A transformação digital está facilitando a rastreabilidade de alimentos

Rodney Repullo. Foto: Divulgação

A rastreabilidade de alimentos é obrigatória e regida pela Instrução Normativa Conjunta ANVISA-MAPA nº 02 de 07/02/2018 (INC 02/2018) estabelece a obrigatoriedade de informações padronizadas em frutas, legumes e vegetais para permitir que o consumidor identifique a origem do produto com base em nome, variedade, quantidade, lote, data de produção e reconhecimento do fornecedor. Para produtos perecíveis que não dispõem de prazo de validade, as informações de rastreabilidade devem ser mantidas por 6 meses após a data de recebimento/distribuição.

Ao cumprir as regras, a indústria de alimentos deve levar em conta que a rastreabilidade também é boa para os negócios. Eis o motivo: quando há um recall de produto, o fabricante pode identificar rapidamente os códigos de lote afetados e tomar as medidas necessárias para evitar que os itens recolhidos cheguem aos consumidores.

Com processos manuais e rastreabilidade limitada, um fabricante pode se encontrar em uma posição nada invejável e correr o risco de não estar em conformidade ou poder necessitar retirar todos os seus produtos das prateleiras, em vez de apenas os que estão afetados pelo recall. No caso dos consumidores comprarem itens que deveriam ser recolhidos e a empresa não conseguir removê-los das prateleiras a tempo, certamente correrá o risco de processos na Justiça, levando à perda da confiança do consumidor na marca.

Em casos como esse, a economia de tempo e dinheiro é significativa. Uma estimativa da FDA (o órgão de vigilância sanitária dos Estados Unidos) aponta que o aumento da rastreabilidade reduzirá o tempo de rastreamento em 83% e, melhor ainda, haverá uma economia entre US$ 2,5 bilhões e US$ 18,8 bilhões nos próximos 20 anos . Traduzindo para o nosso mercado brasileiro, os prejuízos são enormes.

A rastreabilidade pode ser digital?

Se uma indústria leva a sério o aumento da rastreabilidade, a digitalização é a resposta óbvia. Mas isso não significa que se tenha que eliminar e substituir todas as suas máquinas legadas. Já estão disponíveis soluções de chão de fábrica inteligentes que permitem às indústrias manter seus equipamentos antigos e atualizá-los usando medidas econômicas. Os sistemas de software envolvidos podem ser integrados, eliminando perdas ou inconsistência de dados. Para obter os melhores resultados, os fabricantes podem instalar sensores em máquinas antigas, transformando-as em data centers valiosos. E esses dados alimentam a rastreabilidade.

No entanto, apenas coletar dados não é suficiente. Os fabricantes necessitam de acesso facilitado a esses dados, seja no caso de um recall ou quando buscam otimizar processos. Para que isso aconteça, os fabricantes precisam implementar uma arquitetura de dados moderna, neste caso, os data lakes.

Os data lakes são hospedados na nuvem e podem armazenar grandes quantidades de dados, mantendo o formato original intacto. Isso significa que os dados em todos os formatos, estruturados e semiestruturados, permanecem no data lake. Em seguida, o data lake transforma essas entradas em painéis fáceis de entender.

Por exemplo, imagine que um fabricante de manteiga perceba um mês após a produção que um de seus lotes está contaminado. Os usuários necessitam ter a capacidade de poder pesquisar facilmente os dados desse lote de produção e ver de onde vieram os ingredientes, quais eram as condições de produção e para onde foi na cadeia de suprimentos a seguir. Em vez de passar horas procurando os dados de que você precisa em diferentes sistemas, as informações ficam disponíveis rapidamente e relatórios ou alertas podem ser criados em tempo real.  Uma integração correta entre as máquinas legadas pode garantir que esta tarefa não seja prejudicada por conflitos entre as informações que irão transitar entre os sensores e os sistemas de dados.

Devido às novas regras de segurança alimentar existentes no Brasil e em vários países, a interoperabilidade entre as aplicações empresariais é essencial. A interoperabilidade permite que as empresas em todos os níveis da cadeia de abastecimento compreendam facilmente os dados de outros elos da cadeia de abastecimento alimentar.

No entanto, as empresas geralmente lutam para integrar dados de seus próprios sistemas, quem dirá exportá-los de forma que empresas externas possam usá-los. Felizmente, os data lakes também são uma grande ajuda aqui, porque podem transformar dados não estruturados em dados estruturados, preservando também os dados originais. Isso significa que as empresas podem enviar dados em formatos que os parceiros da cadeia de suprimentos poderão ler e usar.

Rastreabilidade digitalizada acessível

Muitas indústrias de alimentos de médio porte consideram a fabricação inteligente – a Indústria 4.0 –  atraente, mas inacessível para elas. Até recentemente, isso costumava ser verdade; no entanto, devido à novas tecnologias, as empresas agora podem integrar seus sistemas legados às soluções da indústria digital, em vez de substituí-los. E eles não precisam esperar anos para ver o ROI. É possível desenvolver uma estratégia de implementação de sprint que divide a jornada para a fabricação inteligente em sprints de 90 dias, e os fabricantes podem ver o ROI desde o início. Na verdade, os sprints são projetados para financiar os sprints seguintes usando o ROI dos anteriores.

A hora de agir é agora

A transformação digital está no horizonte dos fabricantes de alimentos há anos, mas ela não pode demorar para acontecer. As indústrias da cadeia alimentar de médio porte não precisam temer que isso signifique gastar muito dinheiro. Com a solução certa e a estratégia de implementação, os fabricantes de alimentos de médio porte podem cumprir todas as regras da rastreabilidade enquanto aumentam seus resultados graças a processos orientados por dados.

Rodney Repullo é CEO da Magic Software Brasil.

Contexto Livre é uma coluna rotativa, de assuntos diversos escrita por pessoas bacanas que tenham algo legal e inspirador pra compartilhar.

 

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