IMPORTÂNCIA DAS PROTEÍNAS DO LEITE NO SISTEMA IMUNOLÓGICO

Autores:

Adriana Torres Silva Alves (Pesquisadora do Tecnolat/ITAL e membro do subcomitê de nutrição e saúde da FIL-IDF)

Leila Maria Spadoti (Pesquisadora do Tecnolat/ITAL e membro do subcomitê de Ciência e Tecnologia da FIL-IDF)

Marco Antônio Sundfeld da Gama (Pesquisador da Embrapa Gado de Leite e coordenador do subcomitê de nutrição e saúde da FIL-IDF)

IMPORTÂNCIA DAS PROTEÍNAS DO LEITE NO SISTEMA IMUNOLÓGICO

O sistema imunológico desempenha um papel fundamental na proteção contra doenças infecciosas causadas por bactérias, vírus, fungos e parasitas empregando, para tanto, mecanismos de específicos e não específicos de resposta.

Os componentes não específicos dos sistemas de defesa imunológico do organismo incluem barreiras físico-químicas tais como: a pele, membranas de mucosas, a lisozima, complementos e interferons, bem como células assassinas naturais e células fagócitas (imunidade celular).

Respostas imunológicas específicas são intermediadas por anticorpos/imunoglobulinas (IgA, IgG, IgM, IgD e IgE) produzidos por linfócitos do Tipo B (imunidade Humoral), enquanto os linfócitos de Tipo T produzem as células T-auxiliador, T-supressor e linfócitos citotóxicos (imunidade intermediada por células).

O leite e os produtos lácteos são fonte dietética exclusiva ou predominante de compostos bioativos, incluindo determinadas proteínas, que podem aumentar a resposta imunológica e, portanto, contribuir para a proteção do organismo. A seguir, são descritas algumas dessas proteínas e seus componentes aos quais propriedades imunomoduladoras têm sido demonstradas na literatura.

 

PAPEL DAS PROTEÍNAS DO SORO NA IMUNIDADE

O leite apresenta em sua composição dois grupos principais de proteínas: as caseínas e as proteínas do soro ou soroproteínas.

Além das funções básicas de nutrição (ex.: suprimento de aminoácidos essenciais disponíveis e em proporções adequadas), as proteínas do leite também possuem propriedade funcionais relacionadas à promoção da saúde e prevenção de doenças.

Nesse aspecto, merecem destaque as seguintes soroproteínas: imunoglobulinas, lactoperoxidase (atividade antibacteriana) e lactoferrina (atividade antibacteriana, antiviral e de estimulação da imunidade).

Estudos com animais demonstraram que a administração de concentrados de proteínas de soro na dieta potencializa as respostas humorais e intermediadas por células do sistema imunológico. As elevadas concentrações do aminoácido cisteína nas proteínas do soro quando comparadas a outras fontes proteicas da dieta humana têm sido apontadas como um dos fatores responsáveis por esse efeito imunoestimulador, uma vez que a cisteína é utilizada na síntese da enzima glutationa peroxidase, que exerce importante papel antioxidante (neutralização de radicais livres) e regula processos chaves envolvidos na resposta imunológica.

 

Lactoferrina

A lactoferrina é uma glicoproteína que consiste em uma única cadeia polipeptídica ligada a dois glicanos (polissacarídeos), encontrada na maioria das secreções exócrinas de mamíferos, incluindo leite, lágrimas, saliva e secreções brônquicas e intestinais. Além disso, a lactoferrina também está presente nos grânulos secundários de neutrófilos. Portanto, existem duas formas primárias de lactoferrina humana, uma presente nas secreções exócrinas e a outra presente nos grânulos secundários de neutrófilos. As duas formas são idênticas em sua sequência de aminoácidos, mas diferem no conteúdo de glicano. Enquanto se considera que a forma secretada esteja envolvida na defesa do hospedeiro contra a infecção microbiana nos locais da mucosa, a lactoferrina granulocítica/neutrofílica tem notável função imunomoduladora.

A concentração média de lactoferrina no leite de vaca é de 10 mg por litro, mas é encontrada em concentrações mais elevadas no soro (30 a 100 mg por litro de soro doce). É considerada uma proteína de defesa de primeira linha na proteção contra infecções microbianas.

Um estudo com animais sugeriu que a lactoferrina protege contra o choque séptico, uma complicação muitas vezes letal decorrente de uma resposta sistêmica a uma infecção grave. Entre aqueles que são particularmente vulneráveis ao choque séptico incluem-se os idosos, pacientes pós-operatórios e portadores do vírus HIV ou de outras condições debilitantes que afetam o sistema imunológico. Também foram relatados efeitos antivirais da lactoferrina contra vários tipos de vírus que causam doenças em humanos.

Alguns estudos indicam ainda que a lactoferrina pode estimular uma variedade de células do sistema imunológico. A lactoferrina pode, portanto, proporcionar benefícios quando usada como suplemento na dieta de pessoas idosas ou de indivíduos com a imunidade comprometida.

 

Peptídeos bioativos (PBAs)

PBAs podem ser definidos como segmentos específicos de proteínas com 3 a 20 resíduos de aminoácidos e com atividades biológicas desejáveis. A lactoferricina, por exemplo, é um PBA derivado da lactoferrina pela ação da pepsina gástrica e que apresenta efeitos antimicrobianos. Há também relatos de que alguns PBAs derivados das proteínas do leite apresentam capacidade de inibir a adesão de vírus e bactérias às células epiteliais, contribuindo para proteção do organismo contra infecções.

 

Referências:

ACTOR, J.K. 2015. Lactoferrin: A Modulator for Immunity against Tuberculosis Related Granulomatous Pathology. Mediators of Inflammation.  Article ID 409596, 10 pages http://dx.doi.org/10.1155/2015/409596

CRIBB, P. Whey proteins and immunity. Arlington: U.S. Dairy Export Council, 2004. 12p.

LONNERDAL, B.; LYER, S. Lactoferrin: molecular structure and biological function.  Annual Review of Nutrition, 15, 93-110, 1995.

SANCHEZ, L.; CALVO, M.; BROCK, J.H. Biological role of lactoferrin, Archives of Disease in Childhood, 67(5), 657-661, 1992.

SILVA E ALVES, A.T.; SPADOTI, L.M.; GAMA, M.A.S. Funcionalidade e prevenção. In: REGO, R.A. et al. Brasil Dairy Trends 2020. Campinas:ITAL, 2017. Cap. 6, p.143-169.

USDEC. Produtos de soro: definições, composição, funções. In: USDEC. Manual de referência para produtos de soro e lactose dos EUA. São Paulo: USDEC, 2004. 226p.

 

 

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