Especialistas recomendam cautela no posicionamento do Brasil diante de ataques entre EUA e Irã

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

O Brasil deve manter postura cautelosa diante dos ataques realizados pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã, neste sábado (28). A posição brasileira combina dois fatores estratégicos: as negociações tarifárias em curso com os norte-americanos e a condição do Irã como integrante do Brics, bloco de países do chamado Sul Global do qual o Brasil é membro fundador.

Em nota divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores, o governo brasileiro condenou a ofensiva e reafirmou que a negociação é a “posição tradicionalmente defendida pelo Brasil na região”. O comunicado apela para que todas as partes respeitem o direito internacional e exerçam máxima contenção para evitar a escalada das hostilidades e proteger civis e infraestrutura.

Os ataques ocorreram mesmo em meio a tratativas sobre o programa nuclear iraniano. Além da ofensiva americana, Israel também realizou ações militares contra alvos no território iraniano. Em resposta, o Irã lançou mísseis contra países vizinhos que abrigam bases dos Estados Unidos. O governo iraniano sustenta que seu programa nuclear tem fins pacíficos.

Equilíbrio diplomático

Para especialistas ouvidos pela Agência Brasil, o cenário exige uma posição intermediária por parte da diplomacia brasileira.

O professor Feliciano de Sá Guimarães, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), avalia que o Brasil precisa evitar alinhamentos explícitos. Segundo ele, o fato de o Irã ter se tornado membro do Brics coloca o país em situação delicada.

“O Brasil tem que encontrar uma posição que não seja abertamente contra o Irã e não seja abertamente contra os Estados Unidos”, afirma o professor, lembrando que há negociações tarifárias em andamento com o governo norte-americano.

O contexto inclui a expectativa de um possível encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no fim de março.

As negociações comerciais envolvem tarifas impostas em agosto do ano passado, quando produtos brasileiros chegaram a ser taxados em até 50%. Posteriormente, houve retirada de itens da lista de sobretaxação. Em fevereiro, a Suprema Corte dos EUA anulou parte das tarifas, decisão à qual Trump reagiu com a imposição de taxa global de 10% a diversos países.

Brics e autodeterminação

O professor aposentado de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Williams Gonçalves, destaca que a cautela também se explica pelo papel do Brasil como fundador do Brics.

O grupo reúne 11 países-membros e 10 países-parceiros. Rússia e China, aliados estratégicos do Irã, também integram o bloco desde sua criação, em 2006. O Irã passou a integrar formalmente o Brics em 2024.

Segundo Gonçalves, todos os países do grupo compartilham, ao menos em tese, a defesa de mudanças na ordem internacional. Nesse contexto, o Brasil mantém relações relevantes com Rússia e China e uma relação comercial significativa com o Irã.

O especialista ressalta ainda que o Brasil historicamente defende os princípios da autodeterminação dos povos e da não ingerência externa. Para ele, caso os Estados Unidos avancem com a intenção declarada de mudança de regime no Irã, o Brasil poderá ser pressionado a assumir posicionamentos mais firmes.

Postura protocolar e foco econômico

Para o pesquisador do Núcleo de Inteligência Internacional da Fundação Getulio Vargas (FGV), Leonardo Paz Neves, o posicionamento brasileiro até o momento foi “protocolar”, com condenação ao ataque e defesa da negociação.

Ele avalia que o conflito tende a ter impacto limitado sobre o Brasil, mas alerta para possíveis efeitos indiretos, especialmente no mercado de petróleo.

“A alta do petróleo gera inflação e impacta diversos setores da economia”, afirma.

Outro ponto sensível é o comércio bilateral com o Irã. Em 2025, a corrente de comércio entre Brasil e Irã alcançou US$ 3 bilhões, com superávit brasileiro. O país exportou US$ 2,9 bilhões e importou US$ 85 milhões.

O Irã foi o 31º principal destino das exportações brasileiras no ano passado. O milho não moído respondeu por 67,9% dos embarques, seguido pela soja, com 19,3%.

Segundo o pesquisador, caso o conflito se intensifique e haja bloqueios marítimos na região, setores brasileiros podem enfrentar dificuldades logísticas e perda de mercado.

Diplomacia de contenção

Em meio ao cenário de tensão, o Brasil mantém como eixo central de sua atuação diplomática a defesa da negociação e da contenção.

A estratégia combina prudência política, preservação das relações comerciais com os Estados Unidos e manutenção dos vínculos estratégicos no âmbito do Brics, buscando evitar desgaste diplomático em um momento de instabilidade internacional.