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	<title>Arquivos Inveja - Portal Contexto</title>
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		<title>Um Sentimento na 3ª Pessoa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Robson Paiva]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Oct 2020 22:11:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Olá, amigos leitores da coluna “Bastidores de Você”, hoje escrevo sobre um sentimento que ninguém admite possuir, mas que no fundo todos nós, em um dado momento sentimos, a inveja. Sim a inveja, esse sentimento que todos nós condenamos e que muitas vezes sentimos, mesmo sem admitir sua existência. Aliás, sempre dizemos, “Fulano é invejoso”, [...]</p>
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<p>A palavra inveja tem origem no latim <em>“in vedere”</em> e significa “<em>não ver”. </em>Como gosto sempre de mergulhar na etimologia das palavras, pois ela me permite descortinar o que está por de trás das coisas, a inveja é exatamente isso, um não ver a si mesmo. A pessoa invejosa, por não conseguir olhar para si mesma, acaba se preocupando em demasia com o outro, gastando tempo e energia em se incomodar com algo do outro.</p>
<p>A pessoa que inveja a outra, mesmo aquelas que têm o discurso do politicamente correto, que mentem para si mesmas, dizendo que têm a chamada inveja branca, são pessoas que não conseguem olhar para si mesmas, pelo contrário, ficam o tempo todo se contorcendo pelo que o outro fez ou conseguiu.</p>
<p>Essa afirmação me lembra a história de um rei, que querendo saber o que era pior, a avareza ou a inveja, convoca a pessoa mais sovina e a mais invejosa do reino.</p>
<p>Ao chegarem diante do rei, ele lhes disse: Concederei a cada um de vocês um desejo, mas darei ao outro exatamente o dobro do que conceder a quem fez o pedido.</p>
<p>Nisso o avarento pensando que se pedisse algo o outro ganharia o dobro, desejou absolutamente nada, para que o invejoso recebesse exatamente o dobro de nada.</p>
<p>Por outro lado, o invejoso, ao saber que o outro receberia o dobro, desejou que um de seus olhos fosse cegado e assim o outro perderia completamente a visão.</p>
<p>O invejoso prefere se prejudicar a ver o outro com mais do que ele. Lembro-me de um café filosófico em que Leandro Karnal faz uma brilhante observação: Segundo o professor, ninguém tem inveja das conquistas de Alexandre, O Grande ou mesmo de Gengis Khan, que segundo estudos realizados tem seus genes em mais de um quarto da população da Terra.</p>
<p>A inveja é sempre contra quem se está perto, aquela pessoa que está próxima de nós e que consegue algo melhor do que a gente. Nela é que se foca a inveja. Aliás isso me lembra Cervantes que dizia:</p>
<p>A inveja vê sempre tudo com lentes de aumento que transformam pequenas coisas em grandiosas, anões em gigantes, indícios em certezas.</p>
<p>Mas porque as pessoas, já que nós nunca somos invejosos (estou sendo irônico), sentem isso? A inveja pode ser definida como um sentimento de angústia, perante o que o outro tem. Este sentimento gera o desejo de ter exatamente o que o outro possui, sejam coisas, qualidades ou “pessoas”, desaguando em uma raiva sobre o objeto da inveja. Também pode ser definida como o sentimento de frustração e rancor gerado perante uma vontade não realizada. A pessoa invejosa desenvolve esse sentimento por conta de uma crença na sua incapacidade de alcançar aquilo que o outro atingiu, ou seja, por reconhecer-se incompetente ou de alguma forma limitado.</p>
<p>A pessoa invejosa, tal como destacamos na frase de Cervantes, cria uma fantasia que, não sendo capaz de lidar com suas limitações e guiada por um narcisismo exarcebado, desloca para o outro uma realidade a qual lhe permite deixar de olhar para si mesmo, fixando seu olhar e seu desejo no outro.</p>
<p>Dito isso, fica fácil perceber que a pessoa invejosa tem como <em>modus operandi</em> desejar o que lhe falta, mas jamais admite que em seu peito pulsa esse sentimento, pois o invejoso não percebe a sua inveja, como na Fábula do Pavão.</p>
<p>Havia um pavão real que era admirado pelos outros animais. Logo com o raiar do sol, ele passava a caminhar pelos campos, cheio de orgulho de sua vasta plumagem. Os animais da floresta ficavam aguardando ansiosamente o momento que o pavão abriria sua exuberante cauda.</p>
<p>Um dia, quando na floresta chegaram corujas de outros lugares, trouxeram a notícia que em havia um faisão dourado que era a ave mais linda que elas puderam colocar seus olhos.</p>
<p>O pavão, ao ouvir a fala das corujas não conseguia acreditar e por conta disso, por se sentir superado pelo faisão, saiu pela floresta a procurar a tão falada ave. Nessa busca o pavão se perdeu e nunca mais foi visto. Conta a lenda que ele foi abatido por um caçador para ser devorado no jantar.</p>
<p>Quando uma pessoa é levada pela inveja ela está em um processo de uma volta ao seu estado egóico primário, de tal sorte que ela passa a ser controlada pelos seus instintos e embora ela tente encontrar justificativas lógicas para seu comportamento, essa explicação é falha, pois na verdade é uma desculpa que se tem para justamente lidar com suas frustrações.</p>
<p>Isso se opera devido ao marco civilizatório da vedação moral ao canibalismo e desta forma, como o invejoso não pode, como nas hordas primitivas, comer a pessoa ao qual ela se julga superior, a pessoa invejosa faz intrigas, inventa falsidades e principalmente, tece um emaranhado de questões com o afã de destruir o objeto invejado.</p>
<p>Assim, podemos perceber que o invejoso é cativo de suas impotências, pois como não consegue olhar para as suas limitações. Sua vida se torna um sofrimento, onde tudo que o outro faz é melhor, e por conta disso, lhe traz dor, uma dor que lhe habita a mente de tal forma que viver, para o invejoso é lutar a cada dia por algo que jamais conseguirá, ser o que ele não é. Uma pessoa invejosa é escrava do desejo do outro e, na verdade, nunca vai conseguir aquilo que anseia, pois ainda que venha a destruir o objeto invejado, ainda assim, sua inveja deslocará para outro objeto e sua angústia inicia-se novamente.</p>
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