
Com a reta final para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) se aproximando, a ansiedade toma conta de muitos candidatos. Nas redes sociais, rotinas de estudo de oito, dez ou até doze horas diárias viralizam, criando a ilusão de que o desempenho no exame é uma questão de resistência física e tempo dedicado aos livros. No entanto, especialistas em educação são categóricos: a qualidade da preparação vale muito mais do que longas jornadas de estudo, e o excesso de horas pode ser contraproducente.
Julia Konofal, autora de conteúdos educacionais da Kultivi, plataforma online gratuita de estudos, aponta que um dos maiores erros dos candidatos é transformar a carga horária em uma competição. Muitos estudantes se sentem atrasados por não conseguirem estudar dez horas por dia, mas esse tipo de comparação, segundo ela, apenas gera ansiedade e prejudica o aprendizado. O cérebro humano tem um limite de concentração, e ultrapassá-lo não traz benefícios reais, pois o corpo e a mente precisam de pausas para consolidar o que foi aprendido.
A especialista explica que pesquisas em psicologia cognitiva mostram que métodos ativos de estudo, como a resolução de exercícios, a prática de simulados e a revisão espaçada, produzem resultados muito superiores à leitura passiva e repetitiva. Três horas de estudo concentrado e com estratégia podem valer mais do que uma maratona de doze horas repleta de distrações e interrupções. Além disso, a consolidação da memória depende de sono de qualidade e de intervalos regulares, o que torna jornadas excessivas ainda menos eficientes.
Outro equívoco comum é acreditar que existe uma fórmula mágica de horas que funcione para todos. A preparação ideal é personalizada e leva em conta o tempo disponível, a base de conhecimento do candidato, a nota desejada e a rotina diária. O mais importante, segundo a especialista, é construir uma rotina sustentável, que possa ser mantida ao longo dos meses, e não picos de estudo seguidos de abandono. A constância e a regularidade são fatores muito mais determinantes para um bom desempenho do que a quantidade bruta de horas.
Para Claudio Matos, CEO da Kultivi, a pressão criada pelas chamadas “rotinas perfeitas” nas redes sociais tem provocado o efeito contrário ao desejado. Ele observa que muitos jovens acreditam que nunca estão fazendo o suficiente porque se comparam a perfis que mostram apenas o lado mais intenso da preparação. O papel das plataformas de ensino, segundo ele, é justamente mostrar que uma preparação eficiente precisa ser inteligente, equilibrada e compatível com a realidade de cada estudante, e não uma maratona exaustiva e insustentável.
Embora não exista uma receita universal, especialistas indicam que uma rotina de três a seis horas líquidas de estudo por dia, bem distribuídas entre teoria, exercícios, revisões e simulados, costuma ser suficiente para a maioria dos candidatos que buscam uma preparação consistente. Mais do que perseguir um número mágico de horas, o verdadeiro diferencial está em transformar o tempo disponível em aprendizado efetivo. Em um exame tão concorrido quanto o Enem, o foco, o planejamento e a regularidade continuam sendo armas muito mais poderosas do que qualquer maratona de estudos.




















