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Globo cancela debate presidencial e deixa brasileiros sem chance de conhecer propostas

Desenho do cenário onde aconteceria o debate com base em imagem divulgada pela Globo News feito com IA.

Emissora cita decisões judiciais que alteraram regras do encontro; cancelamento ocorreu três dias antes do primeiro turno, com Lula ausente e após desistência de Flávio Bolsonaro.

A TV Globo cancelou, na noite de quinta-feira (1º de outubro), às 20:45 o debate entre candidatos à Presidência da República previsto para as 21h30. O encontro seria o último debate televisivo antes do primeiro turno, marcado para domingo (4). O anúncio interrompeu a preparação do programa pouco antes de seu início e retirou do público a oportunidade de acompanhar aquele confronto de propostas na reta final da eleição.

O cancelamento às vésperas pegou os brasileiros de surpresa e deixou até os repórteres da emissora nitidamente constrangidos durante a cobertura do canal Globo News. A sensação de interesse na manipulação ao invés do abastecimento da população de propostas para uma livre escolha se espalhou pelas redes sociais. 

A emissora atribuiu a decisão a duas determinações judiciais que, segundo seu comunicado, interferiram nas regras previamente acordadas: uma do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sobre o tratamento de candidatos ausentes, e outra do Supremo Tribunal Federal (STF), que assegurou a participação de Renan Santos (Missão).

Lula (PT) já havia informado que não compareceria. Flávio Bolsonaro (PL), até então confirmado, anunciou sua desistência naquela noite. Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Romeu Zema (Novo) já estavam nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, quando o encontro foi cancelado. Renan Santos foi pego de surpresa e precisou pegar um terno emprestado. Quando estava chegando na emissora, foi informado do cancelamento. Todavia, foi o único candidato que não perdeu a viagem, já que uma multidão de apoiadores o esperava para a manifestação pela sua não participação. 

Por que a Globo cancelou o debate

No comunicado, a Globo afirmou que decisões judiciais tomadas momentos antes do programa provocaram “insegurança jurídica” e representaram “interferência indevida” na liberdade dos veículos de imprensa para organizar debates eleitorais. O cancelamento foi uma decisão da emissora, anunciada após o recebimento das notificações e da declaração de Flávio Bolsonaro de não participação no debate.

A primeira determinação, da ministra Estela Aranha, do TSE, atendeu a um pedido da coligação de Lula. A magistrada proibiu a exibição do púlpito vazio reservado ao candidato ausente e a dinâmica de perguntas dirigidas a ele. Segundo a Globo, a ata assinada pelos partidos, incluindo o PT, previa essas possibilidades.

Na fundamentação, Estela considerou que a participação é facultativa e que a ausência não pode resultar em mecanismos de coerção ou desequilíbrio entre candidaturas. A decisão foi tomada em análise preliminar. É importante ressaltar que Estela foi nomeada pelo presidente Lula em 2025 e foi assessora especial da Presidência da República no governo Lula. 

A segunda determinação foi a liminar de Gilmar Mendes, do STF, que ordenou a inclusão de Renan Santos. O candidato havia confirmado que participaria depois de obter a medida judicial.

Fato que merece a citação e registro histórico: o pedido acolhido por Gilmar foi apresentado partido Solidariedade, presidido pelo deputado federal Paulinho da Força (SP). Os pedidos anteriores, apresentados pelo Missão, haviam sido rejeitados por Nunes Marques e Cármen Lúcia. A decisão de Gilmar atendeu à iniciativa do Solidariedade.

Nas redes sociais, os eleitores estão furiosos com a situação  e para cada grupo de eleitores as motivações do cancelamento são diferentes. Para eleitores do Lula, a emissora cancelou o debate para defender Flávio Bolsonaro. Para os eleitores do Flávio, o judiciário interferiu no debate, provocando censura.

O fato é que se a Rede Globo estivesse agido, desde o início, com a intenção genuína de promover uma oportunidade igualitária para todos os candidatos, boa parte da judicialização não seria viável. Seria um debate, sem os dois líderes da pesquisa que preferem falar para suas próprias bolhas, do que debater propostas… 

Candidatos reagem ao cancelamento

Após o cancelamento, Renan criticou a ausência de Lula e a desistência de Flávio Bolsonaro, atribuindo a elas o desfecho do encontro.

“Você, brasileiro, não terá debate algum”, declarou.

Em vídeo nas redes sociais, o candidato também afirmou que Flávio teria desistido por receio de enfrentá-lo. Essa foi a interpretação apresentada por Renan; o senador atribuiu publicamente sua desistência à decisão do TSE sobre candidatos ausentes.

Flávio classificou a medida como “censura imposta ao evento pelo TSE”. Lula, que havia comunicado sua ausência à emissora no dia anterior, concedeu entrevista ao Flow Podcast naquela noite.

Caiado chamou o cancelamento de “atentado à democracia brasileira”. Zema questionou a mudança das regras pouco antes do programa, enquanto Cury criticou o protagonismo do STF e defendeu alterações no funcionamento do tribunal. Os três deram declarações à imprensa após o anúncio.

Qual foi o critério da Globo para os convites

A seleção inicial da Globo considerou os partidos que elegeram pelo menos cinco parlamentares em 2022. Por esse critério, foram chamados Lula, Flávio Bolsonaro, Caiado e Cury. O Missão possui atualmente um deputado federal, Kim Kataguiri, e não alcança o requisito de representação que assegura presença obrigatória.

A legislação garante participação a candidatos de partidos, federações ou coligações com pelo menos cinco parlamentares no Congresso Nacional. Para os demais, o convite é facultativo. A posição nas pesquisas, por si só, não cria essa obrigação geral. No caso de Renan, a nova liminar considerou também o critério adicional que a própria Globo havia estabelecido para a hipótese de desistência de outro convidado. A norma também impede excluir um candidato de participação facultativa que já tenha sido convidado.

A situação de Zema mudou em 29 de setembro. Nunes Marques acolheu o argumento de que o Novo conta com cinco deputados em exercício, incluindo dois filiados depois de 2022, e considerou a composição atual da bancada.

As pesquisas usadas na apuração

A pesquisa RealTime Big Data divulgada em 1º de outubro registra Lula com 43%, Flávio Bolsonaro com 39% e Renan Santos com 4% no primeiro turno estimulado. Cury e Caiado têm 3% cada, enquanto Zema aparece com 1%.

Renan aparece numericamente a terceira posição nesse levantamento, mas as diferenças para Cury e Caiado estão dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. O instituto ouviu 2.000 eleitores entre 26 e 30 de setembro; a pesquisa tem confiança de 95% e registro BR-09503/2026 no TSE

O desempenho varia entre os institutos. Na AtlasIntel/Bloomberg e na Palver, Renan também aparece numericamente à frente de Cury, Caiado e Zema. Na Quaest usada como referência pela ata da Globo, fica abaixo de Cury e Caiado, ambos com 4%.

Arte: equipe Ctxt com IA

Os números da tabela são de intenção de voto estimulada no primeiro turno. As margens de erro são de 2 pontos percentuais na RealTime Big Data, 2,2 pontos na Meio/Ideia, 1 ponto na Atlas, 2,4 pontos na Palver e 2 pontos na Quaest. Como os institutos utilizam métodos e períodos de coleta diferentes, a comparação entre eles não demonstra, por si só, crescimento ou queda de uma candidatura.

Especialista critica a judicialização na reta final

Em análise no programa WW, da CNN Brasil, o cientista político Leandro Gabiatti, diretor da Dominium, avaliou que a sequência de decisões reflete disputas internas de poder no Judiciário. Para ele, decisões fragmentadas e incoerentes podem comprometer a percepção de legitimidade do processo eleitoral.

O debate da Globo estava previsto para reunir Renan, Caiado, Cury e Zema após as duas ausências. Com o cancelamento, esse encontro não aconteceu, a três dias da votação. Perde a democracia brasileira! 

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