Nasa lança telescópio Roman para investigar energia escura, matéria escura e novos mundos

Imagem: NASA’s Goddard Space Flight Center/Conceptual Image Lab

Observatório espacial de nova geração decolou da Flórida em foguete Falcon Heavy e seguirá para o ponto L2, a cerca de 1,5 milhão de quilômetros da Terra

A Nasa lançou, neste domingo (30), o Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, novo observatório de grande campo de visão que deve ajudar cientistas a investigar alguns dos maiores mistérios do Universo, como energia escura, matéria escura, formação de galáxias e planetas fora do Sistema Solar.

O lançamento ocorreu às 7h26 no horário da costa leste dos Estados Unidos, 8h26 no horário de Brasília, a bordo de um foguete Falcon Heavy, da SpaceX, a partir do Complexo de Lançamento 39A, no Centro Espacial Kennedy, na Flórida.

Segundo a Nasa, o telescópio iniciou uma viagem de aproximadamente três meses até sua órbita final, no chamado ponto de Lagrange L2, a cerca de 1 milhão de milhas da Terra, o equivalente a aproximadamente 1,5 milhão de quilômetros. É a mesma região do espaço onde opera o Telescópio Espacial James Webb.

Missão deve durar pelo menos cinco anos

A missão principal do Roman está planejada para durar cinco anos, com possibilidade de extensão por mais cinco, a depender das condições operacionais e do combustível disponível.

Após o lançamento, a equipe de controle da missão começou a receber dados de telemetria poucos minutos depois da decolagem. A separação do telescópio em relação ao foguete ocorreu cerca de 31 minutos após o lançamento. A Nasa também confirmou a abertura dos painéis solares e do escudo inferior do instrumento pouco mais de uma hora depois da decolagem.

Nos próximos dias, a equipe deve realizar novas etapas de ativação, incluindo a abertura da antena de alto ganho, a implantação da cobertura da abertura do telescópio, manobras de correção de trajetória e o acionamento do instrumento coronógrafo.

As primeiras imagens científicas do Roman não serão imediatas. A Nasa prevê um período de aproximadamente três meses de implantação, calibração e testes antes do início das operações científicas. As primeiras imagens devem ser divulgadas no início de 2027.

Por que o Roman é considerado tão poderoso

O Roman foi projetado para observar grandes áreas do céu com alta resolução. A comparação mais usada pela Nasa é com o Hubble: o novo telescópio terá nitidez semelhante, mas com campo de visão pelo menos 100 vezes maior.

Na prática, isso significa que o Roman poderá produzir levantamentos panorâmicos do Universo em uma escala muito mais ampla. A Nasa informa que, nos primeiros cinco anos de observação, o telescópio poderá imagear mais de 50 vezes a área do céu coberta pelo Hubble em seus primeiros 30 anos, fazendo varreduras até mil vezes mais rápidas, mantendo sensibilidade e resolução no infravermelho semelhantes.

O instrumento principal é o Wide Field Instrument, uma câmera infravermelha de cerca de 300 megapixels. Cada imagem poderá capturar uma região do céu maior que a aparência da Lua cheia vista da Terra.

O telescópio também carrega um coronógrafo, instrumento capaz de bloquear o brilho de estrelas para tentar observar diretamente planetas ao redor delas. No caso do Roman, o coronógrafo será uma demonstração tecnológica importante para futuras missões que busquem imagens de planetas semelhantes à Terra.

O que o Roman vai estudar

A missão foi desenhada para responder perguntas centrais da astrofísica moderna. Uma delas é sobre a energia escura, nome dado ao fenômeno associado à aceleração da expansão do Universo. Ao mapear bilhões de galáxias e medir a distribuição da matéria em grandes escalas, o Roman deve ajudar cientistas a testar modelos sobre a evolução e o destino do cosmos.

Outro foco será a matéria escura, forma de matéria que não emite luz, mas cuja existência é inferida por seus efeitos gravitacionais em galáxias e aglomerados. O telescópio vai ajudar a mapear como a matéria está distribuída pelo Universo.

A busca por exoplanetas também é uma das principais frentes científicas. A Nasa afirma que o Roman fará um censo estatístico de sistemas planetários na Via Láctea, incluindo mundos que outros telescópios têm dificuldade de detectar.

Além dos objetivos principais, os dados do Roman poderão ser usados em estudos sobre buracos negros, estrelas, galáxias, objetos do Sistema Solar e estruturas cósmicas extremamente distantes.

Roman não substitui Hubble nem Webb

Apesar das comparações, o Roman não substitui o Hubble nem o James Webb. A função dele será complementar a atuação dos dois observatórios.

O Hubble continua conhecido por imagens detalhadas em luz visível, ultravioleta e infravermelha próxima. O Webb tem um espelho maior e capacidade avançada de observação no infravermelho, permitindo estudar objetos extremamente distantes e atmosferas de exoplanetas com grande profundidade.

O Roman entra nessa rede com outra especialidade: ver muito céu de uma só vez. A Nasa descreve a missão como uma forma de criar grandes panoramas cósmicos, identificar alvos relevantes e fornecer contexto para observações mais detalhadas de outros telescópios.

Origem do nome

O telescópio leva o nome de Nancy Grace Roman, primeira chefe de astronomia da Nasa. Ela é reconhecida por ter defendido a importância dos observatórios espaciais e por ter ajudado a abrir caminho para missões como o Hubble.

Roman, que viveu entre 1925 e 2018, ficou conhecida como “mãe do Hubble” por seu papel na consolidação dos telescópios espaciais como instrumentos científicos de grande impacto.

Tecnologia tem origem incomum

Um dos aspectos mais curiosos do Roman é a origem de parte de sua tecnologia óptica. A Nasa informa que elementos importantes do conjunto óptico, incluindo o espelho primário, foram disponibilizados à agência pelo National Reconnaissance Office, órgão norte-americano ligado a sistemas de reconhecimento espacial.

O espelho principal tem 2,4 metros de diâmetro, o mesmo tamanho do espelho do Hubble, mas pesa menos de um quarto do espelho do telescópio lançado em 1990, graças a avanços tecnológicos.

A partir dessa base, a Nasa desenvolveu um observatório voltado à astronomia, capaz de combinar alta resolução com capacidade de levantamento amplo do céu.

Dados serão públicos

A Nasa informa que os dados científicos do Roman serão disponibilizados publicamente após o processamento. Isso deve permitir que diferentes equipes de pesquisadores analisem simultaneamente as informações coletadas.

Esse modelo amplia o impacto científico da missão, porque o telescópio não será usado apenas para os objetivos centrais definidos pela Nasa. Os grandes levantamentos também poderão alimentar estudos independentes em várias áreas da astronomia.

Novo atlas do Universo

Para a Nasa, o Roman deve funcionar como uma “máquina de descobertas”. A combinação de visão infravermelha, campo amplo e velocidade de varredura pode produzir um novo atlas do Universo, revelando objetos raros ou pouco estudados.

A missão chega em um momento de forte avanço da astronomia espacial. Com Hubble, Webb, Euclid, observatórios terrestres e agora o Roman, os cientistas terão instrumentos complementares para observar o cosmos em diferentes escalas, profundidades e comprimentos de onda.

O lançamento bem-sucedido não significa que a etapa científica começou imediatamente. O telescópio ainda precisa completar a viagem até L2, passar por comissionamento e calibração. Se todas as etapas forem concluídas como previsto, as primeiras imagens científicas devem começar a ser divulgadas no início de 2027.