Setembro Amarelo: práticas para construir ambientes de trabalho mais seguros

O mês de setembro é marcado pela campanha Setembro Amarelo, dedicada à conscientização sobre saúde mental e prevenção ao suicídio . No ambiente corporativo, a campanha ganha uma dimensão que vai além das ações pontuais: coloca em discussão a capacidade das empresas de construir relações de trabalho mais saudáveis e ambientes em que pedir ajuda não seja visto como sinal de fragilidade.

Os números ajudam a dimensionar o desafio. A Organização Mundial da Saúde estima que a depressão e a ansiedade resultem na perda de cerca de 12 bilhões de dias de trabalho por ano em todo o mundo . No Brasil, a proporção de profissionais que afirmam já ter solicitado afastamento por questões de saúde mental passou de 15% em 2023 para 20,1% em 2025. O levantamento também mostra um descompasso entre discurso e prática: apenas 28,2% dos entrevistados afirmam se sentir confortáveis para falar sobre saúde mental no trabalho.

Para Aliesh Farias, psicóloga e CEO da Carpediem RH, a resposta passa menos por ações pontuais e mais pela maneira como a organização conduz sua rotina. Ela afirma que o Setembro Amarelo é um importante momento para ampliar essa conversa, mas o acolhimento precisa acontecer diariamente. Empresas que colocam as pessoas no centro das decisões constroem relações mais saudáveis, fortalecem a cultura organizacional e colhem melhores resultados. Segurança emocional não é um benefício, mas um dos pilares de organizações sustentáveis.

1. Desenvolva líderes preparados para acolher

A liderança tem papel central na construção de um ambiente psicologicamente seguro. Gestores preparados para ouvir, reconhecer mudanças de comportamento e encaminhar situações que exigem ajuda especializada conseguem estabelecer relações de maior confiança com suas equipes.

“O colaborador dificilmente procura ajuda se não sente confiança na liderança”, explica Aliesh. “O líder precisa ser alguém que escuta sem julgamento, acolhe as dificuldades e sabe encaminhar a pessoa para o suporte adequado quando necessário”, completa.

Isso não significa transformar gestores em psicólogos, mas prepará-los para reconhecer sinais de alerta, conduzir conversas difíceis e saber quando uma situação precisa ser encaminhada para profissionais especializados.

2. Incentive uma comunicação aberta e respeitosa

A segurança emocional também passa pela possibilidade de falar. Reuniões em que apenas o gestor se manifesta, ambientes em que erros são tratados com punição ou equipes que evitam discordar por medo de consequências tendem a dificultar a identificação precoce de problemas.

Criar espaços para que profissionais compartilhem dúvidas, sugestões e preocupações ajuda a fortalecer o senso de pertencimento. Também permite que desconfortos sejam discutidos antes de se transformarem em conflitos maiores.

“Quando o colaborador percebe que pode discordar, fazer perguntas ou admitir uma dificuldade sem colocar sua posição em risco, a comunicação tende a ser mais transparente e a colaboração entre as equipes pode ganhar força”, afirma.

3. Equilibre produtividade e bem-estar

Metas e resultados continuam sendo parte essencial da dinâmica empresarial, mas alta performance não deve ser confundida com excesso de trabalho.

Distribuição adequada das demandas, prioridades claras, respeito aos períodos de descanso e maior previsibilidade da rotina são alguns dos fatores que podem contribuir para uma relação mais sustentável com o trabalho.

Para Aliesh, empresas que cuidam da saúde mental precisam olhar também para a própria organização do trabalho. “Produtividade sustentável depende de equilíbrio, organização e respeito aos limites das pessoas”, afirma.

A discussão ganha especial importância em um momento em que o adoecimento mental tem impacto crescente sobre o mercado de trabalho. Levantamento da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), com base em dados do INSS, mostra que os afastamentos relacionados a transtornos mentais vêm crescendo no Brasil. Entre 2023 e 2025, os registros de burnout analisados pela entidade passaram de 1.760 para 6.985, um aumento de quase quatro vezes no período.

4. Invista em um programa permanente de saúde mental

Campanhas de conscientização podem ajudar a abrir o diálogo, mas não substituem políticas permanentes.

A CEO da Carpediem RH lembra que a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que a promoção da saúde mental no trabalho deve envolver intervenções organizacionais, treinamento de gestores e trabalhadores e medidas de prevenção, e não apenas ações individuais.

“Programas de apoio psicológico, iniciativas de educação sobre saúde mental, capacitação de lideranças e canais de escuta são algumas das possibilidades”, indica Aliesh.

O mais importante, segundo a especialista, é que essas ações não fiquem restritas a períodos específicos do calendário. “O Setembro Amarelo é um importante momento de conscientização, mas a saúde mental precisa ser tratada durante todo o ano. O acolhimento deve fazer parte da cultura organizacional e estar presente nas decisões e práticas do dia a dia”, diz a especialista.

5. Monitore o clima organizacional

Não basta criar canais de escuta: é preciso saber o que está acontecendo dentro das equipes.

Pesquisas de clima, conversas periódicas, avaliações de liderança e outros mecanismos de escuta podem ajudar a identificar sinais de desgaste, conflitos e insatisfação antes que eles evoluam para problemas mais graves.

O Setembro Amarelo, nesse sentido, pode ser menos um ponto de chegada e mais uma oportunidade para as empresas avaliarem o que acontece nos outros onze meses do ano. “Ouvindo os colaboradores de forma contínua, a empresa consegue agir antes que pequenos desconfortos se transformem em crises. Prevenção sempre será mais eficaz do que agir apenas quando o problema já está instalado”, afirma Aliesh.

Mais do que uma questão relacionada a benefícios ou iniciativas de recursos humanos, a saúde mental passou a fazer parte da discussão sobre a própria sustentabilidade das organizações. A forma como uma empresa organiza o trabalho, prepara suas lideranças e estabelece relações com seus colaboradores pode influenciar não apenas o bem-estar das equipes, mas também sua capacidade de reter talentos, manter produtividade e construir uma cultura de confiança.