
Renascer Através das Lentes entra nos dois últimos dias de inscrições; mulheres que vivenciaram diferentes formas de violência ou vulnerabilidade podem participar gratuitamente, com encontros às terças-feiras pela manhã ou à tarde
Talvez você tenha lido “mulheres em situação de vulnerabilidade” e pensado: “isso não é para mim”.
Talvez nunca tenha se reconhecido como uma mulher que sofreu violência porque ninguém lhe bateu. Ou porque aquilo que aconteceu ficou no passado. Talvez tenha aprendido a chamar controle de ciúme, humilhação de briga de casal, vigilância de cuidado, pressão sexual de obrigação, controle do dinheiro de organização da casa.
Ou talvez simplesmente sinta que, em algum momento, deixou de se enxergar como antes.
É justamente para mulheres que carregam histórias como essas — e que desejam reconstruir a relação consigo mesmas — que o projeto Renascer Através das Lentes mantém abertas suas últimas vagas em Brasília. Restam apenas dois dias para se candidatar à iniciativa, que é inteiramente gratuita.
E há uma mensagem importante antes de qualquer outra: estar em situação de vulnerabilidade não é defeito, fracasso ou sinal de fraqueza.
Vulnerabilidade descreve circunstâncias que podem ter reduzido, em algum momento, a segurança, a autonomia, a autoestima ou as possibilidades de uma pessoa. Não define quem ela é.
Violência não é apenas agressão física
Um dos motivos que levam muitas mulheres a não procurarem projetos de acolhimento é acreditar que sua experiência “não foi grave o suficiente”.
A própria legislação brasileira mostra que violência contra a mulher vai muito além de agressões físicas. O Ministério das Mulheres destaca atualmente seis formas de violência doméstica e familiar reconhecidas pela legislação: física, psicológica, sexual, patrimonial, moral e vicária — esta última ocorre quando filhos, familiares ou pessoas próximas são atingidos para causar sofrimento ou exercer controle sobre a mulher.
A violência psicológica pode aparecer em ameaças, humilhações, chantagem, isolamento, perseguição e controle das decisões. A patrimonial inclui retenção de dinheiro, documentos ou bens. A violência moral envolve calúnia, difamação e ofensas. E a violência sexual não depende de uma relação com desconhecidos: também pode existir dentro de relações afetivas.
Por isso, uma mulher não precisa esperar que sua história se encaixe na imagem mais extrema da violência para reconhecer que algo a feriu.
Não precisa chegar pronta
O Renascer Através das Lentes foi criado exatamente a partir dessa ideia.
A proposta não exige que a participante chegue sabendo explicar tudo o que viveu, nem que já tenha descoberto o que deseja mudar. O próprio projeto resume esse espírito em uma frase simples: “Você não precisa chegar pronta.”
O trabalho utiliza a fotografia, o autorretrato, a narrativa, a escuta e experiências de desenvolvimento humano como ferramentas para que cada mulher possa revisitar a maneira como se percebe.
A iniciativa foi idealizada pela fotógrafa Andrea Sturket, que transformou sua própria experiência de violência doméstica em um projeto direcionado a outras mulheres.
“A fotografia é a linguagem de entrada, mas o Renascer Através das Lentes não é um projeto de fotografia. É um trabalho de transformação humana e social”, explica Andrea na apresentação da iniciativa.
Não é preciso saber fotografar. O centro da experiência não está na técnica da câmera, mas no olhar.
A pergunta que atravessa o projeto é outra: o que acontece quando uma mulher volta a se enxergar?
Fotografia encontra autoconhecimento
O percurso combina o trabalho com imagem desenvolvido por Andrea à Tríade da Felicidade, metodologia conduzida por Thaise Arcuri.
A proposta trabalha três dimensões: “Eu Feliz Comigo”, “Eu Feliz com o Outro” e “Eu Feliz com o Mundo”. Os encontros abordam identidade, autoestima, relações, comunicação, escolhas, percepção da própria realidade e possibilidades de futuro.
Fotografia e desenvolvimento pessoal não aparecem como atividades separadas. Elas formam um único processo de reconexão.
Segundo a coordenadora do projeto, Daniela Monte Rosa, o ambiente foi estruturado para oferecer privacidade, conforto, convivência, escuta e acolhimento, permitindo que cada mulher percorra sua própria experiência ao lado de outras participantes.
Vergonha não deveria tirar uma oportunidade de você
É comum que mulheres que passaram por situações de violência sintam vergonha, dúvida ou até culpa.
Esses sentimentos podem dificultar a busca por apoio. O Ministério das Mulheres alerta que culpar a vítima, minimizar agressões ou normalizar comportamentos de controle estão entre os fatores que fazem mulheres demorarem mais para reconhecer uma situação de violência e procurar ajuda.
O Renascer parte de outra lógica.
Não é um espaço criado para definir uma mulher pelo que aconteceu com ela, mas para ajudá-la a olhar também para aquilo que permanece: sua identidade, seus recursos, suas escolhas, seus desejos e suas possibilidades.
Ter vivido uma situação difícil não transforma ninguém em uma pessoa menor.
Pedir ajuda também não.
E aceitar gratuitamente uma oportunidade de cuidado, fortalecimento e desenvolvimento pessoal muito menos.
Tem as próximas terças-feiras livres? Então considere se inscrever
Para quem ainda está em dúvida, talvez a decisão possa ser mais simples.
Você é mulher adulta, mora em Brasília e consegue reservar as próximas terças-feiras em pelo menos um dos turnos — manhã ou tarde?
Então vale considerar seriamente a oportunidade.
O projeto oferece duas possibilidades de participação, justamente para ampliar o acesso: uma turma no período matutino e outra no vespertino.
A participação é gratuita e os encontros acontecem no SIA Trecho 2, em Brasília.
O preenchimento do formulário não representa confirmação automática da vaga, porque há processo de seleção para composição das turmas. O projeto também prevê reserva de vagas para mulheres negras e mulheres com deficiência.
Últimas vagas
O Renascer Através das Lentes é realizado pelo Instituto de Excelência, Movimento e Amparo (IEMA), dentro do programa Elas Pela Causa.
O projeto conta com recursos provenientes de emenda parlamentar individual da senadora Leila Barros, executada por meio do Ministério das Mulheres. O IEMA atua há mais de 25 anos no desenvolvimento e execução de projetos sociais, educacionais, culturais, de saúde e desenvolvimento humano.
Agora, o projeto entra em sua etapa final de preenchimento das vagas.
Para quem passou pela matéria uma primeira vez e fechou a página porque sentiu vergonha, medo ou achou que “não se encaixava”, esta pode ser a hora de olhar novamente.
Vulnerabilidade não é identidade. Violência não precisa deixar marcas visíveis. E reconhecer que você merece se cuidar não significa se colocar no lugar de vítima.
Pode significar justamente o contrário: decidir ocupar novamente a própria vida.
Serviço
Renascer Através das Lentes
Inscrições: últimos dois dias — últimas vagas
Participação: gratuita
Público: mulheres adultas residentes em Brasília, especialmente aquelas em situação de vulnerabilidade social ou que tenham vivenciado situações de violência
Encontros: às terças-feiras
Turmas: manhã e tarde
Local: SIA Trecho 2, Brasília/DF
Reserva de vagas: mulheres negras e mulheres com deficiência
Inscrição: formulário disponível neste link
Importante: o preenchimento do formulário não garante automaticamente a vaga; haverá seleção para composição das turmas
Realização: Instituto de Excelência, Movimento e Amparo (IEMA), por meio do Elas Pela Causa
Parceria: Ministério das Mulheres
Recursos: emenda parlamentar individual da senadora Leila Barros
Se você estiver vivendo uma situação de violência agora
O Ligue 180 funciona gratuitamente, 24 horas por dia, todos os dias da semana, oferecendo orientação sobre direitos, serviços de atendimento e encaminhamento de denúncias. Também há atendimento pelo WhatsApp (61) 9610-0180. Em situação de emergência ou risco imediato, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo 190.