
Pesquisa acompanhará profissionais da linha de frente por até 12 meses; vacina ERVEBO é licenciada contra o vírus Zaire, mas será avaliada no atual surto causado pelo Bundibugyo
A Médicos Sem Fronteiras (MSF) e o Epicentre, centro de pesquisa epidemiológica da organização, lançaram na República Democrática do Congo (RDC) um estudo para avaliar o possível efeito da vacina ERVEBO® entre trabalhadores da linha de frente durante o atual surto da doença do Ebola causado pelo vírus Bundibugyo.
Batizado de BRAVO, o estudo acompanhará 20 mil profissionais em Ituri e Kivu do Norte, população particularmente exposta ao risco de contágio e considerada essencial para a resposta ao surto.
Atualmente, segundo a MSF, não há vacina nem tratamento especificamente direcionados ao vírus Bundibugyo disponíveis de forma imediata.
Vacina foi desenvolvida contra outro vírus do Ebola
A pesquisa documentará e avaliará o uso da ERVEBO®, única vacina contra o Ebola atualmente disponível em larga escala. O imunizante tem perfil de segurança estabelecido e já foi amplamente utilizado na RDC.
A vacina, no entanto, foi desenvolvida e licenciada para o vírus Zaire, e não para o Bundibugyo, responsável pelo surto atual.
De acordo com Guyguy Manangama, epidemiologista e diretor-adjunto de operações da MSF, dados preliminares indicam a possibilidade de algum grau de proteção contra o Bundibugyo, hipótese que ainda precisa ser demonstrada cientificamente.
“Embora a ERVEBO não tenha sido originalmente desenvolvida para proteger contra o Bundibugyo, dados preliminares sugerem que ela pode oferecer algum grau de proteção contra o vírus”, afirmou.
“Em uma corrida contra o tempo como a que a RDC enfrenta atualmente, precisamos utilizar todas as ferramentas disponíveis. Mesmo uma proteção parcial pode ajudar a reduzir os casos graves e as mortes. No entanto, esses potenciais benefícios precisam ser demonstrados cientificamente. Esse é justamente o objetivo do BRAVO”, acrescentou.
Estudo terá duração de até 12 meses
O BRAVO foi lançado em 19 de setembro de 2026, no centro de treinamento para profissionais de saúde administrado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em Bunia.
A pesquisa terá duração de nove a 12 meses, sendo três meses destinados à vacinação e pelo menos seis meses ao acompanhamento dos participantes.
O objetivo é produzir dados reais sobre o uso da ERVEBO e sua possível eficácia no contexto do surto atual.
O estudo é realizado em parceria com o Ministério da Saúde da RDC, o Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças (Africa CDC), o Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica do Congo (INRB) e parceiros científicos.
Vacinas específicas para Bundibugyo estão em desenvolvimento
Segundo a MSF, diferentes vacinas especificamente direcionadas ao vírus Bundibugyo estão em desenvolvimento e poderão estar disponíveis nos próximos meses.
Enquanto esses imunizantes não chegam, a ERVEBO está sendo oferecida como medida provisória devido ao perfil de segurança já estabelecido e às aprovações concedidas por autoridades regulatórias, entre elas a Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) e a OMS.
A participação no estudo e a vacinação são voluntárias.
Vacina não substitui medidas de prevenção
A MSF ressalta que a vacinação constitui uma proteção adicional e não substitui as práticas de prevenção e controle de infecções.
Os trabalhadores da linha de frente devem continuar utilizando equipamentos de proteção, seguindo protocolos seguros de atendimento e comunicando rapidamente o aparecimento de sintomas.
“É importante destacar que essa vacina não encerrará o surto atual”, afirmou Manangama.
“No entanto, junto a outras intervenções essenciais, ela pode oferecer proteção adicional às pessoas mais expostas ao risco e ajudar a fortalecer a resposta”, completou.