
Ferramenta educativa foi tema de seminário em Maceió e reforça o papel das ouvidorias no acolhimento, prevenção e combate a abusos
No ambiente corporativo e na administração pública, o combate ao assédio moral, sexual e institucional tem ganhado ferramentas mais técnicas, educativas e voltadas à prevenção. Entre elas está o assediômetro, recurso que funciona como um termômetro para ajudar trabalhadores a reconhecer comportamentos abusivos e compreender a gravidade dessas situações.
A ferramenta foi um dos temas abordados no 18º Seminário Nacional “Ouvidores & Ouvidorias” e no 8º Seminário Internacional “Ouvidores, Defensorías del Pueblo & Ombudsman”, realizados pelo Instituto Brasileiro Pró-Cidadania, em Maceió (AL), até esta sexta-feira (28).
Ferramenta ajuda vítimas a reconhecer abusos
Uma das maiores dificuldades das vítimas de assédio é identificar que estão sofrendo violência no ambiente de trabalho. Frases como “foi só uma brincadeira” ou “é o jeito do chefe” muitas vezes contribuem para normalizar condutas abusivas.
O assediômetro surge justamente para enfrentar essa percepção. A ferramenta classifica a gravidade e a progressão de comportamentos tóxicos, permitindo que trabalhadores visualizem situações de risco e compreendam quando determinadas práticas ultrapassam limites aceitáveis.
O recurso tem sido implantado em instituições públicas e privadas como estratégia de conscientização, prevenção e combate ao assédio.
Anvisa implantou ferramenta em campanha interna
Durante palestra no seminário, a ouvidora da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Samara Furtado, destacou que o assediômetro foi implantado na agência em março de 2025.
A iniciativa integrou uma campanha de educação continuada voltada à prevenção e ao combate ao assédio moral e a outras formas de assédio, discriminação e preconceito.
Com a repercussão positiva, a Ouvidoria da Anvisa ampliou as ações um ano depois, lançando uma nova versão da ferramenta. A atualização permitiu aplicar metodologia para percepção, metrificação e estratificação do assédio.
Dados ajudam gestores a corrigir desvios
Com a evolução da iniciativa, o assediômetro deixou de ser apenas uma ferramenta de diagnóstico e passou a fornecer subsídios para gestores atuarem nos ambientes de trabalho.
A partir de pesquisas anônimas e análises quantitativas e qualitativas, a ferramenta permite identificar problemas e orientar ações de correção com base em dados concretos.
Inicialmente implantada no âmbito interno da Anvisa, a iniciativa alcançou repercussão externa e despertou o interesse de órgãos, instituições e empresas em conhecer e desenvolver a campanha em seus próprios ambientes de trabalho.
O trabalho rendeu à Anvisa o primeiro lugar na categoria “Ouvidoria Estratégica: instrumento de gestão e transformação institucional”, do VIII Concurso de Boas Práticas da Rede Nacional de Ouvidorias, realizado pela Controladoria-Geral da União (CGU), em conjunto com o Conselho Diretivo da Renouv.
Ouvidorias ganham papel estratégico
Durante muito tempo, o medo de retaliações foi um dos principais obstáculos para denúncias de assédio. Nesse contexto, as ouvidorias passaram a assumir papel mais estratégico.
Mais do que canais de recebimento de queixas, elas atuam como espaços de acolhimento seguro, garantia de sigilo, investigação independente e encaminhamento das denúncias.
Na iniciativa privada e no setor público, as ouvidorias funcionam como ponte entre a vítima e a responsabilização do agressor. Também contribuem para diagnosticar o clima organizacional e promover políticas de prevenção.
A atuação preventiva busca evitar que situações de violência comprometam a saúde física e mental dos trabalhadores, prejudiquem equipes e afetem o funcionamento das instituições.
Entenda as formas de assédio
Para que o combate seja efetivo, as organizações precisam identificar e tipificar as diferentes formas de violência no ambiente de trabalho.
O assédio moral é caracterizado por condutas repetitivas que expõem o trabalhador a situações humilhantes e constrangedoras. Pode envolver metas abusivas, vigilância excessiva, isolamento profissional e desqualificação pública do trabalho.
O assédio sexual envolve qualquer conduta de natureza sexual indesejada, por palavras, gestos ou contato físico, que viole a liberdade e a dignidade da vítima. Em muitos casos, ocorre com uso de hierarquia para coagir.
Já o assédio institucional ocorre quando práticas abusivas são sustentadas pela cultura ou pela forma de gestão da organização. Nesses casos, a intimidação, a perseguição e a gestão pelo medo passam a fazer parte da rotina do ambiente de trabalho.
Mudança de cultura depende de prevenção e resposta
O uso de ferramentas educativas, aliado à atuação firme das ouvidorias, representa uma mudança na forma como empresas e órgãos públicos lidam com o assédio.
A proposta é deixar claro que a violência no trabalho tem diferentes níveis de gravidade e que nenhuma conduta abusiva deve ser minimizada.
Quando um trabalhador identifica no assediômetro situações semelhantes às que vive em sua rotina, dá o primeiro passo para romper o ciclo de abuso. Para isso, é fundamental que a ouvidoria esteja preparada para acolher, proteger e transformar a denúncia em resposta institucional efetiva.




















