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“Crônicas Cariocas”: exposição no MAR coloca o Rio diante do espelho

“Crônicas Cariocas”, em cartaz no Museu de Arte do Rio (MAR), é uma ótima pedida para quer estiver pela cidade até o dia 31 de julho. A exposição reúne 600 obras (pinturas, fotografias, vídeos, música) de nomes como Bispo do Rosário e Di Cavalcanti, até artistas como Thales Leite, Lúcia Laguna, Rafael Baron, Lilian Rosa e Bastardo. “Crônicas Cariocas” coloca o Rio diante do espelho e mostra um retrato multifacetado da cidade partida – marcada pela desigualdade e violência, mas também pela beleza e poesia que sobrevivem às condições mais adversas. Saiba na coluna Contexto Carioca o que eu vi nesse espelho! 😉

Cônicas CariocasQuando soube da exposição “Crônicas Cariocas”, logo pensei no João do Rio e sua “Encantadora Alma das Ruas”. Venho revisitando a leitura esporadicamente, desta vez pela tela de um iPad. Neste moderno dispositivo luminoso, viajo no tempo e imagino um Rio idílico, romântico, quase ingênuo, iluminado por lampiões. Cidade capital, construída por braços fortes, que já foi até mesmo a sede do império português, com a vinda da família real em 1808. Como se pudesse reviver o Rio de João, saboreio os personagens descobertos no início do século XX pelo olhar curioso e apaixonado deste fundador da crônica carioca.

Crônicas Cariocas

Ele descreve de forma quase poética o Rio antigo, de pequenas e precárias profissões: tatuadores, trabalhadores da estiva, mercadores de livros, músicos ambulantes, “os urubus” – de olho nos mortos para prestar auxílio funerário à família. O submundo passional de crimes, detentos, meretrizes. O mundo real da miséria, eterna chaga que molda esta cidade que  poderia ser um país. Enxerguei de imediato um paralelo entre a exposição no MAR e a obra do famoso flaneur. O seguinte trecho consta no texto de apresentação dos curadores:

“Eis a cidade do Rio de Janeiro, com as suas belezas, suas seduções e seus tormentos. Suas religiosidades e seus sacrilégios. Seu Cristo de braços abertos sangrando em cada corpo que tomba por mil ou por nenhuma razão.

Eis a cidade do Rio de Janeiro, com o seu tempo de muitas épocas. Aqui o passado costuma se intrometer no presente e os dias serem marcados por uma ordem que é um caos. Mas a alma carioca forja os dias de amanhã. Existe nela uma sorridente esperança que teimosamente segue, apesar de tudo, urdindo o futuro”. Conceição Evaristo

Crônicas Cariocas

Fiquei ainda mais interessando na exposição quando soube que o historiador Luiz Antônio Simas e a escritora e linguista Conceição Evaristo estavam na curadoria. O vídeo que abre a exposição traz os dois em uma conversa com Teresa Cristina sobre o Rio dos subúrbios. Em seguida, uma bela referência à religiosidade de matriz afro-brasileira abre uma das galerias. A formação da identidade carioca e sua origem eminentemente negra é o foco do espelho que vi em “Crônicas Cariocas”. A poesia que nasce da favela, das escolas de samba, do baile charme A cultura sábia das matriarcas, pretos-velhos e ciganas. A malandragem das ruas, a ginga nos forrós e gafieiras… A feira de São Cristóvão, o Mercadão de Madureira.

Crônicas Cariocas

O Rio dos terreiros, das rádios comunitárias, do jogo do bicho. Cidade multicultural, que abriga o luxo e o lixo. Rio que abraça, beija, morde, mastiga e cospe Gentilezas e Rosários. Rio complexo, refratário. O Rio de Moïse, Durval, Amararildo, Marielle. O Rio das belezas e delícias: incomparável, indescritível! Rio das águas de março – para as quais nunca estamos preparados… O que diria João do Rio se visse agora a cidade pela qual se apaixonou? Ficaria aterrorizado com o frenesi caótico e violento? Se interessaria pelos catadores de latinha, pelos pedintes do trem, pelos moradores de rua da Lapa, pela rapaziada da boca?

Percorri toda a extensão da exposição – incluindo a ampla área com belas obras no andar térreo – como um flaneur, com cuidado para absorver e registrar o máximo para esta crônica carioca. Fiquei embevecido com tantas imagens, um deleite para os sentidos. Com certeza, merece mais de uma visita: “Crônicas Cariocas” faz a mente viajar em um universo encantador e instigante, às vezes pornográfico, quase sempre ignorado pelos “flashes” e “likes”, mas que compõe de forma visceral o caldeirão chamado Rio de Janeiro.

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Conheça outras descobertas de Gabriel Versiani pelo Rio de Janeiro em outras edições da coluna Contexto Carioca aqui!

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