O paradoxo das vagas vazias

Thais Marion. Foto: Divulgação

Nunca foi tão difícil contratar em um país com tão poucos desempregados. Enquanto a taxa de desocupação brasileira permanece em torno de 5,8%, um dos menores patamares da série recente do IBGE, 81% dos empregadores afirmam não conseguir preencher suas vagas, segundo a Pesquisa de Escassez de Talentos 2025, do ManpowerGroup. O problema deixou de ser a falta de trabalhadores e passou a ser o descompasso entre as competências que o mercado exige e aquelas disponíveis.

Essa transformação ocorre em velocidade inédita. A Inteligência Artificial, a digitalização e a automação estão redefinindo funções, criando novas ocupações e tornando outras rapidamente obsoletas. O Barômetro de Empregos de IA 2025, da PwC, mostra que a demanda por competências relacionadas à inteligência artificial quadruplicou no Brasil em apenas três anos.

Ao mesmo tempo, as chamadas soft skills — conjunto de habilidades humanas como comunicação, pensamento crítico, ética, colaboração e resolução de problemas — tornaram-se diferenciais estratégicos cada vez mais valorizados, mas também cada vez mais escassos.

Outro movimento ajuda a explicar esse cenário. Em busca de maior autonomia, muitos trabalhadores migraram para a informalidade ou para o trabalho mediado por plataformas digitais. Embora essa modalidade ofereça flexibilidade, ela também traz insegurança e menor proteção social.

Lindsey Cameron, professora e pesquisadora da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia, em seus estudos sobre o trabalho mediado por plataformas digitais, demonstra que a autonomia prometida por esse modelo frequentemente convive com novas formas de controle e instabilidade, levando muitos profissionais a buscar novamente vínculos formais.

Nesse contexto, o diploma continua importante, mas já não é suficiente. Empresas valorizam cada vez mais profissionais capazes de aprender, desaprender e reaprender ao longo da carreira. O Fórum Econômico Mundial destaca a adaptabilidade entre as competências mais importantes para os próximos anos, reforçando que o aprendizado contínuo deixou de ser um diferencial para se tornar uma necessidade.

Talvez o maior desafio do mercado brasileiro não seja criar novas vagas, mas preparar pessoas para ocupá-las. Isso exige um compromisso conjunto entre universidades, empresas e trabalhadores com a aprendizagem contínua.

A pergunta que fica é: estamos investindo apenas em um diploma ou na capacidade de continuar aprendendo durante toda a carreira? Afinal, já não existem profissões, cargos ou carreiras verdadeiramente estáticas. Em um mercado que muda continuamente, aprender deixou de ser uma etapa da vida para se tornar a principal condição de empregabilidade.


Thaís Marion Cordeiro
 é graduada em administração, especialista em Gestão de Recursos Humanos e Desenvolvimento de Equipes e Professora no Centro Universitário Internacional – UNINTER