
Cerca de 70% das pessoas diagnosticadas com algum transtorno alimentar também enfrentam outro transtorno psiquiátrico, sendo a depressão um dos mais prevalentes. Segundo especialistas, essa sobreposição é explicada por fatores genéticos e ambientais em comum, como traumas, violência e bullying.
“A relação entre transtornos alimentares e depressivos é profunda e complexa”, explica a Dra. Mireille Almeida, psiquiatra e diretora-executiva da Associação Brasileira de Transtornos Alimentares. Ela destaca que o tratamento multidisciplinar e a compreensão do sofrimento emocional são essenciais para lidar com essas condições.
Tratamento combinado exige abordagem individualizada
Apesar de anorexia e bulimia apresentarem diferenças clínicas importantes, ambas requerem tratamento integrado com psiquiatra, psicólogo e nutricionista, especialmente quando acompanhadas de sintomas depressivos.
“A regulação emocional, a redução da rigidez comportamental e o combate à culpa são pilares do tratamento”, afirma a Dra. Carla Mourilhe, nutricionista e coordenadora do Grupo de Obesidade e Transtornos Alimentares da UFRJ.
Segundo especialistas, um dos maiores desafios é o medo do ganho de peso, comum entre pacientes, o que pode comprometer a adesão ao tratamento. “O foco deve estar na saúde, não apenas no número da balança”, reforça Mireille.
Abordagens específicas para bulimia
Na bulimia nervosa, os episódios de compulsão alimentar geralmente são usados como válvula de escape emocional. “Comportamentos compensatórios como vômitos, uso de laxantes e jejuns são comuns”, explica a Dra. Carla.
A fluoxetina, antidepressivo da classe dos ISRS, é considerada o padrão-ouro para o tratamento farmacológico. Ela ajuda a controlar o apetite, reduzir compulsões e estabilizar o humor depressivo.
Medicamentos que promovem ganho de peso excessivo, como paroxetina e citalopram, devem ser evitados, pois podem aumentar a ansiedade e dificultar o progresso do paciente. A bupropiona, apesar de eficaz na perda de peso, é contraindicada nesses casos devido ao risco elevado de convulsões.
Abordagens específicas para anorexia
No caso da anorexia nervosa, o maior obstáculo é a resistência ao ganho de peso. “Muitos pacientes veem o transtorno como parte de sua identidade, o que dificulta o engajamento no tratamento”, afirma a Dra. Mireille.
A olanzapina tem se mostrado uma alternativa eficaz, ajudando na redução da rigidez cognitiva, ansiedade e promovendo o ganho de peso inicial. Já a duloxetina, um antidepressivo com menor impacto sobre o peso, pode ser utilizada em casos de depressão associada.
Para a anorexia nervosa atípica — quando não há magreza extrema apesar da restrição alimentar —, o tratamento cognitivo-comportamental continua sendo o mais indicado, embora sua resposta possa ser mais lenta.
Terapia deve ser personalizada e acolhedora
A resistência ao tratamento, tanto na anorexia quanto na bulimia, é um desafio recorrente. Por isso, o papel da equipe de saúde é criar um espaço acolhedor e sem julgamentos. “Evitar falar de peso e estética nas consultas é fundamental para promover o vínculo terapêutico”, destaca Mireille.
Além disso, é importante reforçar que transtornos alimentares afetam pessoas de todos os tipos corporais, e o foco terapêutico deve sempre considerar o estado de saúde global do paciente, e não apenas o IMC.
* Notícia escrita com base em artigo de Marcela Becegato, publicado originalmente pelo Medscape Notícias Médicas em 26 de março de 2025.