
Medida afeta produtos tradicionais do setor, que perderam competitividade na última década e poderiam ampliar a presença brasileira no mercado americano
A entrada em vigor da nova tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre parte das importações brasileiras representa um novo desafio para a indústria nacional de rochas naturais. A medida afeta especialmente granitos, mármores e ardósias, segmentos tradicionais do setor que, segundo a Associação Brasileira de Rochas Naturais (Centrorochas), ainda têm potencial para ampliar a presença brasileira no mercado americano.
Uma parcela relevante das exportações brasileiras de rochas permanece contemplada pela exclusão da subposição tarifária HTSUS 6802.99.00, que inclui, entre outros materiais, os quartzitos brasileiros. Com isso, o impacto da tarifa se concentra sobre produtos que historicamente tiveram grande participação nas vendas externas do setor, mas que perderam competitividade ao longo da última década.
Centrorochas debateu impactos da tarifa com o governo federal
A Centrorochas participou, nesta quarta-feira (22), de reunião com integrantes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), representantes do Ministério da Fazenda e o vice-presidente Geraldo Alckmin.
No encontro, que reuniu outras associações empresariais, o presidente da Centrorochas, Tales Machado, destacou que a nova barreira comercial altera o ambiente competitivo para parte dos produtos tradicionalmente exportados ao mercado americano.
“O setor não está diante apenas de uma possível redução nas vendas atuais. Essa nova barreira comercial recai justamente sobre materiais que historicamente movimentaram grandes volumes de exportação e que ainda têm enorme potencial para ampliar a presença brasileira no mercado americano”, afirma Tales Machado.
Granitos e mármores perderam espaço na última década
Há cerca de dez anos, o Espírito Santo, maior estado exportador de rochas naturais do Brasil e responsável por mais de 80% das exportações nacionais do setor, embarcava aproximadamente 3.500 contêineres por mês. Atualmente, esse volume gira em torno de 2.500 contêineres mensais.
Segundo a entidade, a redução está relacionada à perda gradual de competitividade provocada por fatores como aumento dos custos logísticos, gargalos de infraestrutura, custos portuários e outros entraves associados ao chamado Custo Brasil.
Nesse período, o crescimento das exportações de quartzitos compensou parte da redução de volume. Por apresentarem maior valor agregado, esses materiais ajudaram a sustentar a receita do setor, mesmo diante da perda de competitividade dos produtos tradicionais.
“O quartzito foi fundamental para manter o desempenho do setor, mas ele não substituiu todo o potencial perdido pelos granitos e mármores. O cenário ideal seria manter a competitividade dos materiais tradicionais e, ao mesmo tempo, incorporar o crescimento dos quartzitos”, explica Tales Machado.
De acordo com a Centrorochas, se a competitividade dos materiais tradicionais tivesse sido preservada, somada ao avanço dos quartzitos, o setor poderia estar exportando atualmente cerca de US$ 2 bilhões por ano, acima dos aproximadamente US$ 1,5 bilhão registrados em 2025.
Estados Unidos são o principal destino das rochas brasileiras
Os Estados Unidos são o principal mercado das rochas naturais brasileiras há mais de duas décadas. Em 2025, o Brasil exportou US$ 795 milhões para o mercado americano, o equivalente a aproximadamente 587 mil toneladas embarcadas.
O país respondeu por 53,6% das exportações brasileiras do setor no período.
Quase todo esse fluxo comercial, 99,9%, é formado por produtos semimanufaturados, principalmente chapas. Nos Estados Unidos, essas chapas são transformadas em bancadas, revestimentos, pisos e outros produtos destinados aos mercados residencial e comercial.
Para Tales Machado, os efeitos da tarifa não se limitam às empresas brasileiras.
“As chapas brasileiras abastecem uma ampla cadeia de empresas americanas responsáveis pelo beneficiamento, distribuição, instalação e comercialização desses produtos. Quando se aumenta o custo dessa matéria-prima, toda essa cadeia também é impactada”, afirma.
Recuperação da competitividade fica mais desafiadora
A nova tarifa amplia os desafios para que o Brasil recupere espaço nos segmentos que historicamente lideraram as exportações nacionais de rochas naturais em volume.
Para a Centrorochas, o setor brasileiro demonstrou capacidade de adaptação nos últimos anos, mas a retomada da competitividade depende também de um ambiente comercial previsível e de políticas capazes de reduzir entraves estruturais.
“O setor brasileiro demonstrou capacidade de adaptação ao longo dos últimos anos, mas competitividade não se constrói apenas dentro das empresas. Ela depende também de um ambiente comercial previsível. O novo cenário exige continuidade do trabalho institucional e de políticas que permitam ao Brasil recuperar a competitividade dos segmentos que historicamente impulsionaram as exportações brasileiras”, conclui Tales Machado
