
Um estudo divulgado nesta semana pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) aponta que a substituição da produção automotiva completa no Brasil pela montagem de veículos a partir de kits importados pode resultar na eliminação de 69 mil empregos diretos no país e afetar 227 mil postos indiretos ao longo de toda a cadeia produtiva.
De acordo com a entidade, a ampliação dos regimes CKD (Completely Knocked Down) e SKD (Semi Knocked Down) como modelo principal de operação industrial traz impactos relevantes não apenas para o mercado de trabalho, mas também para o setor de autopeças, para a arrecadação tributária e para a balança comercial brasileira.
Impactos econômicos e industriais
O levantamento da Anfavea estima uma perda econômica de até R$ 103 bilhões para os fabricantes de autopeças, além de uma redução de aproximadamente R$ 26 bilhões na arrecadação de tributos em apenas um ano. As exportações de veículos também seriam afetadas, com uma queda estimada de R$ 42 bilhões, prejudicando o desempenho da balança comercial do país.
Nos modelos CKD e SKD, os veículos chegam ao Brasil parcialmente ou quase totalmente desmontados. No CKD, há processos locais de soldagem, pintura e integração de componentes. Já no SKD, a montagem nacional é mais simples e envolve menor complexidade industrial. Atualmente, a montadora chinesa BYD opera no Brasil principalmente no regime SKD, em sua fábrica de Camaçari (BA), inaugurada no ano passado.
Pressão sobre política de incentivos
Em meados de 2025, o governo federal autorizou uma cota adicional de US$ 463 milhões com Imposto de Importação zerado para veículos elétricos e híbridos desmontados. A medida, válida até 31 de janeiro, beneficiou a BYD e gerou críticas de montadoras tradicionais instaladas no país, como Toyota, General Motors, Volkswagen e Stellantis, representadas pela Anfavea.
Com o prazo próximo do vencimento, a associação intensificou a pressão para que o benefício não seja renovado. Segundo a entidade, a manutenção de incentivos para montagem em grande escala, sem exigência de agregação de valor nacional, ameaça a sustentabilidade da indústria automotiva de alta complexidade instalada no Brasil.
Defesa de regras isonômicas
Para o presidente da Anfavea, Igor Calvet, os regimes CKD e SKD não são, por si só, prejudiciais.
“Muitas montadoras iniciaram suas operações no Brasil por esses modelos, recolhendo os devidos impostos e estruturando sua produção local. O problema é manter incentivos para a simples montagem em alto volume sem exigência de conteúdo nacional”, afirma.
Segundo Calvet, a indústria já instalada no país está preparada para competir com novos entrantes, desde que haja condições equivalentes.
“A Anfavea e suas associadas não temem a concorrência. O que se busca é um ambiente competitivo justo, com regras iguais para todos”, destacou.
Em manifesto publicado em seu site, a associação reforça sua posição contrária à renovação da isenção para importação de kits destinados à fabricação em alto volume. Segundo o texto, esse modelo “não constrói uma indústria forte, não desenvolve cadeias locais, não gera o mesmo nível de empregos e fragiliza, no longo prazo, um setor que levou décadas para ser construído”.
Procurada, a BYD ainda não se manifestou sobre o tema. Já o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) informou, por meio de nota, que o sistema de cotas para importação de CKD e SKD termina neste mês de janeiro e que, até o momento, não há pedidos formais para renovação da medida.
*Com informações da Agência Brasília