
A recente aprovação pela Anvisa para o início dos estudos clínicos de fase 1 da polilaminina coloca o Brasil no mapa da medicina regenerativa mundial. Desenvolvida ao longo de 28 anos pela professora Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o laboratório Cristália, a proteína derivada da laminina já mostrou em testes preliminares resultados que a comunidade científica considera “sem precedentes”: pacientes com lesões medulares completas recuperaram movimentos e sensibilidade.
A primeira fase do estudo, que envolverá cinco voluntários com lesões torácicas agudas, tem como foco principal avaliar a segurança da substância, não sua eficácia. Apesar do entusiasmo, os pesquisadores ressaltam que ainda há um longo caminho até a comercialização. “Não tenho certeza absoluta ainda que estaremos diante de algo espetacular, mas isso é possível”, afirma a professora Tatiana Sampaio em entrevista à BBC.
A urgência do acesso público
Para o defensor público federal André Naves, especialista em Direitos Humanos e Economia Política, a conquista científica representa “uma vitória extraordinária da ciência nacional, mas é, acima de tudo, uma pauta de Direitos Humanos”. Em artigo publicado no Diário PCD, Naves destaca que quando se fala em regeneração de fibras nervosas e recuperação de mobilidade, está-se tratando do resgate da autonomia e da cidadania de pessoas que tiveram suas vidas profundamente impactadas.
O Brasil registra cerca de 10 mil novos casos de lesão medular por ano, segundo estimativas da Sociedade Brasileira de Traumatologia Ortopédica e do Ministério da Saúde, sendo a maioria vítimas jovens, em idade produtiva, de acidentes de trânsito e violência urbana. Naves adverte que o grande teste civilizatório do Brasil será assegurar que, após as etapas de aprovação e eficácia, terapias revolucionárias como essa sejam incorporadas com celeridade ao SUS.
“A ciência não pode servir apenas para alimentar o mercado ou restringir tratamentos de ponta a quem tem alto poder aquisitivo. A tecnologia só cumpre seu papel ético quando promove inclusão real e transforma vidas na ponta”, pontua o defensor público, que também chama atenção para o paradoxo do subfinanciamento: a UFRJ, que produziu essa esperança, perdeu a patente internacional do medicamento por falta de verbas para pagar as taxas de manutenção.
Enquanto os estudos clínicos avançam, pacientes com lesões graves já têm conseguido acesso à polilaminina por meio de liminares judiciais. Um dos casos mais recentes é o da nutricionista Flávia Bueno, de 35 anos, que ficou tetraplégica após um acidente de mergulho e, após a aplicação da proteína no Hospital Albert Einstein, voltou a mexer o braço direito.




















