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Focus escancara a desconfiança: inflação sobe, crescimento some e juros ficam altos, enquanto o ajuste fiscal não vem

Antônio Augusto Pinheiro

No boletim Focus divulgado ontem (04)  pelo Banco Central do Brasil, os dados apenas confirmam o que já está evidente há semanas: o mercado perdeu a confiança na trajetória da inflação.

A projeção para o IPCA ( inflação) de 2026 já encosta em 4,86%, acima do teto da meta. E não foi um movimento isolado, é a sétima alta consecutiva. Quando a expectativa sobe em sequência assim, não é ruído, é tendência.

Ao mesmo tempo, o crescimento segue anêmico, com PIB na casa de 1,85%. Ou seja, o país combina inflação pressionada com atividade fraca, a velha armadilha brasileira que já conhecemos bem.

E o mercado não está comprando discurso otimista. A Selic ( juros) esperada para 2026 subiu para 13%, sinal claro de que ninguém acredita em desinflação rápida. Em bom português, juros altos por mais tempo porque a política econômica não convence.

O quadro é simples, quase didático. Inflação acima da meta, crescimento medíocre e juros persistentemente elevados.

Não existe mágica. O caminho natural diante de uma inflação em elevação seria o governo contribuir com o aumento do superávit fiscal, ajudando a reancorar expectativas. Mas sabemos que isso é praticamente impossível no cenário atual, com o país caminhando para eleições gerais em outubro, período em que a história mostra exatamente o contrário, mais gastos e menos disciplina.

Se alguém ainda tinha dúvida, o Focus de ontem deixa claro que o mercado já entendeu o jogo. Falta agora o governo entender também, ou continuar fingindo que não é com ele, como costuma acontecer em Brasília.

Antônio Augusto Pinheiro é economista, formado pela Universidade de Brasília (UnB), com pós-graduação pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e pelo IBMEC, além de especialização no Fundo Monetário Internacional (FMI). Servidor aposentado do Banco Central do Brasil, construiu uma sólida trajetória na instituição, onde exerceu funções como Consultor da Diretoria, Chefe de Divisão e Chefe Adjunto de Departamento, atuando nas áreas econômica, de supervisão bancária e de liquidação extrajudicial. Atualmente, é colunista da Revista da ABBC (Associação Brasileira de Bancos), abordando temas relacionados à política econômica, ao Sistema Financeiro Nacional e à geopolítica.

Contexto Livre é uma coluna rotativa, de assuntos diversos escrita por pessoas bacanas que tenham algo legal e inspirador pra compartilhar.

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