
Paralisação nacional começou em 10 de setembro e segue sem acordo; TST exige 80% do efetivo em atividade, mas consumidores e pequenos vendedores já relatam atrasos
A greve nacional dos trabalhadores dos Correios entra nesta terça-feira (22) no 12º dia sem acordo e com reflexos crescentes para consumidores e pequenos negócios. A paralisação começou em 10 de setembro e deve continuar pelo menos até a retomada, na quinta-feira (24), do julgamento do dissídio coletivo pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST). O principal impasse entre funcionários e a estatal envolve mudanças no plano de saúde da categoria.
A greve, porém, não significa paralisação total dos Correios. Uma decisão liminar do TST determina a manutenção de 80% do efetivo em cada unidade ou estabelecimento, abrangendo atendimento, tratamento, transporte, distribuição e atividades administrativas consideradas essenciais. Mesmo assim, já há relatos de encomendas que ultrapassaram o prazo, rastreamentos sem atualização e demora em pedidos de ressarcimento de frete.
Os Correios afirmam que as agências permanecem abertas e que adotaram um plano de contingência com remanejamento de equipes, reforço das operações e mutirões de entrega. A experiência do consumidor, entretanto, pode variar bastante conforme a região e a etapa em que a encomenda se encontra.
Por que os funcionários dos Correios estão em greve?
O ponto que concentra o impasse é o Correios Saúde, plano que atende empregados, aposentados e dependentes. Segundo representantes dos trabalhadores ouvidos pela Folha de S.Paulo, a categoria quer preservar o modelo atual, enquanto a reestruturação da estatal prevê mudança no papel dos Correios no financiamento e nos riscos associados ao benefício.
O conflito ocorre em meio a uma situação financeira delicada. Os Correios registraram prejuízo líquido de R$ 5,55 bilhões no primeiro semestre de 2026, cerca de 30% superior ao resultado negativo verificado no mesmo período de 2025. A estatal executa um plano de reestruturação que inclui redução de despesas, revisão de contratos, programas de desligamento e busca de crédito.
A empresa recorreu ao TST e pediu que a greve fosse considerada abusiva. O julgamento começou na segunda-feira (21), mas foi suspenso depois que os Correios apresentaram novos documentos. O presidente da Corte, ministro Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, entendeu que os sindicatos precisavam ter oportunidade de analisar o novo material antes da decisão. O julgamento foi remarcado para quinta-feira (24), às 15h30.
As encomendas estão paradas?
Não de forma generalizada.
Com 80% do efetivo obrigado judicialmente a permanecer em atividade, objetos continuam circulando pela rede e sendo entregues. O problema é que a redução da força de trabalho e as diferenças de adesão entre unidades podem provocar gargalos em centros de tratamento, transferências entre cidades e na chamada última milha, quando a encomenda sai para o endereço do destinatário.
A Folha identificou relatos de consumidores e pequenos vendedores com encomendas atrasadas, rastreamento sem novas movimentações e demora na análise de ressarcimentos. Isso significa que mesmo Sedex e outros serviços que continuam operando podem sofrer atrasos, dependendo do percurso.
Por isso, a recomendação para quem tem compra em trânsito é acompanhar o rastreamento e guardar comprovantes do prazo originalmente informado.
Quem compra pela internet continua protegido pelo Código de Defesa do Consumidor
Para compras feitas em lojas virtuais, a greve da empresa responsável pelo transporte não elimina automaticamente a responsabilidade do vendedor pelo prazo prometido ao consumidor.
Orientações de órgãos de defesa do consumidor estabelecem que, quando uma oferta não é cumprida, o comprador pode exigir o cumprimento, aceitar produto ou serviço equivalente ou rescindir o contrato com restituição dos valores pagos. O consumidor deve guardar nota fiscal, confirmação do pedido, prazo prometido, mensagens e capturas de tela.
Na prática, isso significa que o cliente que comprou de uma loja deve primeiro procurar a própria loja ou marketplace, e não apenas os Correios. O contrato de compra foi feito com o fornecedor.
Pequenos vendedores estão entre os mais vulneráveis
A greve tende a ter impacto diferente para uma grande varejista e para um pequeno empreendedor.
Marketplaces e grandes redes criaram nos últimos anos estruturas próprias de armazenagem e entrega ou contratos simultâneos com diversas transportadoras. Já vendedores menores ainda dependem mais de operadores que aceitem postagens individuais, tenham preços competitivos e atendam municípios distantes.
O próprio relatório dos Correios mostra como o mercado já se tornou mais competitivo: em 2024, a estatal calculava sua participação no mercado de encomendas em cerca de 25%. O dado é histórico e não representa necessariamente a participação atual, mas evidencia que as empresas privadas já tinham conquistado parcela relevante da logística de encomendas antes da greve de 2026.
Para uma pequena loja, entretanto, atrasos podem significar reembolso ao cliente, cancelamento de vendas, estoque parado, avaliações negativas e necessidade de contratar um frete mais caro.
Transportadoras privadas conseguem substituir os Correios?
Conseguem absorver parte importante da demanda, mas não há evidência de que consigam substituir integralmente os Correios em todo o país.
O Brasil já dispõe de uma malha privada bastante ampla. A Jadlog informa possuir cerca de 7 mil veículos e 4 mil parceiros Pickup, além de mais de 5 mil colaboradores diretos e indiretos. A Total Express afirma atender todo o território nacional, com coleta em mais de mil cidades e uma ampla rede de distribuição.
Plataformas que intermediam fretes para pequenos lojistas também ampliaram as opções. O Melhor Envio, por exemplo, trabalha com Correios, Jadlog, Loggi, Buslog, J&T Express, Azul Cargo Express e LATAM Cargo, permitindo ao comerciante comparar alternativas de transporte.
Os grandes marketplaces estão ainda menos dependentes de uma única empresa. A Shopee, por exemplo, informa que seu centro logístico de São Bernardo do Campo tem capacidade para processar até 200 mil pacotes por hora e superar 3 milhões de pedidos por dia em períodos de pico. A Amazon também mantém no Brasil centros de distribuição e dezenas de estações de entrega operadas com sua tecnologia.
Isso torna grandes operações de comércio eletrônico mais resistentes a uma greve dos Correios do que eram há alguns anos.
Mas há uma diferença fundamental: capilaridade
O principal limite das transportadoras privadas é que cobertura comercial não é exatamente a mesma coisa que a obrigação de oferecer serviço postal universal.
Os Correios têm a obrigação de manter atendimento nacional inclusive em regiões de baixa atratividade econômica. Nas demonstrações financeiras da própria estatal, a empresa afirma que sua missão de universalização exige atendimento em todos os municípios do país, inclusive onde o volume de carga é pequeno ou a operação não é rentável.
Por isso, uma greve pode ser sentida de maneira mais intensa em cidades pequenas, regiões rurais e rotas em que há menos concorrência privada.
Também há serviços específicos — como determinadas correspondências registradas, logística reversa e operações públicas — nos quais substituir rapidamente os Correios é mais difícil.
As transportadoras privadas estão lucrando mais com a greve?
Até o momento, não há dados públicos confiáveis que permitam afirmar que Loggi, Jadlog, Total Express ou outras transportadoras aumentaram seus lucros por causa da greve iniciada em setembro.
É razoável esperar algum deslocamento de encomendas para concorrentes quando clientes procuram alternativas, mas receber mais volumes não é sinônimo automático de obter mais lucro. Uma expansão repentina da demanda também exige mais motoristas, veículos, triagem, combustível, espaço de armazenagem e capacidade na última milha.
Além disso, várias das principais transportadoras são empresas fechadas e não divulgam resultados semanais ou mensais detalhados. Mesmo quando há balanços financeiros, seria necessário separar o crescimento normal do comércio eletrônico do volume adicional causado especificamente pela paralisação dos Correios.
Portanto, a resposta mais precisa hoje é: há estrutura privada capaz de receber parte da demanda desviada, mas ainda não existe evidência pública suficiente para medir quanto volume migrou nem quanto — ou se — isso elevou o lucro das transportadoras.
Grandes marketplaces sentem menos; pequenos negócios podem pagar mais
O efeito prático da diversificação logística também é desigual.
Empresas como Amazon, Mercado Livre e Shopee desenvolveram redes próprias ou contratadas, centros de distribuição e sistemas de última milha. Por isso, uma compra entregue integralmente pela rede logística de um marketplace pode não sofrer qualquer efeito direto da greve dos Correios.
Já um vendedor que faz poucas postagens mensais pode encontrar alternativas privadas, mas o preço varia conforme peso, CEP de origem, destino e volume contratado. Em algumas localidades, a substituição pode sair mais cara ou exigir deslocamento até um ponto de postagem.
Isso ajuda a explicar por que a greve não provoca uma interrupção geral do comércio eletrônico, mas pode atingir com mais força pequenos lojistas e consumidores de regiões menos atendidas pelas redes privadas.
A greve dos Correios pode demorar?
A próxima data decisiva é quinta-feira (24), quando a Seção de Dissídios Coletivos do TST deverá retomar o julgamento.
A Corte terá de decidir questões como a legalidade ou abusividade da paralisação, os efeitos dos dias não trabalhados e as condições do acordo coletivo. A relatora, ministra Maria de Nazaré Medeiros Rocha, chegou a defender a não abusividade da greve e a compensação dos dias parados. Outros ministros questionaram se houve descumprimento da decisão que determinou 80% do efetivo em operação.
Até uma nova decisão ou acordo entre as partes, a orientação sindical é pela continuidade da paralisação.
O que fazer se sua encomenda atrasar
Para o consumidor, algumas medidas ajudam a evitar prejuízo maior:
- acompanhe o código de rastreamento e registre as atualizações;
- guarde o prazo de entrega anunciado no momento da compra;
- se o prazo vencer, procure primeiro a loja ou marketplace;
- registre por escrito a reclamação e guarde o protocolo;
- se a oferta não for cumprida, o consumidor pode exigir entrega, produto equivalente ou cancelamento com devolução do valor, conforme o caso;
- em caso de dificuldade para resolver diretamente, é possível procurar o Procon ou registrar reclamação nos canais oficiais de defesa do consumidor.
Em resumo
A greve dos Correios não paralisou o sistema postal brasileiro, mas já gera atrasos e incerteza em parte das entregas. A obrigação de manter 80% dos trabalhadores reduz o impacto, enquanto grandes varejistas e marketplaces contam com redes logísticas diversificadas.
As transportadoras privadas têm capacidade para absorver parte dos volumes, especialmente nos grandes centros urbanos, mas não há dado público que demonstre que estejam conseguindo substituir integralmente os Correios em escala nacional.
Também não é possível afirmar, até agora, que estejam lucrando mais por causa da greve. O que existe é potencial de migração de demanda — algo diferente de lucro comprovado.
A situação pode mudar a partir de quinta-feira, quando o TST retoma o julgamento que poderá definir os próximos passos da paralisação.




















