Parceria entre Fiocruz, Merck e Nortec viabiliza produção nacional de medicamento oral para esclerose múltipla

Foto: Fabio Cordeiro

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Merck e a Nortec Química anunciaram um novo acordo de transferência de tecnologia que permitirá a produção no Brasil da cladribina oral, medicamento utilizado no tratamento da esclerose múltipla. Comercializado sob o nome Mavenclad®, o fármaco já é distribuído pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e agora passará a ser fabricado em território nacional, reduzindo a dependência externa e fortalecendo o Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS).

O anúncio foi realizado nesta semana e representa a segunda parceria entre Fiocruz e Merck na área terapêutica voltada à esclerose múltipla. A produção ficará a cargo do Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz), em colaboração com a Merck, enquanto a Nortec Química atuará no fornecimento de insumos farmacêuticos ativos (IFAs).

“Para a Fiocruz este é um passo na sua estratégia de ampliar a carteira de produtos ofertados ao SUS. Ao mesmo tempo, estreita laços tecnológicos com seus parceiros nacionais e internacionais, diversificando sua rede de cooperações. Mais uma ação da Fundação em favor do acesso, neste caso, de um medicamento contra a esclerose múltipla. Cerca de 40 mil brasileiros convivem com a doença, sendo 85% mulheres. A importância estratégica de um laboratório público é esta: consolidar o Ceis para garantir a sustentabilidade dos programas do SUS, gerando empregos especializados, reduzindo preços e mantendo a qualidade dos produtos”, afirmou Mario Moreira, presidente da Fiocruz.

Tratamento inovador e de curta duração

A cladribina oral é considerada inovadora por ser o primeiro tratamento de curta duração e eficácia prolongada para a esclerose múltipla remitente-recorrente (EMRR), forma mais comum da doença. Com administração de até 20 dias ao longo de dois anos de tratamento, o medicamento oferece benefício sustentado por até quatro anos, reduzindo recaídas e retardando a progressão da doença.

Atualmente, o fármaco é o único tratamento para esclerose múltipla incluído na Lista de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial da Saúde (OMS), o que reforça sua relevância para a saúde pública global.

A diretora de Farmanguinhos, Silvia Santos, destacou a importância da parceria para a ampliação do portfólio do instituto.

“Para nós, participar dessa parceria com a Merck e a Nortec é reafirmar o nosso compromisso com o fortalecimento do SUS e com a promoção do acesso a tratamentos inovadores, produzidos em território nacional. É um caminho importante para a transformação de políticas públicas em cuidado real para quem mais precisa. A cladribina será o primeiro medicamento disponibilizado pelo Instituto para o tratamento da esclerose múltipla, marcando a expansão do portfólio, que atualmente contempla terapias voltadas a doenças negligenciadas e de alto valor agregado”, reforçou.

Evidências científicas

Estudos recentes apresentados no 39º Congresso do Comitê Europeu para Tratamento e Investigação em Esclerose Múltipla (ECTRIMS) demonstraram que pacientes com EMRR tratados com cladribina oral tiveram redução da lesão neuronal em dois anos. Pesquisas de acompanhamento de longo prazo, com mediana de 11 anos de 435 pacientes, indicaram que:

  • 90% não precisaram de cadeira de rodas

  • 81,2% não necessitaram de qualquer apoio para caminhar

  • 55,8% não precisaram fazer uso de nenhum outro medicamento para esclerose múltipla

Histórico de parcerias

A Merck mantém duas outras parcerias com a Fiocruz em andamento no Brasil. A primeira envolve a betainterferona 1a (Rebif®), também para o tratamento da esclerose múltipla, em colaboração com o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz) e a Bionovis. A segunda é o arpraziquantel, medicamento para o tratamento da esquistossomose em crianças de três meses a seis anos, cuja tecnologia foi transferida para Farmanguinhos/Fiocruz no âmbito do Consórcio Praziquantel Pediátrico.

“A expertise da Merck em colaborar com o setor público é resultado de uma trajetória centenária no Brasil, marcada por inovação e compromisso com a saúde. Somos pioneiros no tratamento da esclerose múltipla e nosso propósito se fortalece com essa segunda transferência de tecnologia na área”, afirmou Arnaud Coelho, vice-presidente regional de Healthcare da América Latina.

Fortalecimento do Complexo Industrial da Saúde

A colaboração entre Merck, Fiocruz e Nortec será formalizada com a assinatura de um termo de compromisso, integrando as ações prioritárias do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (Ceis). O Ceis é considerado um pilar fundamental para garantir a soberania sanitária do país, promover inovação tecnológica e assegurar o acesso universal a tratamentos eficazes por meio do SUS.

O diretor-presidente da Nortec Química, Marcelo Mansur, ressaltou a importância da produção nacional de insumos farmacêuticos para a autonomia do país.

“A Nortec Química tem um longo histórico de cooperações com a Fiocruz, produzindo no Brasil Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs) essenciais para o SUS. A produção nacional de IFAs garante a autonomia do país no abastecimento desses produtos essenciais para a saúde pública, gera empregos e aumenta a densidade tecnológica da indústria química no Brasil. A parceria com a Merck nos permite trazer mais este medicamento inovador e abre novas portas de pesquisa e desenvolvimento”, afirmou.

A expectativa é que a produção nacional da cladribina oral contribua para a sustentabilidade do tratamento da esclerose múltipla no SUS, garantindo o abastecimento regular e reduzindo custos para o sistema de saúde, sem prejuízo da qualidade e eficácia do medicamento.