122 milhões de meninas estão fora da escola no mundo; projeto brasileiro usa animação para debater o direito à educação

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Foto: Pexels

Enquanto a comunidade internacional repete, ano após ano, o compromisso com a educação universal, os números seguimos teimosamente aquém do discurso. Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que 122 milhões de meninas permanecem fora da escola em todo o planeta, um contingente equivalente à população de um país de médio porte. O dado recoloca o direito à educação no centro dos debates públicos, especialmente quando observado pelo recorte de gênero.

No Brasil, a discussão chega às salas de aula por um caminho pouco convencional, mas eficaz: as animações infantis. O projeto De Criança Para Criança (DCPC), disponível no YouTube, tem produzido conteúdos audiovisuais que abordam temas como acesso das meninas à educação e superação de desafios, tudo sob a perspectiva dos próprios alunos.

A metodologia é simples e envolvente. As crianças participam de rodas de conversa para criar histórias coletivas sobre temas diversos, produzem desenhos e gravam locuções, integrando linguagem, criatividade e tecnologia ao processo de aprendizagem. O resultado são animações que traduzem questões complexas em narrativas acessíveis e lúdicas.

Malala e Zuri: duas histórias, um mesmo direito

Entre os conteúdos produzidos está o curta “Malala: a menina corajosa que ganhou o Nobel da Paz”, lançado em 2025 por crianças de 8 e 9 anos. O vídeo apresenta aos estudantes a trajetória da paquistanesa Malala Yousafzai, reconhecida mundialmente pela defesa do acesso à educação e vencedora do Nobel da Paz. A produção utiliza linguagem infantil para tratar de liberdade de escolha, representatividade feminina e direitos fundamentais.

Outra animação, “Zuri, a menina corajosa”, também de 2025, foi criada por estudantes de 10 a 11 anos. A história acompanha uma garota nascida em uma vila montanhosa do Afeganistão que enfrenta as dificuldades impostas pelo regime talibã para continuar estudando. A personagem descreve as alternativas encontradas para não abandonar os estudos, reforçando a mensagem de que a educação é um direito que não pode ser negado.

Protagonismo infantil como ferramenta pedagógica

Para Vitor Azambuja, especialista em educação e criação e um dos idealizadores do DCPC, o projeto busca reunir crianças de diferentes realidades para transformar vivências, sentimentos e percepções em narrativas audiovisuais autênticas.

“São produções criadas por crianças e que precisam ser estimuladas para circular no cotidiano da família, da comunidade e da sociedade. A construção de uma sociedade mais justa começa com uma educação sólida desde a infância”, afirma.

Azambuja destaca ainda a importância de oferecer ferramentas para que as crianças sejam protagonistas de sua própria história e de transformações sociais. “Um exemplo disso é a animação que aborda a história de Malala, que virou um símbolo de resistência feminina em todo o mundo. É importante que as crianças estejam atentas a esses significados”, complementa.

Representatividade que amplia horizontes

Gilberto Barroso, também CEO do DCPC e especialista em educação e negócios, observa que a presença de personagens femininas nos materiais pedagógicos contribui para ampliar horizontes e romper estereótipos desde a infância.

“Projetos como o De Criança Para Criança mostram que temas complexos, como o direito das meninas à educação e a coragem diante da adversidade, podem ser tratados desde a infância, a partir de uma linguagem acessível e do olhar das próprias crianças”, finaliza.

Com uma abordagem que combina educação, tecnologia e protagonismo infantil, a iniciativa brasileira se soma aos esforços globais para manter o direito à educação na agenda pública e, quem sabe, contribuir para que os números alarmantes de exclusão escolar comecem, enfim, a cair.