Guerra no Oriente Médio acelera busca por ativos estratégicos e pode favorecer investimentos no Brasil

Foto: Shell do Brasil

Segundo especialistas, capital global continua circulando, mas de forma mais seletiva, com foco em energia, infraestrutura, agronegócio e recursos naturais

Jefferson Nesello, sócio-fundador e diretor da Zaxo; Foto: divulgação

A escalada das tensões no Oriente Médio tem impacto que vai além do preço do petróleo. O cenário altera fluxos comerciais globais, amplia a percepção de risco e passa a influenciar discussões estratégicas em conselhos de administração, fundos de investimento e operações de fusões e aquisições.

Apesar da incerteza geopolítica, os dados indicam que o mercado não está paralisado. O capital continua circulando, mas de forma mais seletiva, priorizando países, setores e ativos considerados resilientes em cenários de maior volatilidade.

No primeiro trimestre de 2026, as operações globais de fusões e aquisições somaram US$ 861 bilhões, o melhor início de ano para o mercado desde 2021.

“Em momentos de tensão geopolítica, o investidor deixa de perseguir apenas crescimento e passa a buscar proteção. Mas o movimento de alocação de capital continua. Contudo, ele se reorganiza, procura ativos ligados à segurança energética, produção de alimentos, infraestrutura e recursos naturais”, afirma Jefferson Nesello, sócio-fundador e diretor da Zaxo, boutique de M&A.

Brasil registra queda no número de operações, mas alta no valor movimentado

Segundo relatório da Aon, elaborado em parceria com a TTR Data e a Datasite, o Brasil registrou 256 operações de fusões e aquisições no primeiro trimestre de 2026. O número representa queda de 43% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Apesar da redução na quantidade de negócios, o valor agregado das transações cresceu 114%, alcançando US$ 17,7 bilhões.

“O crescimento de 114% no valor das operações de M&A mostra que o capital continua disposto a investir, mas de forma mais concentrada e seletiva. O investidor global está buscando ativos resilientes, capazes de atravessar ciclos de turbulência”, diz Nesello.

País pode ganhar relevância na reorganização global do capital

Na avaliação do executivo, o Brasil ganha relevância nesse cenário de reacomodação dos fluxos globais de capital. O país passa a ser visto não apenas como mercado emergente, mas como alternativa estratégica em setores considerados essenciais.

“Enquanto parte do mundo convive com conflitos armados, disputas comerciais e riscos crescentes de interrupção de cadeias produtivas, o país reúne atributos que se tornaram escassos: disponibilidade de recursos naturais, capacidade energética e estabilidade institucional relativa quando comparada a outras regiões”, afirma.

Segundo Nesello, a combinação desses fatores tende a fortalecer o Brasil como destino de investimentos estratégicos.

“Nesse contexto, setores ligados à energia, infraestrutura, agronegócio e recursos naturais passam a ocupar posição privilegiada nas decisões de alocação de capital”, destaca.

Energia é um dos setores em evidência

O setor de energia aparece entre os exemplos mais evidentes dessa mudança. Em meio às preocupações globais sobre o fornecimento de petróleo, empresas internacionais têm ampliado a atenção ao Brasil.

Em março de 2026, a Shell afirmou enxergar uma “enorme oportunidade” para investimentos no petróleo brasileiro, em razão da estabilidade do país em comparação a outras regiões produtoras. A companhia destacou que a produção nacional ganha importância à medida que compradores globais buscam reduzir a dependência do Oriente Médio.

A relevância estratégica da América do Sul também aparece nos números. Em 2026, Brasil, Guiana e outros produtores da região ampliaram sua participação no abastecimento global em um momento de redução da oferta oriunda do Oriente Médio.

Desde 2021, as exportações brasileiras de petróleo cresceram 71%. Apenas nos cinco primeiros meses de 2026, o país embarcou mais de 361 milhões de barris.

Em meio às restrições de oferta provocadas pela crise no Oriente Médio, Brasil e Guiana responderam por parte relevante do aumento das exportações sul-americanas, consolidando a região como alternativa ao petróleo oriundo do Golfo Pérsico.

Desafio é transformar vantagem em investimento

Para Nesello, a guerra no Oriente Médio acelera uma reorganização dos fluxos globais de capital e abre uma janela de oportunidade para o Brasil.

“A guerra no Oriente Médio está acelerando uma reorganização dos fluxos globais de capital. E o Brasil precisa aproveitar essa janela. O desafio agora é transformar essa vantagem potencial em atração efetiva de investimentos. Quem conseguir se posicionar melhor durante essa reconfiguração global tende a colher os resultados por muitos anos”, conclui.