
Um projeto de pesquisa desenvolvido na Universidade de Brasília (UnB) está ampliando o monitoramento da circulação do papilomavírus humano (HPV) entre mulheres jovens atendidas pela rede pública de saúde do Distrito Federal. A iniciativa busca identificar quais tipos do vírus ainda circulam na população após a implementação da vacinação pelo Sistema Único de Saúde (SUS), contribuindo para o aprimoramento das estratégias de prevenção e rastreamento do câncer de colo do útero, que ainda é o que mais mata mulheres jovens no Brasil .
Coordenado atualmente pela professora Andrea Barretto Motoyama, com apoio da Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec) , o estudo representa uma continuidade do trabalho iniciado há cerca de quatro anos pela professora Fabiana Pirani Carneiro. A primeira fase já avaliou aproximadamente 300 mulheres, e os resultados preliminares são considerados promissores. Segundo a pesquisadora, o HPV16, um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento do câncer de colo do útero em todo o mundo, não foi identificado entre as participantes avaliadas até agora . “Os resultados preliminares são bons e mostram que o HPV16 não foi encontrado na nossa população. Isso indica que estamos no caminho certo para a erradicação do câncer de colo do útero”, afirma Andrea Motoyama.
Os dados da primeira fase, que também subsidiaram uma dissertação de mestrado defendida em 2025 , revelam a complexidade do cenário. O teste molecular identificou que 47% das 300 participantes apresentavam infecção por pelo menos um tipo de HPV, sendo que em 32,33% foi detectado um tipo de alto risco oncogênico . A pesquisa também evidenciou uma alta frequência de outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), com 14,33% das jovens testando positivo para agentes como Chlamydia trachomatis, e uma associação positiva entre essas coinfecções e a presença de HPV de alto risco e exames citopatológicos alterados .
Nova etapa amplia acompanhamento
Após a conclusão da primeira fase, financiada pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF) e pela Fundação de Ensino e Pesquisa em Ciências da Saúde (Fepecs), o projeto inicia agora uma segunda etapa, viabilizada por emenda parlamentar da senadora Leila Barros . Nesta fase, mais 250 participantes serão incluídas. Até 120 mulheres que apresentaram alguma alteração nos exames anteriores serão acompanhadas novamente, enquanto outras 130 serão incorporadas ao estudo, ampliando a base de dados e fortalecendo a análise epidemiológica .
A coleta de amostras ocorre na Unidade Básica de Saúde 1 da Cidade Estrutural e no Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB), que recebe participantes de diferentes regiões administrativas do Distrito Federal. A expectativa é que a conclusão da pesquisa ocorra entre 18 e 24 meses .
Desafios estruturais e caminhos para a erradicação
Os resultados da pesquisa ecoam um estudo mais amplo sobre os indicadores de prevenção do câncer de colo do útero no DF, que apontou que a cobertura vacinal contra o HPV em meninas permaneceu abaixo da meta de 90% preconizada pela Organização Mundial da Saúde, com desafios significativos na adesão à segunda dose e no rastreamento citopatológico .
Apesar dos desafios, a pesquisadora Andrea Motoyama mantém uma visão otimista sobre as ferramentas disponíveis para eliminar a doença. “Temos as ferramentas necessárias para erradicar o câncer de colo do útero. A vacinação é segura, protege contra o câncer e, associada ao rastreamento adequado e às práticas sexuais seguras, pode transformar essa realidade. Agora precisamos ampliar o acesso e a adesão a essas estratégias”, conclui.
Além da produção de conhecimento científico, o estudo também prevê ações educativas voltadas à conscientização da população sobre vacinação e prevenção de infecções sexualmente transmissíveis, reforçando a importância do diagnóstico precoce e do acompanhamento regular para mudar a realidade de uma doença que, embora prevenível, ainda impacta profundamente a vida de milhares de mulheres .




















