
Documento oficial dos EUA reforça redução de ultra processados, muda abordagem sobre açúcar e álcool e adota diretrizes que o Brasil já segue há mais de uma década
Os Estados Unidos lançaram oficialmente o Guia Alimentar Americano 2025–2030 (Dietary Guidelines for Americans) com uma mensagem direta e pouco comum em documentos federais norte americanos: “coma comida de verdade”. A nova edição marca uma mudança importante no tom e na forma das recomendações alimentares do país, aproximando-se de princípios que o Guia Alimentar para a População Brasileira, publicado em 2014, já defendia de forma pioneira.
Mais curto, mais prescritivo e menos focado apenas em nutrientes isolados, o novo guia americano reforça a necessidade de reduzir drasticamente o consumo de alimentos altamente processados e priorizar alimentos integrais e densos em nutrientes. O documento também substitui algumas métricas tradicionais por orientações mais diretas ao consumidor.
Por que o novo guia chama atenção
Segundo o próprio texto, os Estados Unidos vivem uma emergência de saúde pública, com grande parte dos gastos em saúde voltados ao tratamento de doenças crônicas relacionadas à alimentação e ao estilo de vida. A proposta do guia 2025–2030 é clara: mudar o padrão alimentar para alterar essa trajetória.
A base das recomendações passa a ser uma alimentação construída principalmente com:
- proteínas de origem animal e vegetal,
- laticínios,
- vegetais e frutas,
- gorduras saudáveis,
- grãos integrais,
Tudo isso associado à redução significativa de alimentos altamente processados, ricos em açúcares adicionados, carboidratos refinados, sódio excessivo e aditivos químicos.
O que o Guia Alimentar Americano 2025–2030 recomenda
Proteína em destaque
Pela primeira vez, o guia estabelece uma meta explícita de consumo de proteína baseada no peso corporal:
- 1,2 a 1,6 gramas de proteína por quilo de peso corporal por dia, ajustada às necessidades individuais.
A orientação vale para proteínas de origem animal (ovos, leite, aves, peixes, carnes) e vegetal (feijões, lentilhas, leguminosas, nozes, sementes e soja), com a recomendação de incluí-las em todas as refeições.
Laticínios integrais sem açúcar adicionado
Outro ponto de mudança importante é a recomendação explícita de laticínios integrais, desde que sem adição de açúcares.
A meta indicada é de três porções por dia, em um padrão alimentar de 2.000 calorias.
Frutas e vegetais com metas claras
Para um padrão de 2.000 calorias diárias, o guia recomenda:
- 3 porções de vegetais por dia
- 2 porções de frutas por dia
A orientação é priorizar alimentos inteiros, frescos ou minimamente processados, incluindo versões congeladas ou enlatadas sem açúcar.
Gorduras e grãos integrais
O documento mantém a recomendação de que a gordura saturada não ultrapasse 10% das calorias diárias, mas reforça que a redução de ultraprocessados ajuda naturalmente a atingir esse limite.
Grãos integrais continuam recomendados, com meta de 2 a 4 porções por dia, enquanto carboidratos refinados — como pão branco e produtos embalados — devem ser significativamente reduzidos.
Açúcar e álcool: o discurso ficou mais duro
Açúcar adicionado
O guia 2025–2030 adota uma linguagem mais direta do que a edição anterior:
- Nenhuma quantidade de açúcar adicionado é considerada parte de uma dieta saudável
- Como referência prática, uma refeição não deve conter mais de 10 gramas de açúcar adicionado
Além disso, o documento recomenda evitar bebidas adoçadas, como refrigerantes, bebidas de frutas industrializadas e energéticos.
Álcool
Outra mudança relevante está no álcool. Diferentemente do guia 2020–2025, que estabelecia limites numéricos (até uma dose por dia para mulheres e duas para homens), o novo guia simplifica a mensagem:
- “Consuma menos álcool para melhor saúde.”
- Gestantes, pessoas em recuperação de transtorno por uso de álcool e indivíduos com condições médicas específicas devem evitar completamente o consumo.
O que mudou em relação ao Guia Americano 2020–2025
O guia anterior tinha um perfil mais técnico e detalhado, com foco em percentuais diários:
- açúcares adicionados abaixo de 10% das calorias,
- gordura saturada abaixo de 10%,
- sódio abaixo de 2.300 mg por dia,
- álcool com limites diários definidos.
A edição 2025–2030 mantém vários desses parâmetros, mas muda o foco da comunicação:
- introduz metas de proteína por quilo de peso,
- adota laticínios integrais,
- endurece o discurso sobre açúcar,
- abandona limites numéricos para álcool,
- enfatiza fortemente a redução de ultra processados.
Onde o Brasil saiu na frente
Publicada em 2014, a quarta edição do Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, é reconhecida internacionalmente por sua abordagem inovadora.
Em vez de organizar recomendações apenas por nutrientes, o guia brasileiro introduziu o critério do grau de processamento dos alimentos e estabeleceu uma orientação simples e prática, conhecida como Regra de Ouro:
“Prefira sempre alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias a alimentos ultraprocessados.”
Essa lógica — hoje reforçada pelo novo guia americano — já orientava o público brasileiro há mais de uma década, incentivando o preparo de refeições, o consumo de alimentos frescos e a redução da dependência de produtos industrializados.
O que isso significa para quem quer comer melhor
A convergência entre os guias americano e brasileiro aponta para uma mensagem comum:
- menos ultra processados,
- mais alimentos de verdade,
- mais preparo doméstico,
- menos açúcar, bebidas adoçadas e álcool.
Para o leitor, isso se traduz em escolhas práticas:
- montar refeições com alimentos básicos e pouco processados,
- incluir fontes adequadas de proteína,
- consumir frutas e vegetais diariamente,
- reduzir produtos industrializados,
- tratar álcool como exceção, não regra.
Um sinal de mudança global
O lançamento do Guia Alimentar Americano 2025–2030 sinaliza uma mudança relevante na política alimentar dos Estados Unidos e reforça um movimento global de revisão das recomendações nutricionais tradicionais.
Ao adotar princípios que o Brasil já defendia desde 2014, o novo documento reconhece que a qualidade da alimentação depende menos de cálculos isolados e mais do padrão alimentar como um todo.
Para quem busca melhorar a alimentação, a mensagem final é simples — e agora compartilhada por dois dos maiores guias alimentares do mundo: comer comida de verdade ainda é a melhor estratégia.