
Uma tecnologia assistiva desenvolvida na Universidade de Brasília tem chamado a atenção de especialistas e do poder público por sua proposta simples, mas transformadora. Trata-se de um módulo inteligente que pode ser acoplado a bengalas dobráveis convencionais, adicionando a elas sensores ópticos capazes de detectar obstáculos acima da linha da cintura, como galhos baixos, placas, toldos e fachadas, que a ponta da bengala tradicional não alcança. O dispositivo emite alertas vibratórios, sonoros e mensagens de áudio, permitindo que o usuário reaja com mais tempo e segurança durante o deslocamento.
O projeto, batizado de Bengalas Inteligentes, conquistou o terceiro lugar no Desafio de Inovação promovido pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial em parceria com o Governo do Paraná, no final de março. A competição reuniu iniciativas de todo o país voltadas à mobilidade e à autonomia de pessoas com deficiência visual, e a solução da UnB se destacou não apenas pela eficiência técnica, mas também pelo potencial de democratização, já que o custo estimado de produção é inferior a 400 reais, com preço final previsto abaixo de 900 reais para o consumidor.
Coordenado pelo professor Renan Balzani, pesquisador do Laboratório de Prototipagem, Inovação e Sistemas, o projeto nasceu de uma constatação prática. Durante o desenvolvimento de um mapa colaborativo de acessibilidade urbana, a equipe percebeu que faltava uma ferramenta que ajudasse as pessoas com deficiência visual a antecipar perigos no trajeto diário. A ideia inicial era um dispositivo de pulso, mas os testes com usuários apontaram que a bengala, por ser um item já incorporado à rotina, seria o suporte mais natural e eficiente para abrigar a tecnologia.
O funcionamento é direto e intuitivo. Os sensores ópticos instalados no módulo varrem o espaço à frente do usuário em um raio de até dois metros. Quando um obstáculo é identificado, o sistema dispara alertas graduais, que podem ser ajustados conforme a preferência de cada pessoa. Vibrações mais intensas indicam proximidade, enquanto os sinais sonoros e as mensagens faladas pelo aplicativo ajudam a localizar e dimensionar o risco. Tudo isso sem comprometer a discrição, pois a bengala mantém a aparência de um modelo comum, característica muito valorizada pelos próprios usuários, segundo o coordenador.
Além do hardware, a solução está integrada a um ecossistema digital que amplia seu alcance. O aplicativo Acessa UnB, desenvolvido inicialmente com a Diretoria de Acessibilidade da universidade, permite que os usuários registrem obstáculos urbanos, compartilhem informações sobre calçadas, rampas e sinalização, e acionem contatos de emergência com localização em tempo real. Essa rede colaborativa transforma cada pessoa com deficiência visual em um agente ativo de mapeamento urbano, gerando dados que podem ser usados por poder público e planejadores para melhorar a infraestrutura das cidades.
O reconhecimento nacional veio acompanhado de uma validação prática importante. A equipe da UnB testou o protótipo com pessoas com deficiência visual em diferentes cenários, coletando feedbacks que orientaram ajustes no design e na usabilidade. Um dos aprendizados mais significativos, segundo Balzani, foi a necessidade de equilibrar inovação e familiaridade. Os usuários não queriam um dispositivo que chamasse atenção ou que exigisse um novo aprendizado complexo. Eles queriam algo que coubesse na mão, que não pesasse e que funcionasse sem complicação. O módulo atende a esses critérios e ainda oferece uma camada extra de segurança que antes não existia.
Atualmente, a tecnologia está em fase de aprimoramento de hardware e software, com testes sendo realizados em diferentes condições de iluminação, clima e superfície. A equipe também estuda a possibilidade de incluir sensores de inclinação e giroscópios para detectar quedas, além de expandir a integração com outros dispositivos de assistência. O próximo passo é viabilizar a produção em escala e estabelecer parcerias com associações de deficientes visuais, governos estaduais e municipais e o Sistema Único de Saúde, para que o dispositivo chegue a quem realmente precisa.
A iniciativa integra um conjunto mais amplo de pesquisas em acessibilidade conduzidas na UnB, com participação das professoras Ana Carolina Cordeiro Correia Lima e Paula Lelis Rabelo Albala, e conta com o suporte da Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos na gestão administrativa e financeira. O laboratório LAPIS, onde o projeto foi gestado, reúne arquitetos, engenheiros, designers, educadores e comunicadores em uma abordagem multidisciplinar que tem gerado soluções aplicadas a problemas reais da sociedade.
Em um país com quase 8 milhões de pessoas com dificuldades permanentes para enxergar, segundo dados recentes do IBGE, a bengala inteligente não é apenas uma inovação tecnológica. Ela representa um passo concreto rumo a cidades mais inclusivas, onde a autonomia não depende da sorte ou do improviso, mas de ferramentas acessíveis, bem projetadas e conectadas às redes de apoio. O reconhecimento nacional é um sinal de que o caminho está certo, mas, para os pesquisadores, o prêmio maior será ver o dispositivo nas ruas, nas mãos de quem pode usá-lo todos os dias.




















