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O fim da obrigação da folia: 52% dos brasileiros escolhem descanso no Carnaval

Foto: Pexels

Durante décadas, o Carnaval foi quase exclusivamente associado à folia intensa, multidões e agendas lotadas. Em 2026, porém, um novo comportamento ganha força no país: descansar virou o principal plano para a maioria dos brasileiros. Dados de um levantamento exclusivo do Google mostram que 52% da população pretende usar o período para descanso, autocuidado e bem-estar, enquanto apenas 12% planejam ir a blocos de rua e festas.

Ao mesmo tempo, cresce o chamado Carnaval privado. Segundo o estudo, 32% dos brasileiros preferem celebrar longe das multidões, em encontros com amigos e familiares, viagens curtas ou até mesmo em casa. A folia tradicional segue relevante, mas deixa de ser dominante, refletindo uma mudança clara de prioridades.

Um país cansado, dentro e fora do Carnaval

Esse movimento não surge por acaso. O próprio Google aponta que cerca de cinco em cada dez brasileiros se sentem constantemente estressados, dado que ajuda a explicar por que o descanso passou a ocupar o centro das decisões durante o feriado.

Nos últimos cinco anos, as buscas por conteúdos ligados ao bem-estar cresceram 48%, com picos recorrentes às segundas-feiras, quando o volume é 40% maior do que aos domingos. O dado revela um padrão claro: corpo e mente estão pedindo pausa, especialmente diante de rotinas cada vez mais aceleradas e conectadas.

Para a endocrinologista Dra. Ana Carnavelle, da Starbem, esse comportamento reflete o impacto direto do estresse crônico sobre o organismo. Segundo ela, o estresse contínuo mantém níveis elevados de cortisol por longos períodos, o que afeta o sono, o metabolismo, o apetite e até a imunidade. Quando a pessoa escolhe descansar no feriado, muitas vezes está apenas respondendo a um corpo que já não consegue sustentar esse ritmo.

De acordo com a médica, o descanso deixou de ser apenas uma escolha emocional e passou a ser uma necessidade fisiológica. Não se trata de falta de disposição para festejar, mas de um organismo tentando se reorganizar.

Do FOMO ao JOMO: a mudança emocional por trás do descanso

Além do impacto físico, a mudança também é psicológica. Para a psicóloga Ticiana Paiva, head de psicologia da Starbem, o Brasil vive uma transição clara do FOMO, o medo de ficar de fora, para o JOMO, o prazer de escolher ficar de fora.

Segundo a especialista, por muito tempo, especialmente com a influência das redes sociais, criou-se a ideia de que não participar da festa significava perder algo importante. Hoje, cresce a consciência de que se preservar também é uma forma de viver bem.

O descanso passa a ser visto como um ato de autocuidado, e não mais como isolamento. O prazer deixa de estar apenas no excesso de estímulos e passa a estar na escolha consciente de pausar.

Idade, fase da vida e novas formas de celebrar

O levantamento do Google também mostra que o comportamento varia conforme a fase da vida. Jovens de 18 a 24 anos lideram a intenção de viajar com amigos e ir a blocos de rua. Já o grupo de 35 a 44 anos concentra a maior propensão a frequentar festas e blocos, ainda que com mais planejamento.

A partir dos 45 anos, a preferência muda de forma significativa. Esse público apresenta a menor intenção de ir à folia e a maior intenção de buscar descanso, retiros espirituais ou autocuidado. Entre pessoas de 25 a 35 anos, ganham força os encontros mais intimistas com amigos e familiares, fora dos grandes eventos.

Para Ticiana Paiva, esse movimento revela maturidade emocional. Cada fase da vida pede um tipo de celebração, e hoje há menos culpa em assumir que o descanso faz mais sentido do que a festa.

Descanso como símbolo de luxo contemporâneo

Outro dado relevante aponta que metade do consumo de conteúdo relacionado ao Carnaval já acontece por meio de TVs conectadas, reforçando a imagem de um consumidor plural, que em um momento quer maratonar séries em casa e, em outro, sair para um bloco.

Nesse cenário, o descanso passa a simbolizar um novo tipo de luxo. Não mais associado a viagens caras ou agendas cheias, mas ao direito de desligar, dormir sem despertador e cuidar da saúde física e mental.

Para a Dra. Ana Carnavelle, a cultura da exaustão está sendo questionada. Descansar deixou de ser visto como improdutivo e passou a ser reconhecido como essencial.

O Carnaval continua existindo, mas agora divide espaço com o silêncio, o sofá, o sono e o autocuidado. Para muitos brasileiros, esse equilíbrio representa uma nova e mais saudável relação com o bem-estar.

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