Projeto reduz sequelas e melhora da qualidade de vida de pacientes do SUS

Foto: Carlos Macedo/HMV

O projeto REHAB-VM Brasil é um ensaio clínico randomizado que acompanhou mais de 1.900 pacientes em 20 unidades de terapia intensiva públicas, distribuídas por todas as regiões do país. O estudo avalia a implementação de pacotes de reabilitação precoce em pacientes internados com insuficiência respiratória aguda hipoxêmica submetidos à ventilação mecânica e analisa o impacto dessas intervenções na qualidade de vida após a alta hospitalar. Até 2026, a iniciativa pretende medir resultados de longo prazo, como qualidade de vida relacionada à saúde, retorno ao trabalho e aos estudos, taxas de readmissão hospitalar, capacidade física funcional e saúde mental. Esta é a primeira vez que uma intervenção estruturada de reabilitação precoce e pós-UTI, integrada ao uso da telemedicina, é testada em larga escala no Brasil.

Coordenado pelo Hospital Moinhos de Vento e pelo Hospital Israelita Albert Einstein, com apoio do Ministério da Saúde por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde, o estudo surgiu a partir de uma necessidade urgente. Muitos pacientes que sobrevivem à insuficiência respiratória desenvolvem sequelas físicas, cognitivas e psicológicas que impactam de forma significativa a qualidade de vida após a internação.

O cuidado oferecido pelo projeto é organizado em três etapas. A primeira ocorre ainda no leito da UTI, com foco na mobilização precoce do paciente. Em seguida, o acompanhamento prossegue na enfermaria, com a elaboração de um plano de reabilitação personalizado. A terceira fase se estende por dois meses após a alta hospitalar, com sessões realizadas por vídeo. Durante esse período em casa, o paciente recebe suporte de uma equipe multidisciplinar formada por nutricionistas, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas respiratórios e psicólogos, com o objetivo de superar as sequelas físicas e emocionais decorrentes da internação.

Segundo Regis Goulart Rosa, chefe do serviço de Medicina Interna do Hospital Moinhos de Vento e coordenador da pesquisa, o diferencial do projeto está na continuidade do cuidado após a alta. Ele destaca que a ventilação mecânica pode deixar impactos profundos e que o uso da telemedicina permite levar reabilitação especializada diretamente às residências dos pacientes, favorecendo a retomada da autonomia e da funcionalidade.

Para Adriano José Pereira, coordenador médico de TeleUTI no Hospital Israelita Albert Einstein e um dos pesquisadores responsáveis pelo estudo, a complexidade das múltiplas sequelas associadas ao tratamento em UTI exigiu métodos científicos específicos e a integração entre especialistas em terapia intensiva e reabilitação. De acordo com ele, os resultados poderão contribuir tanto para a produção de evidências científicas de relevância internacional quanto para a formulação de políticas públicas baseadas em dados, aplicáveis à realidade dos hospitais públicos brasileiros.

Ao monitorar indicadores como saúde mental, capacidade física e retorno ao trabalho até 90 dias após a internação, a iniciativa oferece ao poder público informações concretas para a otimização do uso de recursos. Para o Sistema Único de Saúde, os benefícios incluem o desenvolvimento de uma solução escalável capaz de reduzir desigualdades no acesso a especialistas, diminuir taxas de reinternação, influenciar diretrizes nacionais de reabilitação e promover uma recuperação mais rápida e com menos sequelas para sobreviventes de doenças respiratórias graves.