula declarou que pretende tratar do tema diretamente com o líder norte-americano, avaliando que eventuais taxações podem gerar efeitos inflacionários no próprio mercado americano. Ele afirmou acreditar que há interesse mútuo na normalização das relações comerciais.

Sobre o diálogo com Modi e empresários indianos, Lula destacou a convergência de interesses e o objetivo comum de fortalecer as economias dos dois países, com vistas ao desenvolvimento. Segundo ele, não houve discussão de temas polêmicos, mas foco em agendas de cooperação.

O presidente voltou a defender mudanças na governança global, especialmente na Organização das Nações Unidas. Para Lula, é necessária uma reformulação do Conselho de Segurança, com ampliação de membros permanentes e maior representatividade de países da África, da América Latina e do Sul Global. Ele citou nações como Índia, Brasil, Alemanha, México, Nigéria e Egito como exemplos de países com peso demográfico e econômico que poderiam integrar o colegiado.

Por fim, Lula comentou o papel do BRICS na atual conjuntura internacional. Segundo ele, o grupo reúne quase metade da população mundial e representa uma articulação estratégica do chamado Sul Global. O presidente destacou que dez integrantes do BRICS também participam do G20 e afirmou que o fortalecimento do bloco pode contribuir para um novo equilíbrio geopolítico no cenário global.