Pesquisadora da UnB destaca que maternidade pode potencializar a excelência científica e aponta caminhos para conciliá-la com a carreira acadêmica

Foto: Pexels

No Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, o Brasil se destaca no cenário global pelo protagonismo feminino na produção científica. Dados do levantamento Elsevier-Bori (2024) indicam que o país ocupa a terceira posição mundial em participação feminina em publicações científicas. Já a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) aponta que as mulheres representam 55% dos estudantes de mestrado e doutorado.

Apesar dos avanços, a médica reumatologista Licia Mota, do Hospital Universitário de Brasília (HUB) e orientadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília (FMUnB), chama atenção para a complexidade da maternidade no contexto da pós-graduação. Segundo ela, essa experiência pode tanto impulsionar a excelência científica quanto levar à exaustão e à evasão de talentos, quando não há suporte institucional adequado.

Com ampla experiência na orientação de pós-graduandas, a pesquisadora defende que maternidade e ciência não são dimensões opostas. “Gestar, parir e amamentar desenvolvem competências fundamentais como planejamento extremo, gestão de tempo, resiliência, foco e maturidade emocional. Essas habilidades enriquecem a pesquisa científica, mas raramente são reconhecidas como competências acadêmicas”, avalia.

Na visão da especialista, quando essas capacidades são valorizadas e apoiadas, a maternidade durante a pós-graduação pode se tornar uma experiência planejada, desejada e bem-sucedida. O principal obstáculo, segundo ela, está no desenho atual dos programas de pós-graduação, que ainda não incorporam essa realidade de forma estrutural.

“Vivenciei a maternidade durante o meu doutorado e, a partir da minha trajetória pessoal e profissional, percebo a urgência de aprender a conciliar o tempo da ciência com o tempo da maternidade. Incentivar a presença de mulheres na ciência não pode se limitar ao estímulo à vocação; é preciso garantir permanência, condições reais de formação e equidade ao longo do percurso. Caso contrário, seguimos celebrando entradas enquanto perdemos talentos no meio do caminho”, destaca.

Licia Mota também aponta que muitas mulheres ainda enfrentam a maternidade na academia de forma solitária, silenciosa e exaustiva, reflexo da ausência de políticas claras e de uma cultura institucional sensível à diversidade de trajetórias.

“O problema não é a maternidade, mas um modelo de formação que ainda a trata como exceção, risco ou fragilidade, quando ela faz parte da vida de muitas cientistas. Medidas como extensão de prazos sem penalizações, proteção de bolsas durante licenças e a formação de orientadores sensíveis a essas realidades não são concessões — são investimentos científicos”, afirma.

Para a pesquisadora, a ciência não perde ao acolher a maternidade; perde quando torna o caminho inviável para mulheres. “Avanços como a Lei nº 13.536/2017, que garante a prorrogação de bolsas por maternidade, e a inclusão da licença-maternidade no Currículo Lattes são importantes, mas a mudança cultural e estrutural ainda é urgente”, conclui.