
O reposicionamento do Brasil no mapa do comércio internacional, impulsionado pela política tarifária dos Estados Unidos, está exigindo das empresas uma adaptação que vai além da geografia econômica. A crescente dependência da Ásia, especialmente da China, como principal destino das exportações brasileiras traz à tona a necessidade de uma gestão de riscos contratuais mais sofisticada, que considere não apenas aspectos jurídicos e regulatórios, mas também as diferenças culturais e práticas negociais da região.
Os dados recentes confirmam essa guinada. No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras atingiram um recorde de US$ 184,8 bilhões, com superávit comercial de US$ 42,3 bilhões. A China consolidou sua posição como principal parceiro comercial do Brasil ao importar US$ 58,3 bilhões em produtos brasileiros, crescimento de 22% em relação ao mesmo período do ano anterior. Já as exportações para os Estados Unidos recuaram 13%, totalizando US$ 17,4 bilhões, o equivalente a apenas 9,4% das vendas externas brasileiras; a menor participação da série histórica. A instabilidade promovida pela administração Trump, com ameaças de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, acelerou um movimento de diversificação que já vinha ocorrendo, mas também acendeu um alerta sobre os riscos da concentração em um único grande parceiro .
Para Pedro Ribeiro, vice-presidente de Assuntos Internacionais da CAMARB, o fortalecimento das relações comerciais com a China exige que as empresas brasileiras ampliem sua visão sobre gestão de riscos. “Além dos aspectos jurídicos e regulatórios, é fundamental compreender os fatores culturais e as práticas negociais que podem influenciar a execução dos contratos e a forma como eventuais divergências são tratadas pelas partes”, explica. Ele defende que a crescente complexidade das relações internacionais exige contratos com mecanismos adequados para lidar com divergências em ambientes multiculturais, como a adoção de mecanismos escalonados de resolução de controvérsias, combinando negociação, mediação e arbitragem.
Atenta a essa evolução, a CAMARB tem adaptado seus procedimentos para atender às necessidades de operações cada vez mais multiculturais. Um marco nesse processo foi a celebração de um acordo formal de cooperação com a China International Economic and Trade Arbitration Commission (CIETAC), uma das mais tradicionais e respeitadas instituições arbitrais da Ásia. A parceria visa fortalecer a cooperação institucional e facilitar a administração de disputas envolvendo empresas brasileiras e chinesas. “O aumento da complexidade e do volume das relações comerciais internacionais reforça a importância de mecanismos eficazes de prevenção e resolução de disputas que possam acomodar diferenças culturais”, conclui Ribeiro.




















