Ícone do site Portal Contexto

Baleias-jubarte passam de 1,5 mil para mais de 35 mil em três décadas

Caravelas (BA), 19/08/2026 – As baleias jubarte migram anualmente das áreas de alimentação polar para se reproduzirem nos trópicos. Abrolhos é o principal ponto reprodutivo da espécie – Tânia Rêgo/Agência Brasil

Recuperação da espécie no Brasil é resultado de décadas de conservação e pesquisa; Abrolhos concentra cerca de 90% das jubartes que chegam ao país

A população de baleias-jubarte que utiliza a costa brasileira para reprodução passou de cerca de 1,5 mil a 2 mil animais no início da década de 1990 para um recorde superior a 35 mil indivíduos, estimado em 2022. A recuperação ocorreu após décadas de proteção, monitoramento e pesquisa científica desenvolvidos principalmente pelo Instituto Baleia Jubarte.

Todos os anos, as jubartes deixam as áreas de alimentação próximas à Antártica e migram para águas tropicais brasileiras para acasalar e ter seus filhotes. O Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, no litoral sul da Bahia, é o principal ponto reprodutivo da espécie e concentra cerca de 90% das baleias que chegam ao Brasil. Elas permanecem no país durante o inverno e a primavera, geralmente entre junho e novembro.

Caça quase levou espécie à extinção

As baleias-jubarte foram caçadas no Brasil desde o período colonial, principalmente para extração da gordura, transformada em óleo utilizado como combustível para iluminação.

A caça foi proibida no país apenas em 1987, quando a espécie já figurava entre os animais ameaçados de extinção.

No ano seguinte, durante atividades ligadas à implantação do Parque Marinho de Abrolhos, pesquisadores localizaram uma pequena população sobrevivente no arquipélago. A descoberta levou Enrico Marcovaldi e a bióloga Márcia Engel a criarem o Projeto Baleia Jubarte para estudar e proteger os animais.

“Na primeira estimativa populacional nossa, que foi no princípio da década de 90, tinha de 1,5 mil a 2 mil baleias. Hoje estamos com mais de 35 mil. O sentimento é de dever cumprido. A população se recuperou de verdade”, afirma Marcovaldi.

A formalização como Instituto Baleia Jubarte ocorreu em 1996. No mesmo ano começou o patrocínio da Petrobras, que permanece como principal financiadora dos trabalhos.

Em 2014, a jubarte deixou a lista brasileira de animais ameaçados de extinção.

Mais de 10 mil baleias já foram identificadas individualmente

Uma das técnicas utilizadas pelos pesquisadores é a fotoidentificação.

Cada jubarte possui um desenho único na parte inferior da cauda, funcionando de forma semelhante a uma impressão digital. A comparação dessas marcas permite saber se determinado animal já foi registrado anteriormente e acompanhar seus deslocamentos ao longo dos anos.

Mais de 10 mil baleias já foram identificadas por meio dos registros fotográficos realizados pelo Instituto e por pesquisadores parceiros.

Atualmente, as imagens também alimentam uma plataforma colaborativa internacional que utiliza inteligência artificial para verificar se a marca caudal pertence a um animal já identificado no Brasil ou em outras regiões do mundo.

Hoje, a principal estimativa populacional é realizada por meio de sobrevoos do litoral entre São Paulo e Rio Grande do Norte.

O recorde superior a 35 mil indivíduos foi registrado na estimativa de 2022. O cálculo referente a 2026 ainda está em andamento e, segundo o Instituto, poderá ficar um pouco abaixo, o que não representa necessariamente retrocesso na conservação.

“As temporadas são cíclicas. Em algumas você vê mais baleias, em outras você vê menos. Tem anos que elas ficam mais no Sul, outros que elas avançam mais pro Nordeste”, explica Marcovaldi.

Mudanças climáticas e poluição são novos desafios

Apesar da recuperação populacional, as baleias continuam expostas a ameaças associadas às atividades humanas.

Segundo Eduardo Camargo, diretor-executivo do Instituto Baleia Jubarte, entre os principais desafios atuais estão a poluição dos oceanos e as mudanças climáticas.

“O lixo impacta o oceano inteiro, que está coberto de microplástico. A questão climática afeta a disponibilidade de alimento, que rege todo o ciclo de vida dos animais”, afirma.

Parte das pesquisas atuais busca justamente compreender como alterações ambientais interferem na condição física, na reprodução e na sobrevivência das jubartes.

Pesquisas revelaram rota entre Brasil e Antártica

Uma das principais descobertas científicas obtidas a partir do trabalho desenvolvido no país foi a identificação da rota migratória das jubartes.

Em 2006, pesquisadores compararam fotografias das caudas de animais registrados no Brasil com imagens obtidas nas ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul, na região da Antártica, e encontraram diversas correspondências.

As pesquisas permitiram confirmar que as baleias utilizam as águas brasileiras para acasalamento e nascimento dos filhotes, enquanto a região próxima às ilhas antárticas funciona como área de alimentação.

O Instituto também mantém pesquisas genéticas. Em uma das análises, cientistas conseguiram identificar parentesco equivalente ao de mãe e filho entre dois animais biopsiados.

Mais de 700 estudantes já participaram das pesquisas

Ao longo de sua trajetória, o Instituto Baleia Jubarte também se tornou um centro de formação científica.

Mais de 700 estudantes de graduação já participaram de seu programa de estágio, colaborando com atividades de coleta de dados e educação ambiental.

Cerca de 60 projetos de mestrado e doutorado foram concluídos em parceria com a instituição, e mais de 130 artigos científicos foram publicados.

Atualmente, pesquisadores investigam, entre outros temas, a condição corporal dos animais, sobrevivência, mudanças na disponibilidade de alimento e alterações de comportamento provocadas por atividades humanas.

Pesquisa também influencia políticas e atividades econômicas

O conhecimento acumulado pelo Instituto é utilizado no desenvolvimento de políticas públicas de conservação marinha e também na orientação de empresas para reduzir impactos sobre os cetáceos.

Um dos exemplos ocorreu no Terminal Aquaviário de São Sebastião (SP). Segundo a Petrobras, informações obtidas pelo monitoramento das baleias ajudaram a modificar a rota utilizada pelas embarcações que chegam e saem do terminal para evitar a área de migração das jubartes.

A Petrobras financia o trabalho do Instituto desde sua formalização. Para o ciclo atual, de quatro anos, foram repassados cerca de R$ 30 milhões, dentro de uma carteira de aproximadamente R$ 450 milhões anuais destinados pela estatal a diferentes projetos ambientais.

Sair da versão mobile