
O avanço acelerado da inteligência artificial generativa está redesenhando o mapa de riscos para empresas, escritórios de advocacia, instituições financeiras e o próprio Poder Judiciário. Com ferramentas capazes de produzir textos, imagens, vídeos, áudios e documentos extremamente convincentes em segundos, a preocupação com a autenticidade e a confiabilidade das informações utilizadas em decisões estratégicas, investigações corporativas e disputas judiciais nunca foi tão grande.
O cenário é preocupante. Levantamentos recentes mostram que as tentativas de fraude no Brasil bateram recorde, com mais de 1,2 milhão de ocorrências apenas em janeiro de 2025, um aumento de 41,6% em relação ao mesmo período do ano anterior . Paralelamente, a sofisticação dos golpes cresce na mesma proporção da tecnologia. Deepfakes vocais, que simulam vozes reais para autorizar transações fraudulentas, e campanhas de phishing geradas por IA, com mensagens altamente persuasivas e personalizadas, estão entre as novas armas dos criminosos .
O fenômeno tem impacto direto no ambiente corporativo e jurídico. Em um contexto onde a própria IA passa a ser usada para análise documental, pesquisas jurídicas e suporte à tomada de decisões, a linha entre o conteúdo legítimo e o fraudulento se torna tênue. Especialistas apontam que o desafio não está apenas em identificar conteúdos falsificados, mas também em validar informações produzidas com apoio da inteligência artificial. Em áreas que envolvem contratos, patrimônio, disputas societárias e processos arbitrais, cresce a necessidade de verificar metodologias, fontes e critérios utilizados na construção de documentos e análises .
Marcello Guimarães, presidente da SWOT Global Consulting e especialista em resolução de disputas complexas, avalia que a tecnologia, embora traga ganhos extraordinários de produtividade, inaugura uma nova fase de desafios. “A capacidade de produzir conteúdos sofisticados passou a ser acessível a qualquer pessoa. Isso exige um novo olhar sobre autenticidade, rastreabilidade e confiabilidade das informações utilizadas em decisões de alto impacto”, afirma.
As tentativas de golpe que utilizam informações judiciais reais são um exemplo claro dessa nova realidade. Criminosos acessam dados públicos de processos, como valores e partes envolvidas, e entram em contato com as vítimas se passando por advogados. Para dar credibilidade à farsa, utilizam documentos com aparência institucional, linguagem técnica e até a foto do profissional real. O golpe, conhecido como “golpe do falso advogado”, já fez vítimas em todo o país e se aproveita da expectativa de pessoas que aguardam receber valores de ações judiciais .
A escalada das fraudes baseadas em IA também atinge diretamente profissionais da comunicação e figuras públicas. Entre dezembro de 2023 e dezembro de 2025, a organização Repórteres Sem Fronteiras documentou casos de 100 jornalistas vítimas de deepfakes em 27 países. As mulheres são o principal alvo, representando 74% dos casos estudados . Além do dano à reputação, essas falsificações têm consequências práticas: vítimas do conteúdo falso chegam a procurar os jornalistas para cobrar reparações por perdas financeiras, e em alguns casos, a polícia foi acionada para investigar o próprio profissional .
Diante desse cenário, a perícia, a auditoria, o compliance e as investigações corporativas ganham ainda mais relevância. A disseminação de conteúdos artificiais aumenta a demanda por avaliações independentes e análises técnicas capazes de garantir segurança jurídica e confiabilidade aos processos de tomada de decisão. Para especialistas, quanto mais conteúdos forem produzidos por sistemas automatizados, maior será a necessidade de profissionais qualificados para verificar autenticidade, identificar inconsistências e validar evidências .
O alerta é claro: a inteligência artificial é uma ferramenta poderosa, mas a responsabilidade sobre a confiabilidade das informações continua sendo uma atribuição essencialmente humana. A capacidade de distinguir o real do fabricado, de questionar a origem dos dados e de exigir mecanismos robustos de verificação será o diferencial em um mundo onde a fronteira entre a verdade e a ficção se torna cada vez mais indistinta.